André Ávila / Agencia RBS
Se avançar o projeto de concessão à iniciativa privada, área de 17 hectares deverá se integrar à Orla como atrativo turísticoAndré Ávila / Agencia RBS

– Este ano até que durou bastante, queimou em fevereiro.

O comentário de um morador de rua sobre um chuveiro dá a tônica do principal uso hoje do Parque Maurício Sirotsky Sobrinho fora da época do Acampamento Farroupilha. Por alguns meses, o banheiro público às margens da Avenida Edvaldo Pereira Paiva se torna a melhor opção de banho na cidade, em razão da água quente.

Mesmo frio, o chuveiro público tem forte demanda. No final da manhã de quinta-feira (9) em que GaúchaZH visitou o parque, oito corajosos já haviam enfrentado a água gelada mesmo com cerca de 10°C de temperatura. Em um dia ensolarado, chegam a 50.

– A gente só ouve os “ui, ui” lá de dentro – conta a servidora responsável pelo banheiro feminino, consideravelmente mais limpo e menos solicitado.

A má notícia para o futuro do espaço, mais conhecido como Parque Harmonia, é que, em razão da pandemia da covid-19, o Acampamento Farroupilha não ocorrerá em 2020 (e o chuveiro continuará frio). A boa é que a prefeitura de Porto Alegre tem planos ambiciosos para o local. Já está em andamento o edital de concessão do parque para a iniciativa privada. As ofertas para gerir o espaço pelos próximos 35 anos serão conhecidas no final de agosto. Além dos investimentos e da manutenção, a prefeitura pede um valor fixo de no mínimo R$ 200 mil, pago em parcela única, e 1,5% do faturamento anual de eventos realizados no local.

A concessão inclui a administração do trecho 1 da orla da Guaíba – o já revitalizado – pelo mesmo período. A “venda casada” aparenta ter sido estratégica: em troca da gestão da Orla, um xodó da cidade desde a inauguração, o parceiro teria de fazer forte investimento no parque amplo e ocioso do outro lado da avenida. São cerca de 17 hectares, o equivalente a um Parcão e meio, em que na maior parte do ano a estátua solitária de Jayme Caetano Braun vigia dezenas de churrasqueiras de pedra e mesas vazias sob as copas das árvores.

 O secretário de Parcerias Estratégicas, Thiago Ribeiro, faz ressalvas:

– Não acho o Harmonia tão osso e nem a Orla tão filé. A orla, por exemplo, presume que os contratos atuais para bares e restaurantes sejam renovados pelos mesmos valores por quatro anos, e prevê um investimento significativo em banheiros. Ao longo de 35 anos, se realizados os investimentos previstos no parque, vejo os dois espaços com potencial bem semelhante.

O plano da prefeitura é que o parque, obedecendo a sua vocação como sede do Acampamento Farroupilha, seja um local que mimetize e represente as diferentes culturas do Rio Grande do Sul. A inspiração é o Poble Espanyol, atração turística de Barcelona, que, em uma área três vezes menor do que o Harmonia, reproduz em 117 edifícios a cultura e a arquitetura dos diferentes povoados da Espanha. Por isso, dos R$ 57 milhões que a prefeitura calcula que o parceiro deverá investir nos três primeiros anos de contrato, quase metade (R$ 26,9 milhões) seriam em “edificações culturais”.

– Não é um lugar que comportaria um show, uma rave, porque não é essa a vocação. Mas nada impede que sedie uma festa de cultura alemã, por exemplo, como uma Oktoberfest – aponta Ribeiro.

Contratualmente, os eventos anuais obrigatórios seriam o Acampamento Farroupilha, o Acampamento Indígena e o Rodeio de Porto Alegre. Outra obrigação é que o parque se mantenha com acesso público.

Não acho o Harmonia tão osso e nem a Orla tão filé. (…) Ao longo de 35 anos, se realizados os investimentos previstos no parque, vejo os dois espaços com potencial bem semelhante.

THIAGO RIBEIRO

secretário de Parcerias Estratégicas

O resto do montante se divide em reformas das estruturas atuais, como a Casa do Gaúcho e o Galpão Crioulo, e reformas estruturais, como drenagem, redes subterrâneas, iluminação e estacionamento que somariam mais R$ 25 milhões. Esse investimento seria uma forte desoneração para a prefeitura. Se desejasse manter o parque em condições “razoáveis de uso”, a estimativa é que o gasto seria de R$ 5 milhões por ano.

– Além de um local aprazível, gostaríamos que se tornasse uma atração perene da cidade. Ao longo dos anos, queremos que os visitantes da orla tenham vontade de atravessar a rua para conhecer o parque, tornando a região toda um complexo turístico – declara o secretário.

Se tudo der certo, a travessia da avenida será motivada mais pelo turismo do que pela água quente dos chuveiros.

Os investimentos:

Nos três primeiros anos, a prefeitura exige investimentos do Parque Maurício Sirotsky Sobrinho calculados em R$ 57 milhões. O valor é uma estimativa, o parceiro poderá gastar menos contanto que cumpra as obrigações contratuais

  • Reforma de banheiros: R$ 329 mil
  • Drenagem/saneamento: R$ 8,9 milhões
  • Redes subterrâneas: R$ 3,6 milhões
  • Iluminação pública: R$ 2 milhões
  • Paisagismo: R$ 1,4 milhão
  • Caminhos e acessos: R$ 4,6 milhões
  • Mobiliário: R$ 557 mil
  • Reforma do Galpão Crioulo: R$ 2,3 milhões
  • Reforma da Casa do Gaúcho: R$ 2,4 milhões
  • Edificações culturais: R$ 26,9 milhões
  • Praças: R$ 1,2 milhão
  • Estacionamentos: R$ 2,8 milhões