«

»

jul 13

Paixão Côrtes

João Carlos D’Ávila Paixão Côrtes nasceu às três da madrugada do dia 12 de julho de 1927, na casa número 101 da Rua Rivadávia Corrêa, em Santana do Livramento, fronteira seca do Rio Grande do Sul com Rivera, Uruguai.
Filho de Maria Fátima D”Ávila Paixão e de Julio Paixão Côrtes, estudou no Colégio União, em Uruguaiana, o qual, carinhosamente deu o apelido para de Baio Velho, quando seu pai era diretor da Estação Experimental. Também estudou no Instituto Porto Alegre e no Colégio Estadual Júlio de Castilhos, na Capital Gaúcha.
Em 1949 ingressa na UFRGS, no curso de agronomia, vindo a formar-se Engenheiro Agrônomo, com a vida profissional ligada a Secretaria da Agricultura do Rio Grande do Sul onde desenvolveu trabalhos ligados a Ovinotecnia, em destaque a introdução da tosquia australiana e a tipificação de carcaças, vindo a ser o responsável pela abertura de mercado da ovelha no Rio Grande do Sul.
Paixão Côrtes, foi também folclorista, radialista e dedicado pesquisador da cultura, hábitos e costumes populares do Rio Grande do Sul e do Brasil, os quais registrou em dezenas de publicações e discos, tendo iniciado suas pesquisas folclóricas junto com Barbosa Lessa ainda no final da década de 40, desenvolvendo um notável trabalho de “garimpagem” junto ao genuíno homem do campo por perdidos rincões do estado gaúcho.
No transcorrer do tempo, necessitou custear, as expensas próprias e sem auxílio de qualquer órgão governamental, os filmes, as fitas magnéticas e os equipamentos – gravadores, filmadoras, e máquinas fotográficas, utilizados para registrar um fértil manancial da cultura popular gauchesca. Deste trabalho com pesquisador no nosso estado, em outros estados brasileiros, e em diversos países da América Latina e da Europa, resultou um acervo de milhares de slides, de centenas de fitas gravadas, de horas de filmes em super 8 e em VHS, de raros registros fonográficos da “Casa A Eléctrica” pioneira produtora do selo gramofônico “Discos Gaúchos”, e de inúmeros documentos sobre os hábitos e costumes rio-grandenses. Tendo como foco a divulgação deste material, colaborou com diversos artigos para jornais e revistas, apresentou teses aprovadas em Congressos Tradicionalistas e de Pesquisadores da Música Brasileira, palestrou em simpósios e encontros culturais, participou de programas de rádio e televisão, colaborou com documentários, entre outras atividades culturais. Profissionalmente realizou cursos sobre tradição, folclore e danças tradicionais, ensinou professores em especializações em faculdades, realizou espetáculos de danças, e como radialista utilizou seus programas de rádio, ao longo de quatro décadas para propagar seus estudos e para oportunizar espaço para manifestação da cultural popular do homem do campo.
Desenvolveu nas últimas décadas o Projeto MOGAR – Momento Gauchesco Artistico-Cultural Rio-grandense, no qual editou, com textos e fotos do seu acervo pessoal, cerca de quatro dezenas de livros, opúsculos, folhetins, e folders, num total de 350 (trezentos e cinquenta) mil publicações que estão sendo distribuídas gratuitamente para enriquecimento cultural de bibliotecas públicas, de entidades educacionais, de Centros de Tradições Gaúchas, de Grupos Artísticos, de escolas, e de diversos grupos propagadores da cultura gauchesca.
