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jun 17

Parthenon Literário Parte VI

Educação e moral
No tempo do Parthenon a educação na Província era mal organizada e de baixa qualidade, e mesmo na capital a situação não era muito melhor, um contexto de precariedade reconhecido pelo próprio governo. As primeiras aulas públicas de Porto Alegre foram fundadas em 1820 com apenas três professores. Em 1832 já haviam sido criadas nove escolas públicas elementares no Rio Grande, mas só uma funcionava. Em 1846, segundo relatório do presidente da província, a educação elementar não apresentava um aspecto lisonjeiro, e os pobres frutos obtidos com a instrução secundária, dada sem método, não compensavam os gastos. Havia em Porto Alegre apenas uma aula de Gramática Latina, frequentada por sete alunos; uma de Francês, com trinta alunos, uma de Geometria e Aritmética, com 29, e uma de Filosofia, com dois. Na década de 1850 foi fundado um liceu na capital, mas não dava conta da demanda e a qualidade de seu ensino era considerada baixa. Funcionavam alguns colégios particulares, mas também com resultados fracos, e as reclamações continuavam na imprensa e nas tribunas da Assembleia Provincial. Para ter formação superior era necessário recorrer às academias de São Paulo e Rio de Janeiro, ou mesmo às do exterior, acessíveis apenas a filhos de famílias abastadas. Os deputados promoveram várias reformas no sistema de ensino nessas décadas, mas elas foram sempre controversas e de difícil aplicação, principalmente pela crônica carência de recursos humanos e financeiros. No início da década de 1860 pouco progresso havia sido feito, e em 1865 apenas 35 alunos frequentavam o liceu, e cinco colégios particulares recebiam em conjunto mais de 350 alunos, mas era ainda muito pouco para uma população local de mais de 17 mil habitantes. Em 1872 75,94% da população rio-grandense era analfabeta, e no ano seguinte o liceu de Porto Alegre fechou suas portas.

Programa de estudos e regulamento do Colégio Rio-Grandense, fundado em 1870 por Apolinário Porto-Alegre, Apeles Porto-Alegre e Vasco de Araújo e Silva
O Parthenon procurou expandir a cultura da província apoiando ou patrocinando várias escolas elementares e secundárias de Porto Alegre e oferecendo cursos noturnos para adultos com várias disciplinas, que incluíam Língua Portuguesa, Aritmética, Geografia, Língua Francesa, Desenho, Geografia e outras. Criou uma biblioteca com 6 mil volumes com importantes obras de Filosofia, História e Literatura e um museu com um acervo de mais de 4 mil itens divididos nas seções de Mineralogia, Arqueologia, Numismática, Botânica e Zoologia, organizado por Firmiano Antônio de Araujo, José Bernardino dos Santos, Pedro Soledade e Augusto Rodrigues Totta. Além das aulas que mantinha, reconhecidas como de utilidade pública pela Intendência, há indícios de que o Parthenon tinha a intenção de fundar uma academia (universidade), que se tivesse se materializado teria sido a primeira da província. Também incentivou a criação de bibliotecas em vários municípios, a fim de ampliar o público leitor, através do seu estímulo diversas escolas públicas e privadas foram fundadas pelo interior da província, mantinha sempre na pauta das discussões a melhoria do sistema de ensino, e desenvolveu planos de educação feminina em larga escala, que no entanto não se concretizaram. Muitos dos membros do Parthenon eram professores e alguns fundaram prestigiadas escolas, como os irmãos Porto-Alegre, Hilário Ribeiro, Vasco de Araújo e Bibiano Francisco de Almeida. Francisco de Paula Soares foi diretor do liceu e Inspetor Geral da Instrução Pública.
Mais do que querer educar, os parthenonistas defendiam todo um novo modelo de sociedade e de progresso, onde os cidadãos seriam instruídos, educados e civilizados, o que só poderia ser conseguido com a extinção dos grande males que viam grassar, como a escravidão, o analfabetismo, o abandono da mulher e a obsolescência das instituições e das políticas em vigor. Neste projeto de civilização estava necessariamente incluída a educação moral da população, onde as mães desempenhariam um papel central como as naturais primeiras mestras, incumbidas de afastar os filhos dos maus costumes, dos vícios, da corrupção e da vida dissipada, fortalecer-lhes o caráter e incentivá-los, como bons cidadãos, para o cumprimento voluntário das suas obrigações cívicas, patrióticas e filantrópicas, temas abordados repetidamente nas sessões da entidade e nos artigos da Revista Mensal. Na visão dos parthenonistas, oferecer bons modelos de conduta era uma das funções mais importantes da literatura. Para alguns a religião também poderia ser uma boa mestra, mas havia opiniões divergentes sobre seu papel e utilidade, e a reputação moral do clero católico gaúcho da época em geral era baixa. Apesar dessa preocupação, dirigida principalmente à juventude, na ideologia propagandeada pelo Parthenon e apoiada pelas elites política e econômica, considerava-se que o Rio Grande do Sul era um celeiro da virtude e da honradez, e cabia aos jovens simplesmente imitar o exemplo dos mais velhos e dos heróis, como mostra um texto de Caldre e Fião:
“Alguns historiadores têm querido que o clima só por si forme o Rio-Grandense tão austero em costumes, tão forte e constante em combates, tão bom e fiel amigo na sociedade e tão vingativo e implacável inimigo quando é ofendido, como ele é atualmente descrito por todos os estrangeiros que têm observado seus hábitos e seus usos e que têm atravessado as plagas que ele habita; mas quanto a mim, que já me considero com algumas propriedades e quesitos necessários ao historiador, suponho dever atribuir-lhe muitas dessas coisas à sua alimentação e educação moral. O Rio-Grandense aprende, desde os seus primeiros passos, a respeitar os mais velhos, a ser amigo, a desprezar o covarde e a vingar-se do inimigo; guarda fiel os usos que lhe foram transmitidos por seus pais e julgar-se-ia desonrado se um dia deixasse de cumprir os preceitos de seu evangelho. O evangelho da moral Rio-Grandense não é escrito, é tradicionário, mas apesar disso, ainda não foi alterado em um só de seus artigos: para sabê-lo, in totum, é necessário ser Rio-Grandense e viver muitos anos naquela divisão política do Império que chamamos Província do Rio Grande do Sul”.
Uma consequência direta da percepção da literatura provinciana como precária e incipiente, e da leitura como dependente de autores de fora, foi a ênfase na criação autóctone. Embora a leitura de obras de literatos e filósofos famosos do Brasil e exterior fosse incentivada, desejava-se tornar a criação literária uma prática rotineira no Rio Grande do Sul, o que se ligava diretamente ao incentivo dado à educação do povo como a base sobre a qual aquela rotina poderia ser construída.

