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jun 12

Uma Carta Pedagógica a quem se preocupa com a cultura dos Povos

– Dilmar Paixão –

(professor, escritor e poeta)

 

               Meus caros e minhas estimadas leitoras:

Por primeiro, não tenho certeza se a instantaneidade ainda não trocou o termo ‘leitor/leitora’ por outro da mídia digital. Afinal, são tantas mudanças quase instantâneas.

Minhas primeiras palavras são essas: não tenho certeza. Até me atrevo a pronunciar no plural: não tenho certezas.

Meu prezado editor e ativista cultural Paulo Guimarães, deste Chasque Pampeano: agradeço-lhe pela ideia das atualizações e melhorias no site e pela manutenção deste espaço, já antigo, de dialogar coletivamente com quem acessa a esse sítio cultural.

A ideia de partir a desenhar os traços desta escrita com este título de carta pedagógica está implicada na publicação no Instagram de uma entrevista de Bill Gates tentando explicar o que seria em 1995, a funcionalidade confortável e rápida da internet. E, exatamente ela, a internet me alcançou o Chasque Pampeano para que aqui retornasse, como quem volta ao sítio renovar-se, desabichornar-se, reencontrar-se consigo e, porque não, estar aproximado a outras gentes que pensam, fazem e dialogam prospectivamente em prol da cultura dos povos. Justifico-me assim.

A incompletude do ser humano e a aceleração digital atrasaram os temas para essa coluna, porque as notícias a serem comentadas no site trocaram de lugar infinitas vezes, quase que instantaneamente, ora desatualizando-se, ora adaptando a novas realidades nem sempre esperadas. Foi assim com o empate na eleição para a escolha da Presidenta do Movimento Tradicionalista Gaúcho-MTG e os desdobramentos trágicos – no meu modo de analisar os atos e fatos – de ser preciso recorrer ao sistema judiciário, porque nos ambientes internos da entidade não foi possível qualquer tipo de conversação e diálogo comum que definisse a sequência do movimento (literalmente) entre tradicionalistas. Com o coronavírus também. Com os Editais anunciados há algum tempo e que somente agora a pouco chegaram para incentivar produções artísticas e culturais. Com as condições político institucionais no Brasil e nos países pelo mundo, bem como, principalmente, nas constatações desta total anestesia que parou o mundo.

Cuidemo-nos e tenhamos cuidados com a “in-formação”! Foi com este título que inaugurei o meu texto acadêmico e literário no período da pandemia. Dei-me conta (“na marra”, como muito se disse a algumas décadas de anos), que eu estou triplamente segregado no grupo de risco, sendo a idade o mais modesto dos critérios. Fui ao setor de trânsito e hoje exponho o cartão grande com o carimbo “idoso” (PAIXÃO, 2020). Descobri que sou idoso jovem, porque há outro idoso, o idoso velho, acima de 80 anos. Regulamentos e mais regulamentos. Enfim, senti necessária, a incumbência de redigir esta carta pedagógica e endereçá-la a quem se preocupa com a cultura dos povos.

Surpreendi-me no grupo de risco. Sim, foi a minha antecipação, no embate pessoal. Vi-me confinado e carimbado como “grupo de risco”. Por mais que possa parecer paradoxal, eu também não estava preparado para tanto. Nessas proporções? Não. Se a notícia foi antecipada pelo Raul Seixas, pela insistência da canção do Sérgio Brito ou por profecias de outros autores e seus adeptos, o fato é real: o mundo parou. Inacreditável, mas tudo parou bruscamente. Quem sabe, uma pausa para ouvir uma das minhas cantigas das mais preferidas: Renascimento, do Antônio Augusto Ferreira e do Everton Ferreira (1985). E como, eu gostaria de fazer eco com o Nenito Sarturi (1980) no Canto da Terra, a ser “um canto de aurora e a dizer que está na hora”, pois “… para cantar o meu canto, eu quero acordar o povo, cantar meu canto de terra, cantar meu canto que é novo”.

Renovamo-nos diariamente. E se poderia ir além, bebendo da mesma fonte inspiradora na 1ª Tertúlia Musical Nativista de Santa Maria, da minha estreia como radialista: “Meu canto xucro é um protesto que corcoveia no ar (…) vem meu amigo comigo, vem me ajudar neste grito” (SARTURI, 1980). Mas quais seriam esses gritos ?

