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jun 11

Parthenon Literário Parte V

Política, estética e regionalismo
Havia pouca unidade de propósitos políticos entre os parthenonistas, mas a maioria estava de alguma maneira politizada e muitos eram filiados ou mantinham ligações claras com partidos. Alguns dos seus principais representantes eram republicanos, especialmente Apolinário Porto-Alegre, que exercia poderosa influência sobre o grupo e seria mais tarde um dos fundadores do Partido Republicano Rio-Grandense. Outros, embora procedentes das fileiras do Partido Liberal, como Caldre e Fião, faziam coro com os republicanos nas queixas contra a política centralizadora do Governo Imperial A província tinha uma tradição militarista e libertária, que havia atingido um ponto culminante na Revolução Farroupilha (1835-1845), que surgiu a partir de reivindicações de maior autonomia e de pressões econômicas, mas logo evoluiu como um movimento separatista, fundando em parte da província uma efêmera república independente. O sangrento conflito foi reprimindo pelo Governo Imperial, mas chegou a uma solução conciliatória, reintegrando-se os dissidentes à ordem constituída. Em vista disso, por décadas o elemento separatista e republicano foi obscurecido no discurso oficial rio-grandense, mas essas associações voltaram a ser enfatizadas na época de florescimento do Parthenon Litterario e dentro do seu círculo. Vários fatores se imbricaram para a ocorrência desse fenômeno. Na década de 1870 o movimento republicano havia ganhando muito ímpeto no Brasil, e no Rio Grande a revolução passou a sofrer releituras positivas, enaltecendo-se a coragem dos seus promotores, agora vistos como heróis da causa da liberdade, em oposição à monarquia, entendida como fonte de opressão.
Muitos dos parthenonistas eram egressos do extinto Instituto Histórico e Geográfico da Província de São Pedro (IHGPSP), uma filial do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro que havia desaparecido antes da fundação do Parthenon. Já naquela instituição os interesses principais eram a articulação da historiografia regional e sua inserção na historiografia nacional. Caldre e Fião, quando foi orador oficial do IHGPSP, já dizia que a escrita da história era a melhor maneira de colaborar no progresso da nação, pois integrava em uma só disciplina todos os aspectos da vida nacional, permitindo formar uma ideia coerente de sua “marcha civilizatória”, identificar suas fontes, traços e metas comuns e assim definir sua verdadeira identidade. Já estava implícito no programa do IHGPSP, como sua contribuição à historiografia do Brasil, valorizar o elemento local, e planejou publicar uma série de biografias de próceres rio-grandenses, fundando a galeria de heróis locais, mostrados ao público como exemplos de virtude cívica e de grandeza moral. A ideia, porém, não vingou, devido ao desaparecimento precoce do instituto. Mesmo que a orientação do Parthenon fosse muito mais literária do que científica, o interesse pela história permaneceu forte, a ideologia do IHGPSP foi largamente continuada, e o projeto da galeria de heróis teve materialização, como já foi visto, nas páginas da Revista Mensal.

Um gaúcho do século XIX com seu traje típico
Desta maneira, era estabelecido o contexto para a definição da identidade sociocultural do estado, ainda embrionária e desarticulada,[80] e para a formação de uma literatura de caráter regionalista, dita gauchesca, cujos primeiros expoentes serão encontrados entre os membros do Parthenon, que divulgam seus escritos na Revista Mensal e publicam obras independentes. A temática regionalista, de fato, não era exatamente uma novidade e vinha sendo gestada há bastante tempo, embora dispersiva e inconsistentemente. Havia um significativo cancioneiro popular em circulação que enfocava a vida na campanha, alguns historiadores já haviam trabalhado especificidades da história e do folclore local, matérias na imprensa e em revistas como O Guyaba às vezes abordavam esses tópicos e alguns literatos precursores já haviam publicado obras com elementos regionalistas, como Manuel de Araújo Porto-Alegre em Brasilianas (1844), Ana Eurídice Eufrosina de Barandas, em alguns poemas da coleção O Ramalhete (1854) e no conto Fany ou o Modelo das Donzelas (1847), e sobretudo Caldre e Fião, em seu romance A Divina Pastora (1847), mas foi através do Parthenon que o regionalismo seria convertido em um programa definido e seria cultivado literariamente de maneira sistemática.
Neste processo, a imagem do rio-grandense, doravante chamado gaúcho, foi mitificada como uma síntese de valores ideais recolhidos do imaginário farroupilha e do folclore que cercava os índios e os primeiros povoadores: independência, bravura, virilidade, honestidade e honradez, e o alegado caráter guerreiro e heroico do povo foi reverenciado e realçado para colocá-lo como o natural defensor da fronteira sul do Império.[84] Como disse Luis Fernando Beneduzi, para eles o gaúcho era “uma espécie de super-homem, invencível, indomável e que estava sempre pronto para lutar até a última gota de sangue pelas causas justas Além disso, mais do que se preocuparem com a descoberta e valorização da originalidade da cultura local, havia uma corrente que concebia a província como muito diferenciada do restante do Brasil, quase como uma nação à parte, e por isso merecedora de uma literatura que a representasse e distinguisse adequadamente.[85] Nas palavras de Guilhermino César,
“Através dos seus primeiros editores [da Revista Mensal], a nova corrente se deixou atrair, acima de tudo, pelo passado gaúcho, procurando reviver o guasca largado, o homem livre dos primeiros tempos da conquista, os rebeldes de 1835. […] Para a região da fronteira, para o seu território banhado de sangue e ações heroicas, foi que se dirigiu a imaginação de Apolinário, de Taveira Júnior, de Múcio Teixeira, de Caldre e Fião, do desventurado Lobo da Costa, de todos, enfim, que tinham algo a dizer sobre a gente pampeana, seus pesares e alegrias. O peão de estância, herdeiro do ‘monarca das coxilhas’, do herói dos tempos primeiros, o peão que já era agora uma desbotada imagem da liberdade e ousadia do outro, passou a representar para os escritores, por efeito de uma transposição perdoável, o brio, a altivez, a coragem pessoal do antigo senhor das savanas. Ocupou aqui o lugar que coubera ao índio e ao negro na literatura liberal que desde Macedo enfartara as letras do centro e norte do país”.