Em 1947, liderou os estudantes que fundaram o Departamento de Tradições Gaúchas do Grêmio Estudantil do Colégio Júlio de Castilhos em Porto Alegre, célula-mater do Movimento Tradicionalista Gaúcho. Esse núcleo estudantil foi o centro agregador para um grupo de jovens que protagonizaram pioneiramente momentos marcantes na história do tradicionalismo. Ele e sete companheiros, trajados e montados tipicamente à gaúcha, algo inédito na época, formaram o “Piquete da Tradição” que desfilou em Porto Alegre fazendo a guarda de honra da urna funerária dos restos mortais do general farroupilha Davi Canabarro. Este Departamento criou, durante a primeira Ronda Crioula, uma série de solenidades culturais e cívicas que deram origem aos símbolos da Chama Crioula e do Candeeiro Crioulo, e inspirou a criação da Semana Farroupilha.
Paixão Côrtes é um personagem decisivo da cultura gaúcha e do movimento tradicionalista no Rio Grande do Sul, do qual foi um dos formuladores, juntamente com Luiz Carlos Barbosa Lessa e Glauco Saraiva, partiram para a pesquisa de campo, viajando pelo interior, para recuperar traços da cultura do Rio Grande.
Em 1948 participou ativamente do grupo, que fundou o “35 Centro de Tradições Gaúchas”, o primeiro CTG, compondo a primeira diretoria como Patrão de Honra. Estima-se que existam mais de 4.000 entidades gauchescas de diferentes constituições (CTGs, piquetes, grupos de danças, conjuntos musicais, etc) que congregam cerca de cinco milhões de pessoas no Rio Grande do Sul, em quase a totalidade dos estados do Brasil, e em diversos países da Europa, da América do Norte, e da Ásia.
Em 1953, fundou o pioneiro Conjunto Folclórico Tropeiros da Tradição.
Em 1954, convidado pelo consagrado escultor Antônio Caringi, teve a honra de posar, com suas roupas campeiras e laço de 14 braças, para o artista esculpir a estátua do “O Laçador”, que inicialmente foi colocada em gesso na exposição em comemoração do IV Centenário de São Paulo.
Em 1956, Inezita Barroso gravou as músicas tradicionais gaúchas Chimarrita-balão, Balaio, Maçanico e Quero-Mana, Tirana do Lenço, Rilo, Xote Sete Voltas, Xote Inglês, Xote Carreirinha, Havaneira Marcada, recolhidas por Paixão Cortes e Barbosa Lessa.
Em 1957, fez parte do grupo de intelectuais que fundaram a Estância da Poesia Crioula, maior entidade literária da seara regional, voltada ao culto da prosa e poesia riograndense.
Em 1958, no dia 20 de setembro, a obra escultural eternizada em bronze, O Laçador, a qual foi referência, foi erguida em praça pública à entrada de Porto Alegre, sendo deslocada, em 2007, para o “Sitio do O Laçador”.
Em 1958, apresentou-se no Olympia de Paris, no palco da Universidade de Sorbonne, no Hotel de Ville, no Teatro Alhambra, além de clubes noturnos e cabarés. No mesmo ano foi convidado por Maurício Sirotsky para apresentar o programa Festança na Querência na Rádio Gaúcha, que ficou no ar até 1967.
Em 1962, Inezita Barroso gravou as composições Tatu e Pezinho, recolhidas por Paixão Côrtes e Barbosa Lessa. No mesmo ano, recebeu o prêmio de Melhor Realização Folclórica Nacional.
Em 1964, apresentou-se na Alemanha, na Feira Mundial de Transportes e Comunicação, na cidade de Munique. Recebeu ainda, no mesmo ano, o prêmio de Melhor Cantor Masculino de Folclore do Brasil.
Em 1986, apresentou-se durante um mês na Inglaterra, divulgando traduções de seus livros para o inglês.
Em 1992, a Estátua do Laçador, do escultor Antônio Caringi, para a qual Paixão Cortes posou em 1954, foi escolhida como símbolo da cidade de Porto Alegre.
Em 2001 proferiu palestra sobre a música gaúcha no VII Encontro Nacional de Pesquisadores da MPB, realizado no Teatro da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).
Em 2003 lançou seu novo manual, com mais danças, derivadas do primeiro. Por exemplo, Valsa da mão trocada, Mazurca Marcada, Mazurca Galopeada, Sarna, Grachaim.
Em 2010 é escolhido patrono da 56ª Feira do Livro de Porto Alegre. Recebeu também a Ordem do Mérito Cultural.
