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jun 20

Parthenon Literário parte VII Emancipação da mulher

A integração das mulheres na vida social foi uma das preocupações do Parthenon desde o começo. Na época o papel das mulheres estava confinado à esfera doméstica. Deviam ser principalmente boas esposas e boas mães, sempre submissas à liderança masculina. Tinham algum espaço em atividades culturais, sendo admissível que se tornassem professoras, e a posse de talentos artísticos, como o domínio do canto e do piano, era tida como um sinal de virtude e boa educação, mas era acima de tudo vista como um ornamento social, próprio apenas para exibição em saraus semi-públicos onde deveria imperar o recato. Havia sem dúvida um grande número de mulheres ocupadas no operariado e em trabalhos servis, que também pouco tinham voz, mas sua participação na política e em atividades eminentemente intelectuais era sempre desencorajada, e se pensava que por sua própria natureza não tinham nem capacidade nem inclinação para o abstrato e para o político. Se fossem virtuosas podiam ser endeusadas como “anjos do lar”, mas acreditava-se que tinham uma natureza passional e sentimental e um espírito inconstante, temia-se que sua sexualidade escapasse ao controle, e deviam renunciar a qualquer pretensão de comando. Mulheres não votavam, e mesmo o ofício do magistério, embora incentivado como honroso e natural das mulheres, não escapava dos preconceitos. Como disse Regina Zilberman,
“Destinar as mulheres ao magistério resolvia vários problemas: justificava a necessidade de educá-la; solucionava o problema da falta de mão-de-obra para o magistério, profissão pouco procurada por mal remunerada; não carecia melhorar os proventos, porque o salário da mulher não deveria ser superior ao do homem, e sim adicional. Essas razões estavam recobertas por outras, de caráter ideológico: idealizava-se a professora, chamando-a de mãe e, assim, sugerindo que, ensinando, ela continuava fiel à sua natureza maternal; negava-se o elemento profissional da docência, porque a sala de aula convertia-se num segundo lar; ensinar não seria problema, porque não era trabalho, e sim extensão das tarefas domésticas, o que sustava o eventual pendor emancipatório que essa atividade poderia conter e não contradizia a índole machista da sociedade patriarcal brasileira; e permanecia intocada, e também idealizada, a associação mulher-esposa-mãe, mesmo quando estivesse fora de casa, ganhando o modesto pão de cada dia”.
Os parthenonistas não tinham uma posição consensual a respeito da questão feminina, mas em geral reconheciam que as mulheres estavam abandonadas e que seu potencial no projeto de construção nacional era mal aproveitado, pensando que a sua pobre participação na comunidade se devia acima de tudo a uma educação deficiente, voltada apenas às prendas domésticas. Para remediar essa situação, acompanhando o posicionamento de outros pensadores da época, propunham que uma educação aprimorada refinaria seus espíritos, controlaria suas paixões e as afastaria das frivolidades direcionando sua atenção a temas morais e elevados, e lhes daria mais condições de auxiliar os maridos, preparar melhor seus filhos e formar cidadãos verdadeiramente patriotas e dedicados aos interesses públicos, mas ainda concebiam a mulher essencialmente como destinada ao lar e carente da constante orientação masculina.[99][100] Um artigo de Apolinário Porto-Alegre na Revista Mensal é um bom exemplo da opinião masculina sobre as mulheres no fim do século XIX, quando convidou-as a lerem a revista e apreciar os textos açucarados que se lhes destinavam:

Luciana de Abreu, destacada membro da sociedade, defensora da causa feminina. Seu retrato mostra a cruz de ouro que recebeu do Parthenon em 1873, a maior distinção conferida pela sociedade.
“Sim, a Revista é para vós criaturas sublimes, inimigas juradas das fórmulas secas da ciência e da álgebra dos princípios. […] Filhas d’um enlevo poético de Deus, amantes apaixonadas por instinto e por afinidade das flores, quereis vê-las desabrochar até no estilo. […] Quando quiserdes compreender o supremo arquiteto do mundo, não é por certo nas sábias dissertações dos doutores da Igreja, nem no argumento musculoso da filosofia, é na aurora que desponta, na campina que floresce e no céu que rutila, é antes nas melodias melancólicas de Lamartine ou Chateaubriand”.
O Parthenon admitiu em suas fileiras diversas mulheres, como Luísa de Azambuja, Amália dos Passos Figueroa e Revocata Heloísa de Melo, mas a maior expoente foi Luciana de Abreu, dotada de qualidades invulgares e protegida por Caldre e Fião. Foi a primeira mulher a ser admitida em uma sociedade literária no Brasil, e a primeira que subiu em uma tribuna pública para expressar suas ideias. Órfã, adotada por família humilde e dedicada intensamente ao estudo, tornou-se poetisa, grande oradora e destacada professora pública, e sua vida de esforço era admirada. Alinhava-se à proposta educativa geral dos parthenonistas, mas ia além. Defendia a perfeita igualdade dos gêneros em suas capacidades de inteligência e sensibilidade, não se acomodava ao papel submisso e doméstico que lhes era reservado, queixava-se da injustiça inerente ao tratamento diferenciado, e advogava que às mulheres devia ser reconhecida a capacidade de liderança, e que tinham o direito de chegar aos cursos superiores e governar livremente suas próprias vidas escolhendo as profissões para as quais se sentissem inclinadas. Suas falas causaram viva impressão, de acordo com relatos da época repercutiram em toda a cidade, foram motivo para receber homenagens e presentes, e sua biografia foi publicada na Revista Mensal, mas de fato neste ponto cessava o feminismo dos parthenonistas, que em sua maioria não admitiam conceder tamanha independência às mulheres. Foram exceções nessa posição Bernardino dos Santos, que apoiava uma equiparação plena entre os sexos, e em parte Caldre e Fião, que propunha um modelo educativo mais amplo, tendo apresentado em 1854 para a Assembleia Provincial um completo projeto de educação feminina onde cada mulher receberia educação adequada à sua posição social, e que incluía a criação de escolas rurais para meninas pobres, onde aprenderiam vários ofícios, mas o projeto não foi adotado.
Segundo Cássia Silveira, passado o entusiasmo inicial, os parthenonistas acabaram por entrar em divergências a respeito de como interpretar o discurso de Luciana, e no final suas ideias e projetos foram ofuscados e esquecidos, impondo-se o modelo emancipacionista domesticado e patriarcal sustentado pela maioria, onde se incluía Apolinário, o influente líder do grupo. Seu exemplo, contudo, marcou a cultura local, e hoje é lembrada como uma das pioneiras do feminismo no Rio Grande do Sul.

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