«

»

maio 31

Parthenon Literário – parte I

 

A Sociedade Parthenon Litterario, mais conhecida simplesmente como Parthenon Litterario, foi uma associação literária brasileira criada em Porto Alegre, a capital do Rio Grande do Sul, considerada a principal agremiação cultural do estado no século XIX.

Surgindo em um período em que as letras estavam em estado embrionário e a população era maciçamente analfabeta, foi a entidade que efetivamente formou e consolidou o sistema literário regional, fundando uma conceituada revista mensal, estimulando a prática da leitura e da criação literária, promovendo a educação do povo com aulas e outras atividades, e organizando saraus e conferências regulares sobre assuntos literários e filosóficos e uma variedade de outros temas relevantes para aquele momento histórico, como a moralização dos costumes, o modelo político nacional, o sistema educativo, a definição da identidade regional, a abolição da escravatura e a emancipação da mulher. Foi um agente principal para a libertação de todos os escravos de Porto Alegre e influiu de forma importante na política e na divulgação do ideal republicano.

Fundado em 1868 por um grupo de cerca de vinte interessados, o Parthenon Litterario chegou a ter mais de 140 membros efetivos e uma rede de colaboradores com mais de 300 pessoas, reunindo boa parte da elite intelectual do estado, tendo como líderes José Antônio do Vale Caldre e Fião e sobretudo Apolinário Porto-Alegre. Levantando a bandeira da regeneração da sociedade através da educação e da literatura, traçando planos ambiciosos, foi louvado em sua época como fonte de importantes avanços culturais e sociais, mas algumas das suas iniciativas fracassaram e a maior parte da sua produção especificamente literária só guarda um interesse histórico, sendo valorizado hoje principalmente pelo seu papel de dinamizador cultural e estruturador do sistema literário, e por ter lançado os fundamentos de uma literatura de caráter regionalista, enaltecendo a figura do gaúcho, o folclore, a história do estado e o cenário campeiro, dentro de uma moldura romântica. O projeto cultural do Parthenon agregou toda uma geração de novos talentos, formou um novo público leitor, suscitou o surgimento de bibliotecas, escolas, associações e publicações literárias em muitas cidades do estado, e as atividades da sociedade oferecem o mais completo retrato da intelectualidade rio-grandense do fim do século XIX.

Cessou suas atividades em torno de 1888 e foi reativado em 1892, funcionando precariamente por mais uns poucos anos. Foi extinto oficialmente em 1899, deixando uma permanente marca na cultura rio-grandense e sendo objeto de muitos estudos críticos, mas sua história e contribuição ainda têm aspectos mal conhecidos ou pouco aprofundados. Em 1997, admiradores do legado da entidade a refundaram com a grafia atualizada de Sociedade Partenon Literário, retomando a prática de sessões regulares, promovendo atividades diversificadas e lançando várias publicações.

A Sociedade Parthenon Litterario foi fundada em 18 de junho de 1868 em Porto Alegre, num período de efervescência social e política, com a Guerra do Paraguai em andamento, as ideias republicanas em expansão e uma forte retomada do movimento abolicionista. A cultura local ainda engatinhava, num contexto que havia sido marcado por uma história de conflitos militares repetidos desde o século XVIII, pela preocupação principal com questões políticas e econômicas, pela educação pobre e pela escassez crônica de recursos. Até o surgimento do Parthenon, poucos jornais haviam sido fundados na província, menos ainda eram as revistas literárias, todas de existência fugaz, e, principalmente através desses raros veículos, circulava uma magra literatura de origem regional, ainda muito modesta e quase toda amadorística, embora já se pressentisse um movimento cultural em formação e houvesse um significativo grupo de intelectuais em atividade em Porto Alegre, Pelotas e Rio Grande, os principais centros urbanos.

Segundo Regina Zilberman, “se as manifestações ocorridas nos anos 30 do século XIX marcam o surgimento da literatura sulina, seu desenvolvimento dá-se lentamente, devendo-se esse vagar às circunstâncias mais primitivas do meio. As cidades eram pequenas, e reduzidos os instrumentos de difusão, somando-se a isto a dependência às diretrizes poéticas oriundas do Rio de Janeiro. A solução encontrada pelos intelectuais foi uma espécie de aliança sob a égide de um jornal literário. Fundaram-se vários periódicos com a finalidade de abrigar os escritores; o primeiro deles, O Guayba, aparecido em 1856, teve vida curta”.

A criação do Parthenon Litterario contou com a colaboração de cerca de vinte membros fundadores, mas foi centrada em duas figuras: o médico e escritor José Antônio do Vale Caldre e Fião e o jovem Apolinário José Gomes Porto-Alegre. Caldre e Fião, além de mentor do novo grupo e do constante apoio à iniciativa, emprestou seu prestígio pessoal, pois era autor conhecido, sendo eleito presidente honorário. Já Apolinário foi fundamental pelo seu dinamismo e postura e foi o líder inconteste da sociedade. Segundo Luciana Boeira, sua atividade foi tão dominante que “é praticamente impossível pensar a instituição sem pensar a ação que Apolinário exerceu para sua manutenção”. Nas reuniões que antecederam a fundação foi formada uma diretoria provisória, composta de Vasco de Araújo e Silva (presidente), Antônio Ferreira Neves e Aurélio Veríssimo de Bittencourt (secretários); Caldre e Fião, José Bernardino dos Santos, Manuel Pereira da Silva Ubatuba e Hilário Ribeiro de Andrade e Silva (estatutos). O primeiro presidente efetivo foi Firmino Antônio de Araújo.

