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maio 31

Parthenon Literário – parte II

Ao longo de sua existência funcionou em diversos locais, sem nunca ter tido sede própria. Segundo Sérgio da Costa Franco, pouco depois da fundação a sociedade emprestou seu nome a um empreendimento imobiliário num arrabalde distante do centro, organizado por Fernando dos Santos Pereira, que em contrapartida cedeu ao Parthenon dois terrenos destinados à construção de uma sede. O loteamento se localizava sobre uma alta colina, e o edifício deveria ser uma imitação do Partenon de Atenas, também localizado num monte. Um dos terrenos foi vendido para custear as obras no outro. Em novembro de 1873, numa cerimônia em que estiveram presentes João Pedro Carvalho de Morais, presidente da província, e dom Sebastião Dias Laranjeira, bispo de Porto Alegre, foi lançada a pedra fundamental do edifício, que no entanto não chegou a ser construído, mas bastou para batizar um dos atuais bairros da cidade, o Partenon. Naqueles terrenos hoje se ergue a Igreja de Santo Antônio. Em 1884 foi esboçada a aquisição da sede da Sociedade Bailante Soirée Porto Alegrense, pelo valor de 20 contos de réis, mas a ideia não foi levada adiante. Nesta altura a sociedade se reunia em uma casa na Rua de Bragança.

Notícia no jornal A Federação anunciando a realização de uma sessão do Parthenon Litterario em 6 de março de 1884
Outra tentativa deu-se em 10 de janeiro de 1885, quando foi lançada a pedra fundamental de um edifício localizado na Rua Riachuelo, com presença da Princesa Isabel e do Conde D’Eu. O terreno havia sido cedido pelo Governo do Estado. Em janeiro de 1886 foi divulgado um concurso para o projeto, que deveria ter a fachada principal imitando a do Partenon de Atenas, uma sala de sessões e saraus ocupando toda a largura do edifício, a ser decorada luxuosamente, uma sala para a biblioteca, outra para o museu, mais uma para aulas e outra para a prática de artes e ofícios, além de dependências de apoio como um cômodo para o porteiro, depósitos, etc. O prédio teria grandes proporções, atravessando toda uma quadra, com duas fachadas, a principal na Rua Riachuelo e a de fundos na Rua Jerônimo Coelho. O autor do projeto vencedor receberia um prêmio de 300 mil réis. Havia disponível para as obras uma verba de 30 contos de réis. O escolhido foi o projeto do engenheiro João Pünder,[25] mas assim como sucedeu com o primeiro projeto, o segundo também nunca saiu do papel.
Enquanto isso, desde novembro do ano anterior o Parthenon havia se mudado para um palacete na Rua Sete de Setembro nº 49, reabrindo a Escola do Povo, que oferecia na época as matérias de Leitura e Análise de Língua Portuguesa, Caligrafia, Geografia, Francês e Desenho Linear. Contudo, em maio de 1886 aparece notícia na imprensa expressando preocupações sobre o destino da sociedade, e depois não há mais registro da ocorrência de sessões, até então regulares. Em maio e junho de 1888 foram anunciadas duas sessões, as últimas que a imprensa registra. Em abril de 1892 os sócios remanescentes se reuniram na sede do Jornal do Comércio, sob a liderança de Aquiles Porto-Alegre, o último presidente, com o propósito de reativar o Parthenon, sendo convocada uma nova assembleia deliberativa, que se realizou no Theatro São Pedro, sendo escolhida uma comissão para rever os antigos estatutos e providenciar o aluguel de um prédio para sua sede. Uma casa na Rua Nova nº 10 foi alugada, as reuniões reiniciaram e em 14 de setembro deveria ser eleita uma nova diretoria, mas depois seus registros praticamente desaparecem. Segundo Benedito Saldanha, presidente da reencarnação contemporânea do Parthenon, as atividades encerraram definitivamente em torno de 1896, e de acordo com Sérgio da Costa Franco “a sociedade só se dissolveu oficialmente em maio de 1899, conforme circunstanciada notícia do Jornal do Comércio de 24 de maio daquele ano. Mas desde a década anterior entrara em hibernação”.
As razões para esse declínio são pouco claras, e podem ter sido múltiplas. Os atritos internos parecem ter sido uma constante, e na década de 1880 Caldre e Fião e outros sócios de destaque já haviam falecido. Autores como Riopardense de Macedo, Cássia Silveira e Carlos Baumgarten acreditam que as dissidências, o esgotamento dos recursos financeiros e o puro envelhecimento da sua proposta foram fatores de peso; para Guilhermino César a acidez das críticas aos burgueses, à nobreza e aos conservadores feitas por alguns membros, acabaram por afastar os que eram tradicionalistas e monarquistas e causaram fissuras mesmo entre os republicanos, e Luis Augusto Fischer pensa que outros aspectos de um contexto político em mudança possam ter sido um fator decisivo:
“Posso avançar algumas hipóteses, que gostaria muito de poder comprovar mediante mais pesquisa documental, que nos falta. Por exemplo: Apolinário e outros do Partenon eram republicanos, mas não eram positivistas. Quando o Partido Republicano Rio-Grandense (PRR) começou a atuar, especialmente com o jornal A Federação, o Apolinário estava com eles, mas me parece que seu temperamento era democrático, profundamente, ao passo que a ideologia dominante entre os chefes do PRR era claramente autoritária. Sabe-se que, em 1893, a casa do Apolinário foi saqueada, houve necessidade de ele fugir para o Uruguai. Então, juntando esses fatos isolados, me parece claro que o Apolinário não teve espaço na nova ordem, ou entre a nova geração republicana, que seria uma aliança valiosíssima”.
Seu desaparecimento deixou um vácuo que custou a ser preenchido. Em 1924 o crítico João Pinto da Silva ainda lamentava: “A extinção da benemérita sociedade assinalou a volta de Porto Alegre ao marasmo literário, de que até agora não nos conseguimos emancipar”. Por volta de 1925[38] o terreno destinado à construção de sua sede no morro de Santo Antônio foi doado para a Santa Casa de Misericórdia, apagando-se os últimos traços do Parthenon.
O Parthenon teve pelo menos 141 sócios efetivos, em sua maioria funcionários públicos, contando com expressivo número de professores, e incluiu políticos, profissionais liberais, atores e três religiosos. Muitos dos membros eram associados a partidos políticos e a jornais.[39][40] Mais de 300 pessoas estiveram de alguma maneira ligadas à sociedade, embora devido a uma documentação fragmentária seja impossível precisar a extensão da rede de relacionamentos estabelecida pelo Parthenon. Teve como sócios honorários, eleitos para emprestar prestígio à instituição, o presidente da província Antônio da Costa Pinto e Silva, o bispo de Porto Alegre Sebastião Dias Laranjeira, e Manuel Marques de Sousa, conde de Porto Alegre.[40] Além dos já citados no texto, outros membros de destaque foram Alberto Coelho da Cunha (Vítor Valpírio), Lobo da Costa, Apelles Porto Alegre, Aurélio Veríssimo de Bittencourt, Luciana de Abreu, Pedro Antônio de Miranda, João Damasceno Vieira Fernandes, Francisco Xavier da Cunha, Pedro Soledade, Augusto Rodrigues Totta, Joaquim Alves Torres, Dionísio Monteiro, José Carlos de Sousa Lobo, Silvino Vidal, Clarimundo Santos, Argemiro Galvão, Bernardo Taveira Júnior, Bibiano Francisco de Almeida e Carlos von Koseritz. …

COLABORAÇÃO : CESAR TOMAZZINI LISCANO

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