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jun 04

Parthenon Literário Parte III

PARTHENON LITERÁRIO
Parte III
Principais áreas de atuação
O Parthenon Litterario se ocupou de uma grande variedade de temas candentes na é Como disse Guilhermino César, “seus generosos mentores quiseram-no espraiado a todos os domínios da inteligência, orientando letras e artes, mitigando injustiças sociais, apontando rumos à organização polític Uma amostra da amplitude dos interesses do grupo foi oferecida por Luciana Boeira em sua análise dos temas mais debatidos no período de 1872-18
• identificação dos principais representantes da nacionalidade brasileira no âmbito literário;
• influência do Século de Péricles para a literatura e historiografia;
• identificação da época mais brilhante da história de Roma;
• julgamento do mérito do derramamento de sangue na luta pela liberdade;
• julgamento dos meios empregados para atingir os fins;
• identificação de qual das formas de governo da Antiguidade trouxe mais civilização, qual mais influiu nos tempos modernos e qual foi o ideal de liberdade através da história;
• julgamento do mérito da invasão paraguaia no Rio Grande do Sul em 1865;
• julgamento comparativo do mérito da vida do padre e do soldado;
• julgamento do valor das cruzadas para a vida moderna;
• análise da instituição do casamento na óptica católica e julgamento do mérito da indissolubilidade dos laços para os interesses da sociedade moderna;
• julgamento comparativo da nobreza e generosidade das paixões e sentimentos masculinos e femininos;
• identificação dos melhores meios de combater a influência dos jesuítas sobre o ensino;
• debate sobre a tese da imortalidade da alma;
• identificação das causas da Revolução Farroupilha e julgamento do seu mérito;
• equiparação dos gêneros e julgamento do seu mérito.
No entanto, de modo geral o Parthenon marcou a história do Rio Grande principalmente pela sua atividade nos campos literário, educativo e abolicionista, pelo seu interesse na valorização da mulher e do regionalismo, e pela sua influência política, aspectos que serão desenvolvidos na sequência.
Literatura[editar | editar código-fonte
A geração do Parthenon havia se formado dentro de uma tradição educativa de moldes humanistas, estabelecida no Brasil pelos jesuítas e mais tarde pelas aulas régias. Embora na década de 1860 já houvesse um expressivo contingente de protestantes e exíguas minorias de outros credos, a maior parte da população da província se formara como católica. O sistema educativo, ultrapassada a fase da alfabetização básica, era dividido em áreas específicas: Gramática (onde se incluíam Latim e Literatura Portuguesa), Retórica (História e Geografia), Filosofia (Lógica, Ética e Metafísica) e Ciências Experimentais (Física, Química, História Natural, Geometria, Desenho, Aritmética, Trigonometria e Álgebra). Conforme a disponibilidade de mestres, também podiam ser incluídas no currículo aulas de Francês e Grego. Nesses estudos havia uma constante referência a autores da Antiguidade grecorromana, considerados modelares, e por isso a produção literária dos parthenonistas é rica em alusões ao Classicismo e é influenciada pela sua oratória, literatura, mitologia e seus princípios éticos e educativos. Desde a Grécia Antiga o cultivo da virtude estava embutido em seu sistema educativo e era considerado fundamental para a formação de um cidadão perfeito.