Aquiles Porto Alegre registrou uma memória dos primeiros tempos:

“Apesar da Guerra do Paraguai nos haver levado a flor da nossa mocidade, ainda assim conseguiu-se formar um grupo de homens de letras. Antes dessa época, um ou outro escritor, no isolamento do seu gabinete, sem permuta de ideias, se entregava à cultura das letras. Caminhavam os nossos intelectuais sem rumo, sem destino certo, distanciados uns dos outros, como se atravessassem um imenso deserto, contando apenas com o seu valor próprio. […] Eram bem poucos, é certo, mas cada um deles deu, pelo menos, um bom exemplo de coragem. Esses foram os pioneiros que desbravaram o terreno, onde mais tarde se devia erigir um templo inteiramente consagrado às letras. […] Em torno, então, de Apolinário Porto-Alegre, reuniu-se um grupo de sonhadores, que iam escutá-lo como um oráculo. Em sua residência à Rua Nova, hoje General Andrade Neves, esquina com a Travessa Itapirú, realizaram-se as sessões preparatórias para fundação do Parthenon. Dessa roda de intelectuais faziam parte também: Afonso Luís Marques, Hilário Ribeiro de Andrade e Silva, Francisco Antunes Ferreira da Luz, Aurélio Veríssimo de Bittencourt, Antônio Ferreira Neves, Vasco de Araújo e Silva, José Bernardino dos Santos, Juvêncio Augusto de Menezes Paredes, Francisco de Sá Brito (e o autor do texto aqui reproduzido, Aquiles Porto-Alegre). A inauguração do Parthenon efetuou-se no mesmo sítio em que está a Capela de São José, à Rua de Bragança”.

Capa da Revista Mensal do Parthenon Litterario, nº 10, 1873 No ano seguinte, a sociedade já lançava a Revista Mensal da Sociedade Parthenon Litterario, com uma comissão editorial formada por Vasco de Araujo e Silva, Apolinário Porto Alegre, Lúcio Porto Alegre, Aurélio de Bittencourt, Menezes Paredes e Hilário Ribeiro. Sua fundação parece ter encontrado alguma oposição e descrença, e por algumas declarações de Apolinário aparentemente ela só veio à luz após receber o apoio do importante jornalista, militar e ex-deputado Felipe Nery. Com efeito, ela enfrentou dificuldades para se manter e no início de 1870 já sofria a primeira das suas várias interrupções.

O surgimento do Parthenon se insere na tradição das academias ilustradas, que floresceram na Europa desde o século XVI e que foram imitadas no Brasil. Como elas, o Parthenon permitiu o intercâmbio de informações, textos e ideias entre os membros, que tinham origens, ocupações e vivências diferenciadas, promovendo a circulação de matérias em sua revista própria e em diferentes jornais que percorreram os mais distantes recantos do Rio Grande do Sul, sendo além de um fórum cultural e político, também um importante espaço de socialização, numa época em que tais espaços eram raros na cidade. Porém, essa mesma diversidade, que acrescentou riqueza ao seu legado, foi causa de polêmicas e atritos internos.

A sociedade se interessava fortemente pela educação em geral, oferecendo aulas gratuitas, e montou um museu e uma biblioteca. Propagava os ideais republicanos e promovia também saraus, conferências regulares e debates com temas diversos como a Revolução Farroupilha, casamento, religião, educação, moral, civismo, pena de morte e feminismo, intervindo, como disse Athos Damasceno, “em todos os setores da vida social, em cujo desenvolvimento se aqueceriam as postulações mais avançadas da época. […] Ao calor dos debates, através da pena e da palavra, a opinião pública passa a inteirar-se e a esclarecer-se, de fato e oportunamente, dos problemas que mais a afetam — a abolição da escravatura, a liberdade de culto, a emancipação da mulher, as urgências da instrução popular, as franquias políticas”. O Parthenon também foi um fórum de importância decisiva para a articulação, dentro de uma moldura romântica, da estética regionalista, e para iniciar a consolidação da imagem do gaúcho, tipo humano associado às atividades campeiras, como um símbolo do povo de todo o estado e como uma síntese das suas virtudes morais, espirituais e cívicas ideais.

Sua trajetória foi um tanto acidentada e sua história interna é mal conhecida, mas já em 1872, como mostram as atas deste ano, um dos poucos bem documentados, a instituição passava por uma séria crise. Havia se instalado um clima de discórdia e as críticas dos associados se multiplicavam a respeito de vários aspectos. O bibliotecário era acusado de negligenciar o cuidado com o acervo e de ainda não ter providenciado um catálogo, o tesoureiro não apresentava o balancete, a comissão encarregada de rever os Estatutos estava inerte, havia dívidas pendentes, as sessões eram prejudicadas pela má organização, as eleições para o próximo ano estavam ameaçadas e uns acusavam outros de criar intrigas e de disseminar deliberadamente a confusão. Em dezembro foram expulsos os sócios Aurélio de Bittencourt, João Câncio Gomes e Múcio Teixeira, que fundaram a efêmera Sociedade Ensaios Literários. No ano seguinte, cujas atas também sobreviveram, os ânimos parecem ter acalmado, e o interesse principal se voltou para a reorganização da administração e para o projeto da construção de uma sede própria. Em 1879 a Revista Mensal foi reestruturada, sendo publicada como Revista Contemporânea do Parthenon Litterario, mas já não tinha o vigor de antes e foi descontinuada em setembro do mesmo ano.

COLABORAÇÃO : CESAR TOMAZZINI LISCANO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Apolinário Porto Alegre                                                                       Caldre Fião

Deixe uma resposta