Para quem traz a tradição por sobrenome e parentesco, ver e ouvir que o chimarrão deve ser sorvido “de individual” e não mais no coletivizado é uma exigência muito farpada e abrasiva para nós gaúchos. Os gritos se multiplicam geometricamente. O escritor Fabrício Carpinejar (2020, p.4) foi mais poético: Batemos os pés com orgulho” para outra tradição – “desculpe, mas aqui são três beijinhos”. Este cumprimento na imagem de uma partida de pingue-pongue, segundo catalogou o colunista, reserva ao Rio Grande do Sul, ao lado (no mínimo dois metros, agora) de Santa Catarina e Sergipe, o título de únicas mecas do exagero no país. Carpinejar (2020) listou os estados que aceitam um módico beijinho (SP, MT, MS, PR, RR e AP) e os demais com relações de dois beijinhos (RJ, MG, AC, AM, RO, PA, MA, PI, CE, RN, BA, PE, PB, AL, TO, GO e ES). Daí: “#surpresa”! “#fiqueemcasa”! (Eu aprendi mais essa!).

Não tive surpresa alguma, porém, no despreparo dos setores de liderança institucional e da gestão de recursos humanos na área político-administrativa e da saúde – é outro grito. O desequilíbrio gestor nos países está a provar que, na cidadania, nunca podemos ser ingênuos e desconectados. Tanto se orientava sobre a importância e a necessidade dos vínculos entre profissionais, equipes e comunidades, as redes, porém gestores e algumas autoridades rasgaram esses documentos e desmancharam grupos inteiros na rede da saúde pública sem constrangimento algum. E ficou por isso? A análise do exame corporificado na saúde (tão doente!) serve para retomarmos o canto antes proposto: “Meu canto xucro é um protesto, que corcoveia no ar (…) vem me ajudar neste grito” (SARTURI, 1980). Proliferam-se as necessidades e os gritos.

Da minha janela para além deste “#fique em casa”, convém comentar que essa surpresa do isolamento a parar o mundo ninguém esperava. A imprensa, também, não estava preparada para tamanha surpresa. Na amostragem individualizada caíram colegas da educação, da saúde e da imprensa a cada noite e dia. Profissionais e clientela. Prevalência, incidência, dados epidemiológicos, distanciamento social, isolamento, transmissão vertical e horizontal apareceram como termos mastigados a cada entrevista.

         Sem dúvida, foi decisivo esse arsenal tecnológico e a rapidez digital do que é informado – e compartilhado em múltiplas reproduções por quaisquer pessoas – de que parou o mundo. Quem me conhece com mais proximidade, sabe o quanto defendo essa consciência e de quão grande e atenciosa deva ser a comunicação e essa pronúncia da informação entre as pessoas. Explicando numa linguagem mais gauchesca e popular: “foi dada a largada” para as mudanças na cancha da humanidade, embora muitas pessoas, inclusive gestores, governantes, profissionais e demais lideranças, necessitem cuidar e aprender a tratar o povo com sabedoria. Sem ameaças. Perto de um enxame de abelhas, não se fazem movimentos bruscos; barulhos podem irritá-las e desencadear um ataque por instinto natural. Nego-me a idear que se saiba apenas do mel e da polinização.

Quem lhes escreve está instalado no famoso grupo de risco. Isto não me impede, porém, de considerar que, a todas as pessoas, sejam pedagógicos esses acontecimentos e vivências: aprender a conhecer, a fazer, a ser e a viver juntos. Sempre é momento de estudar, examinar os contextos, pesquisar e pensar realidades, compartilhar saberes, ouvir o que as pessoas têm a nos dizer, aprender escutando e comparar teoria e prática com as suas vivências acumuladas e a das outras pessoas. De algum modo, vivemos a incompletude do ser humano e, por isso, em formação ou, mais propriamente: “in-formação” sempre.

Preocupa-me e devemos nos preocupar sempre com a prática dos necessários cuidados com a cultura dos povos, memória e patrimônio. Na invernada grande da convivência da minha família estamos cuidando muito disso e modernizados pelos canais da tecnologia. É assunto para outra feita, aqui mesmo no Chasque Pampeano.

Partenon, Porto Alegre, 06 de junho de 2020

 

Referências

CARPINEJAR, Fabrício. Nossos três beijinhos. Zero Hora, Porto Alegre, 25 de fevereiro de 2020.  p.4.

FERREIRA, Antônio Augusto; FERREIRA, Everton. Renascimento. In: 6ª Tertúlia Musical Nativista. Santa Maria: Associação Tradicionalista Estância do Minuano, 1985.

PAIXÃO, Dilmar Xavier da. Cuidemo-nos e tenham cuidados com a “in-formação”! Porto Alegre: UFRGS, 2020. Disponível em: <https://www.ufrgs.br/levi/prof-dr-dilmar-paixao/comment-page-1/#page-content>. Acesso em: 05 jun. 2020.

SARTURI, José Ataídes (Nenito). Canto da Terra. In: LP: 1ª Tertúlia Musical Nativista. Santa Maria: Associação Tradicionalista Estância do Minuano, 1980.

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