Capa de O Vaqueano (1872) de Apolinário Porto-Alegre, em edição de 1927
Um classicismo literário mais definido apareceu no Brasil no fim do século XVIII com os escritores árcades, uma escola que deixou algumas marcas nos primeiros ensaios da literatura sulina, que só inicia na década de 1830, quando a escola já estava quase esgotada. A evolução foi lenta e a produção local ainda teria de esperar o aparecimento do Parthenon para se firmar definitivamente. Apesar da forte herança clássica carregada pelos seus principais membros, em termos de estilo o Parthenon floresceu principalmente como um grupo romântico, um movimento que, ao contrário do racionalismo, do comedimento, da impessoalidade e da universalidade clássicos, valorizou o indivíduo, as especificidades regionais, a emoção, a independência e o entusiasmo, agindo como um centro de gravidade em torno do qual se articulou um novo interesse pelas raízes, pelos mitos fundadores, pela identidade e história local e seus cenários e tipos característicos, estruturou uma nova literatura regionalista na província e identificou o lugar dela na diversidade do panorama brasileiro, e deu o rumo para boa parte da atividade intelectual, política e ideológica da sociedade, tendo como um dos principais modelos literários a obra de José de Alencar.
Disse Guilhermino César que através das páginas da revista é possível acompanhar mês a mês a mudança de estilo e temática dos membros mais jovens da entidade, que se encaminham para um romantismo nacionalista e regionalista. É preciso observar, contudo, que a tradicional oposição entre o Arcadismo/Classicismo e o Romantismo é mais uma construção historiográfica do que uma realidade objetiva definível com precisão. No século XIX predominava a visão da história como um processo linear e cumulativo, e muitos dos ideais clássicos foram mantidos através de novas leituras, e não simplesmente rejeitados. Guilhermino César chegou a dizer que em sua idealização dos tipos regionais os parthenonistas colocaram-nos numa espécie de Arcádia crioula.
No entanto, no início do século XIX ainda não havia sido bem definida a doutrina da arte pela arte, de modo que a tendência era ver a literatura não apenas como um deleite em si, mas também devia extrapolar a estética e a arte para ter uma função utilitária e social. Qual função seria essa era motivo para muitas polêmicas, mas em geral no Brasil se entendia que devia contemplar a instrução geral e a educação moral. Essa opinião ainda era corrente no fim do século, como exemplifica a fala de um importante escritor, Gonçalves de Magalhães, um dos fundadores do Romantismo nacional, que disse em 1865: “A literatura de um povo é o desenvolvimento do que ele tem de mais sublime nas ideias, de mais filosófico no pensamento, de mais heroico na moral, e de mais belo na natureza”. Esse idealismo não impediu que a partir da década de 1850, imitando o exemplo nacional, começasse a proliferar na província, principalmente através da imprensa, uma literatura popular de consumo rápido, que não exigia profundas meditações nem muita educação do público, tendo um caráter sentimental, lúdico, patético ou espetaculoso, ou tratando de variedades, muitas vezes em estilo de folhetim e em boa parte traduzida do francês.
No meio de uma crescente afluência de textos importados, foi uma preocupação do Parthenon incentivar a produção local de literatura, mas, defendendo todo um projeto de regeneração da civilização, a função educativa e moralizante da literatura foi sempre muito enfatizada. Mesmo obras de escritores afamados eram desaconselhadas se pudessem prejudicar a ética e os bons costumes da população, e como se verá mais adiante, a educação moral esteve entre os principais interesses dos parthenonistas. Caldre e Fião, por exemplo, disse que “o agradável deve vir depois do útil e este depois do necessário”.[58] O gosto popular teve um bom espaço entre os parthenonistas, e muitos dos textos publicados em sua revista eram amenos e acessíveis, voltados especialmente ao público feminino, embora as obras fossem selecionadas pelos critérios da moral e do valor educativo. Ainda que dentro do programa do Parthenon já houvesse uma forte preocupação em estabelecer o refinamento estético como um elemento central da boa literatura, delimitando melhor seu campo de atuação e seu caráter, para desempenhar sua alta tarefa o literato não podia apenas saber escrever bem, mas devia seguir um código de ética rigoroso, assumindo uma “missão” que muitas vezes era comparada ao sacerdócio ou à carreira das armas, e devia ser um polímata, dominando conhecimentos amplos em uma variedade de matérias, mantendo em vigor muitos dos ideais do “homem de letras” que haviam sido formulados desde o século anterior. Os principais parthenonistas também pretendiam afastar a literatura da política, alegando que podia conspurcar sua pureza, mas na prática isso não ocorreu, entrando em direto conflito com o seu projeto de, através da literatura, modificar os rumos da história, da cultura e da sociedade do Rio Grande, produzindo obras de cunho fortemente ideológico e politizado e estabelecendo alianças com partidos e com políticos para que suas iniciativas fossem levadas a cabo.

COLABORAÇÃO : CESAR TOMAZZINI LISCANO

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