Seu trabalho foi reconhecido pelo povo do Rio Grande do Sul, ao ser escolhido por voto espontâneo, como um dos “Vinte Gaúchos que Marcaram o Século XX” , colocando-o entre exponenciais figuras como Getúlio Vargas, Osvaldo Aranha, João Goulart, Érico Veríssimo, Mário Quintana, Barbosa Lessa e outras personalidades.
Nacionalmente foi distinguido, pelo, então, Presidente da República Fernando Henrique Cardoso, com a Comendo da “Ordem ao Mérito Cultural”, por serviços prestados à cultura brasileira.
Do Governo do Estado do Rio Grande do Sul recebeu a “Medalha Negrinho do Pastoreio”, como reconhecimento por serviços prestados à cultura, e a “Medalha Assis Brasil”, em destaque por seu trabalho em prol da agropecuária.
Por sua atuação nos mais diversos segmentos, igualmente recebeu significativas homenagens e distinções, por diferentes entidades das áreas de ensino, da cultura, das artes, da literatura, das representações governamentais, da agropecuária, da economia, da religiosidade e da representação popular.
Um exemplo disso é o fato do folclorista ser o único membro honorário da Academia Rio-Grandense de Letras.
Seu nome batiza CTG’s, Museu, praça, e premiações em distintos municípios gaúchos.
Em 06 de novembro de 2013, na sua cidade natal, Sant’Ana do Livramento, foi inaugurado o “Monumento a Paixão Côrtes”, localizado na entrada da cidade, no trevo das Avenidas João Belchior Goulart (BR 158) e a Avenida Dom Pedro II, próximo ao módulo da Brigada Militar. O monumento consiste em um pedestal com degraus de acesso a estátua, de cerca de 3,5 metros, reproduzindo a figura do folclorista, de corpo inteiro, vestido com roupas regionais, em saudação hospitaleira aos visitantes da cidade. A obra artística é do consagrado arquiteto e virtuoso artista plástico Sérgio Coirolo, um dos grandes nomes da arte contemporânea, que possui obras espalhadas em galerias, coleções particulares e ao ar livre pelo Brasil e pelo mundo..
Paixão Côrtes foi Mestre-Maçom da Loja “A Virtude” n° 307, de Porto Alegre e em mais de 70 anos de múltiplas atividades, sempre foi um tropeiro cultural.
Se em um momento estava em terras européias cantando e dançando a alma da sua terra, em outro estava pesquisando e resgatando as manifestações autócne do povo sulino, para, em seguida, estar transmitindo e divulgando-as pelos diversos rincões do Brasil, contribuindo, assim, definitivamente na formação da identidade do gaúcho riograndense. Chegando aos 90 anos de idade, decidiu recolher-se na intimidade do convívio familiar, dando uma pausa na sua atuação como homem público pois os anos de tropeada lhe haviam causado desgastes de saúde.
A sua figura pública sempre foi agente de uma ideia, que foi plantada em solo fértil, e propagou nas novas gerações.
Ele seguiu observando, organizando e enriquecendo seu extenso acervo documental de pesquisas, até que em julho de 2018, sofreu uma queda e fraturou o fêmur de uma das pernas, necessitando de intervenção cirúrgica no Hospital Ernesto Dornelles, onde permaneceu em recuperação na UTI e aos 91 anos, entrou em óbito por volta das 16h05 em 27 de agosto de 2018, mas não informou a causa da morte. O governador do estado, José Ivo Sartori, declarou luto oficial de três dias no Rio Grande do Sul e também ofereceu à família as dependências oficiais do PalácioPiratini como forma de demonstrar a importância do maior tradicionalista gaúcho e a admiração do povo riograndense por ele.
Em 10 de dezembro de 2018, foi homenageado no Senado Federal na primeira edição de entrega da Comenda de Incentivo à Cultura Luis da Câmara Cascudo.

Fonte: Cândido Brasil

COLABORAÇÃO: CESAR TOMAZZINI LISCANO

A imagem pode conter: 1 pessoa, chapéu e close-up
A imagem pode conter: 1 pessoa
A imagem pode conter: 1 pessoa, sentado
A imagem pode conter: 1 pessoa

Deixe uma resposta