Poema “Lúcia”, da coleção Flores do Pampa, de Múcio Teixeira, na Revista Mensal nº 10, outubro de 1873
Contribuiu para isso um tardio florescimento no sul do Romantismo literário, um movimento que tinha entre seus objetivos valorizar o pitoresco, a cor local e a originalidade das tradições e identidades regionais e nacionais, geralmente idealizando seus personagens. No ambiente parthenonista, entendeu-se o regionalismo como uma variante do nacionalismo cultivado pelos românticos de outras partes do Brasil e como um caminho para a conquista da autonomia que desejavam para as letras da província. Segundo Flávio Loureiro Chaves, o surgimento do regionalismo no Rio Grande deve-se em parte ao interesse tipicamente romântico pelo folclore, pela história, pela investigação linguística, problematizando o debate sobre o nacionalismo e conduzindo “à valorização consciente e programática do regional”. Para Regina Zilberman, os parthenonistas “realizam de modo acabado a finalidade maior do Romantismo brasileiro, a saber, a arrumação poética do desejo nacional de ver-se reproduzido na literatura. […] O que José de Alencar empreende no âmbito do país, encontrando para cada indivíduo uma representação heroica no interior do texto literário, alcançam igualmente Apolinário Porto-Alegre e seus companheiros”. Nas palavras de Carine Daniel, “o Romantismo gaúcho é uma espécie de compromisso entre o mítico e o documentário. Sobre a realidade observada, paisagem, tipos, costumes, é investida a visualização mítica que a transpõe para o plano de idealidade”
Nas páginas da Revista Mensal apareceram crônicas, poemas, contos e novelas como Serões de um Tropeiro, de Bernardino dos Santos; Tapera, Feitiços d’uns Beijus e O Vaqueano, de Apolinário Porto-Alegre; A Filha do Capataz e Um Farrapo não se Rende, de Vítor Valpírio; Pampeiro, de Augusto Totta; Flores do Pampa, de Múcio Teixeira, e muitas outras do gênero. No entanto, críticos como Athos Damasceno, Moysés Vellinho, Augusto Meyer e Flávio Loureiro Chaves consideram que nesta fase os autores se apropriaram superficialmente de um cenário e seus tipos característicos, dando sem dúvida um forte sabor local aos seus escritos, mas sem que com isso transformassem em profundidade o arcabouço das formas literárias e da estética vigentes no período, muito dependentes ainda de modelos importados, sendo, neste sentido, mais tradicionalistas do que revolucionários. O próprio Apolinário Porto Alegre reconheceria mais tarde essa condição: “Para ser digno da América, teria de recomeçar todos os meus estudos e refazê-los desde a cumeeira até os alicerces, porque chegara à conclusão de que não passara de um manequim da Europa”.
Além de ter um forte apelo popular, possuindo elementos passíveis de identificação com o leitor comum, o regionalismo romantizado servia aos interesses da classe política dominante e à elite dos grandes estancieiros, interligando-se à questão da consolidação da identidade rio-grandense, cujo fortalecimento auxiliaria a projeção política da província no cenário nacional, e cujos ideais de liberdade e autonomia se afinavam aos da corrente republicana. Na interpretação de Juarez Fuão, a romantização literária da temática gauchesca teve ainda a vantagem de ampliar o escopo das representações primitivas do gaúcho encontradas entre os primeiros historiadores locais, como Cezimbra Jacques e Alfredo Varela, e que haviam se concentrado nos aspectos científicos e históricos. Com a transposição dos motivos locais para a literatura, onde a verdade científica é relativizada, e principalmente com sua politização e idealização romântica, sua mensagem se tornou mais independente e também mais ideologicamente útil e convincente. Segundo Tau Golin, a associação entre a elite do poder e a elite intelectual estimulava uma troca de favores: os intelectuais faziam a apologia dos valores varonis, guerreiros e patrióticos dos quais os poderosos se julgavam possuidores e guardiões, e em contrapartida recebiam apoio, prestígio e mesmo empregos no serviço público

COLABORAÇÃO; CESAR TOM,AZZINI LISCANO

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