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maio 31

Sem Eira Nem Beira 1

Eira, Beira, Tribeira
Você já se perguntou sobre a origem do ditado popular “sem eira nem beira”? Como acontece com várias expressões famosas que replicamos sem nem saber o motivo, essa também revela um passado de segregação e preconceito.

Segundo a pesquisa “Técnicas construtivas do período colonial”, realizada pelo arquiteto e urbanista Silvio Colin, tal sentença é proveniente de Portugal e está diretamente relacionada às pessoas que não possuíam muitos bens materiais e viviam em situação de pobreza.

Acontece que a gênese das palavras “Eira e Beira” vem também de um estilo arquitetônico utilizado no Brasil Colônia que você pode encontrar facilmente aqui na Cidade Alta, cujas famosas fachadas coloridas dos imóveis foram tombadas como Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade pela Unesco, em 1982.

Como os mais atentos já devem ter percebido, nesse tipo de construção colonial existe uma espécie de extensão ondulada (ou aba) que fica acoplada por baixo do telhado. Para além do toque decorativo, esse aspecto arquitetônico português servia para denunciar o nível socioeconômico do proprietário do imóvel.

Olhando de baixo para cima, essas abas (ou extensões do telhado) eram chamadas de eira, beira e tribeira. As famílias mais abastadas construíam suas residências com os três acabamentos do telhado. Já as casas mais populares eram feitas apenas com um dos acabamentos, a chamada tribeira.

Conversas de calçada relatam que os barões olhavam os mais pobres com muito desdém, o que convenhamos, não é nenhuma surpresa para quem vive nos dias de hoje. Naquela época, quando uma moça se apaixonava por um rapaz pobre, os pais repreendiam. “Mas a casa dele não tem eira nem beira”, diziam.

Segundo relato do escritor paraibano Francisco de Paula Melo Aguiar, a discriminação chegava ao ponto de que somente os ricos, ou seja, pessoas que moravam em casas que tinham “eira, beira e tribeira”, tinham o privilégio de acesso para ver com os próprios olhos a imagem de Jesus Cristo nos templos.

Até hoje a arquitetura das cidades denunciam formas de segregação social e econômica. O fenômeno arrebatador da verticalização, por exemplo, é um dos sintomas contemporâneos mais debatidos nesse sentido. E na sua cidade ou bairro, você consegue enxergar essa diferença?

Matéria publicada no dia 05/03/2018 e atualizada em 03/09/2018

COLABORAÇÃO CESAR TOMAZZINI LISCANO

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