O Partenon de Atenas
Seus objetivos educativos e civilizatórios estavam embutidos na própria denominação da sociedade. O Partenon, dedicado à deusa Atena, é o nome do principal edifício da Acrópole de Atenas, cidade tradicionalmente consagrada como um dos berços da civilização ocidental. Segundo Schnorr & Rosa, “relacionar uma associação literária a uma divindade reconhecida por sua sabedoria, inteligência e prudência parece fazer jus ao projeto dos parthenonistas de lutar contra a ignorância da população rio-grandense, em sua maior parte composta por indivíduos analfabetos”. Conscientes das carências do meio, assim como estavam conscientes do seu próprio preparo superior, viam a si mesmos não só como construtores da literatura rio-grandense, mas como heróis, destinados a travar uma batalha incessante e sofrer tormentos infinitos para vencer gigantes obstáculos. Ao mesmo tempo, tentavam equiparar a bravura nas artes militares às conquistas da luta intelectual, numa terra que não dispunha de bibliotecas nem de boas escolas (e nenhum curso superior), onde as proezas nas armas e nas tribunas políticas sempre haviam ganhado os maiores louvores. A Revista Mensal está cheia de editoriais e artigos carregados de uma florida retórica triunfalista e messiânica, bem de acordo com o gosto romântico da época e com as visões de seus fundadores. Um exemplo desse discurso aparece na apresentação do Programa do Parthenon, escrito por Apolinário Porto-Alegre e publicado na primeira edição da Revista Mensal, do qual seguem alguns trechos:
“O dia 18 de Junho de 1868 marcou uma grande época. Ergueu-se um monumento. Os alicerces foram lançados sob os auspícios de horrenda tempestade. Parecia que terra e céus conspiravam contra uma ideia em sua sublime realização. Havia tudo a vencer, tudo a criar sem o sorriso lisonjeiro da esperança, sem as cambiantes de amena aurora, sem uma palavra de animação! Os alvanéis do Parthenon eram apóstolos d’uma crença, como o foram Cefas e Paulo; a uns e outros assistiu a mesma energia moral. O culto às letras constitui também uma religião e, como toda a religião, não deixa de ter: um coliseu de martírio, uma coroa de espinho e uma apoteose sobre a lápida que revestí-lo. O dia 18 de Junho abriu o ciclo literário na província, que até então, não pudera reunir um núcleo, onde a luz civilizadora se concentrasse sobre o verdadeiro, o bem e o belo. […] A geração, que encontramos ao transpor os umbrais da existência, tenha para a planta do nosso amor ao menos um sorriso que a vivifique, um vislumbre de animação, que, como o orvalho das noites, lhe inocule seiva e vigor, dando-lhe beleza e graça, fazendo a produzir flores balsâmicas e frutos doirados. A semente está lançada nos camalhões da literatura. Deem-lhe cuidos, e em breve, gemando a folhagem ao sol do favoneio público, há de ressarci-lo cabal e latamente. Se algum espirito cético então surgir, com Hamlet, lançando-lhe um riso de sarcasmo, um olhar de dúvida, temos por única resposta ao arúspice de infortúnio, só duas palavras de S. Agostinho: Tole, lege. Erga-se e leia. São as primícias da mocidade rio-grandense, que, arcando em extrema luta contra a indiferença geral, tem ódio para o passado, coragem para o presente e esperança para o futuro”.

COLABORAÇÃO : CESAR TOMAZZINI LISCANO

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