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jun 22

Parthenon Literário Parte VIII Abolicionismo

Ilustração da quermesse abolicionista promovida em 1884 pelo Centro Abolicionista do Parthenon Litterario e pela Câmara Municipal

Negros de Porto Alegre em 1884, após sua libertação.
Os parthenonistas viam a escravidão como um crime contra a humanidade e como um fator de atraso no processo civilizador, propondo um modelo econômico-social baseado no trabalho livre e na educação dos ex-escravos, e participaram ativamente do movimento abolicionista, frequentemente usado esta bandeira também como pretexto para atacar a monarquia e suas instituições, consideradas obsoletas. Em 1869, dizendo-se inspirados nas atividades do Parthenon, o Diretório Liberal e o Conde de Porto Alegre criaram a Sociedade Libertadora, que conseguiu angariar fundos para libertação de pelo menos 50 crianças escravas. Em setembro de 1883 dois membros do Parthenon, Joaquim de Salles Torres Homem e Júlio César Leal, que integravam a Seção Abolicionista, fundaram uma entidade paralela, o Centro Abolicionista de Porto Alegre, sob a presidência do coronel Joaquim Pedro Salgado, e assumiram a liderança na campanha de libertação dos escravos na cidade. Todos os partidos políticos e a Câmara Municipal encamparam a ideia. Publicavam artigos na imprensa e organizaram a chamada “jornada abolicionista”, levada a efeito entre 12 e 18 de agosto de 1884, quando foram criadas comissões para percorrer os bairros e arrabaldes da capital, passando de casa em casa e persuadindo os senhores de escravos a alforriar seus cativos. O Centro Abolicionista e a Câmara organizaram grandes festejos entre 6 e 8 de setembro, com cerimônias públicas que contaram com a presença das mais altas autoridades estatuais e municipais, paradas cívicas e quermesses destinadas a angariar fundos.
Contudo, havia sérias divergências entre os liberais, os conservadores e os republicanos na maneira como a libertação deveria ser conduzida, e a polêmica se estendia para dentro do Parthenon, mas havia uma preocupação geral de que sem um controle os libertos tenderiam a cair na vagabundagem e no crime. Estava embutida nesse processo uma ideologia artificiosa, que pregava a existência no estado de uma espécie de camaradagem pacífica entre senhores e escravos, os quais, segundo o discurso dominante, eram bem tratados, enfatizando o caráter alegadamente benevolente da elite e a ausência de conflitos sociais. Sabe-se hoje que a situação era bem diferente. Alguns membros do Parthenon, como Alberto Coelho da Cunha e Apolinário Porto-Alegre, tinham uma visão clara sobre o assunto, denunciando os preconceitos de cor e o tratamento cruel que os negros recebiam, mas, naquele contexto, a tendência dominante foi criar um mecanismo de liberdade condicionada, onde os libertos seriam obrigados a prestar serviços aos seus antigos senhores por até sete anos, embora nominalmente estivessem livres, porque, como disse o presidente da província, Rodrigo de Azambuja Vilanova, “os libertos hão de preferir em sua grande maioria acompanhar os seus antigos benfeitores, porque no Rio Grande do Sul a escravidão foi sempre uma instituição familiar, participando o escravo de todas as vantagens dos senhores, aos quais devem estar hoje presos pelos laços de gratidão e de cuja inteligência e experiência não podem prescindir”. De toda forma, como resultado da campanha, todos os escravos da cidade foram libertos em setembro de 1884, quatro anos antes da assinatura da Lei Áurea.

Colaboração: Cesar Tomazzinni Liscano

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