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jan 21

Politica, Informação e Jogo de Ideias

 – Dilmar Paixão –

(professor, escritor e poeta)

 

Enfim, terminou 2020. O ano acabou, porém a pandemia ainda não. Acabará ? Talvez, sim; embora ninguém no mundo possa assegurar datas ou prazos para isso. Os desafios se estenderam e em enormes quantitativos; se estendem, mostrando que falta muito ainda e se estenderão para sentidos outros e horizontes inimagináveis.

Não seria essa a escrita do Chasque. Talvez, nunca o fosse. Porém, fatores como o acaso, o acompanhamento profissional, a busca acadêmica e o interesse pelo bem coletivo mobilizam-me novamente. Fatos de ampla divulgação têm sido noticiados arduamente em múltiplos e generosos espaços que poderiam servir mais para a informação, a autoformação e a descentralização das ideais. Compreendo que os objetivos nem sempre convergem entre si, ou seja, como dizia o político conterrâneo rio-grandense: “os ‘interésses’ são outros”.

Foi “tomando um bom chimarrão”, celular ligado e diante do computador após uma aula virtual, que eu recebi o telefonema de uma pessoa muito presente e convivente conosco no passado, porquanto foi prenda na Associação Tradicionalista Poncho Branco, em Santa Maria; ingressou pela radiodifusão e assumiu a carreira artística com merecido sucesso. Pessoa especial, gente querida, Iara de Fátima. Por vezes, algumas das suas cantigas encontradas na internet.

Telefone convencional, whatsapp e um bom papo entre ideias e comentários. Passagens e relembranças, memórias e versos, emoções e saudades de um tempo passado profícuo e de muita preservação da existência e das “relíquias do pago”. Iara me presenteou com a regravação, que ela fez, da canção Velha Porteira, do Bertussi serrano Paulinho Siqueira. E das velhas porteiras é “belo recordar”, “sentado junto da tronqueira”. E “assoviando uma canção gaúcha”, eu também “sinto saudade do tempo passado”, “das tantas vezes quando regressei”, “tinindo a espora”. Belas imagens.

Se hoje cruzamos a velha porteira, “levando tropas para o outro lado”, um dia nós mesmos seremos levados e plantados num lugar do qual ninguém voltou para contar nada. E muitos amigos, conhecidos, gente buena, anônimos e famosos, temos perdido neste período, maior do que o prazo de uma gestação, há quase um ano. Já disse aqui que o termo ‘quarentena’ há muito perdeu razão de ser.

Como diz a letra da canção, “há muito tempo, eu não vinha matar a saudade…”, com diversas razões para isso. Informações desencontradas, informes mal versados, abordagens de uma confusa política nacional, internacional, local e comunitária, têm demonstrado o quanto é confuso o jogo de ideias e a pouca preocupação com o bem-estar e o bem viver de todos. Essa má política expandida e interpretações equivocadas da realidade têm gerado mais problema do que perseguido soluções para os problemas. Sobram exemplos. Podemos citar a confusão com as vacinas, a falta de oxigênio, os imunobiológicos já pagos e que não são entregues, o avião que quase decolou para buscar estoques de insumos e doses de vacinas – de novo, pagas – que não se sabem quando entregarão e nem se elas virão. Pesquisadores e cientistas da Fiocruz estão com a linha de montagem parada pela ausência de um único ingrediente para fabricar a vacina.

“Aproveitando a oportunidade”, volto à canção do Paulo Siqueira: “À gauchada, eu quero alertar – nossa porteira da tradição não podemos deixar se quebrar”! A pergunta se impõe: – será que tradicionalistas, todos e todas, estamos preocupados com isso ?

Numa dessas noites, também foi surpresa p´ra mim, houve convocação para uma Convenção Extraordinária do MTG, realizada com pauta única e que, após poucas discussões iniciais, foi encerrada, porque o assunto “saiu da pauta”. Exposição pública, desnecessária, gratuita, com acesso ao universo. Se aos tradicionalistas, o evento pode ter sido confuso, imaginemos para quem nem soubesse dessas atividades.

A crise dura da pandemia provocou as pessoas a romperem modelos, a se testarem, a fazerem coisas diferentes do que vinha sendo tradicional em suas vidas. Ora, o gauchismo é social e, como tal, sofre influências e influencia sobremodo essas práticas cotidianas.

Aqui no Chasque Pampeano, gentileza do espaço proporcionado pelo youtuber Paulo Guimarães, há muito tempo interessado na divulgação digital do gauchismo, a ponto de ser o responsável pelo sítio (“site”) da 1ª Região Tradicionalista, tenho me ocupado de pensar, nomear e/ou recomendar fatores valorativos sobre o Movimento Tradicionalista, ou seja, o próprio tradicionalismo, como cultura popular, e em movimento. Meses atrás, cheguei a redigir uma manifestação sobre a disputa da nova presidência do MTG. Contudo, avaliando com o nosso editor Guimarães, entendemos que o texto encaminhado poderia ser distorcido ou estar entendido de modo diverso do propósito inicial redatado. A eleição está posta, mas nem todas as cartas estão na mesa.

O que se viu e se tem visto tem assustado quanto aos rumos futuros para o MTG. Paradoxalmente, há programas bem claros, contextos diferentes, soluções e defesas de ideias expostas sem rodeios. Outras nem tanto. Será por intenção? Não cabe analisar aqui essas candidaturas, porque os votos são delegados por entidades tradicionalistas credenciadas. É preciso alertar que há lacunas, esclarecimentos pouco explícitos, ideias que ficam a dever por não serem ditas. Contudo, basta ler e examinar as propostas cuidando dos detalhes; querer entender.

É preciso analisar com responsabilidade, ver as proposições, os princípios orientadores, as novidades, os compromissos e as soluções viabilizadas. Eu prefiro escolher a inovação, inspirações renovadas e conceder chances a outros participantes, democratizando as participações. Ideias novas e lacunas configuram aquela imagem significante do copo meio cheio e meio vazio. Do que se teve já se pode avaliar o que se terá. Do que se tem, até que ponto se terá mudanças? Escolher e se posicionar exige discussões com responsabilidade. Mais do que bate-boca e falação.

É indiscutível, a necessidade de que a eleição aconteça e seja concluída com normalidade; que as desavenças, as discussões das ideias e a disputa mudem-se em ações colaborativas, para que se fale do mesmo MTG, do mesmo culto ao tradicionalismo.

“Porteira velha, que há muito existe, nessa passagem desse meu rincão, eu resolvi cantar estes meus versos, enquanto pasta o pingo alazão; sentado junto da tua tronqueira, eu vou relembrando com grande emoção e, no intervalo de cada verso, eu vou tomando um bom chimarrão”. Que assim seja, gente gaúcha do tradicionalismo!

Entre a política e o jogo de ideias precisamos que haja melhor informação. Não se pode desprezar bom senso e coerência. Da minha parte, carimbo como um registro final, reitero e apelo essa lembrança da cantiga: “nossa porteira da tradição não podemos deixar se quebrar”. Grato pela lembrança da canção, Iara.

Proseamos mais de outra feita neste espaço Chasque Pampeano !

 

Atlântida, 20 de janeiro de 2021.

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