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dez 24

O NATAL GAÚCHO É ESTE ?

 

– Dilmar Paixão –

(professor, escritor e poeta, Doutor em Educação)

 

               Foi de repente. As estradas, as árvores, os prédios, o meio natural e o ambiente antrópico (do grego, anthropos: gente, homem) foram cobertos de porções de água congelada em forma cristalina com grande capacidade de refletir a luz, por isso adquirindo aparência translúcida e colocação branca, à semelhança de pedaços de algodão.

A ocorrência meteorológica, que consiste na precipitação de flocos formados por cristais de gelo, ocorre com frequência nas zonas de médias e elevadas latitudes do planeta Terra, regiões de clima frio e temperado. O fenômeno desses flocos formados pelo congelamento do vapor de água suspenso na atmosfera, como ensina a literatura científica, não é incomum em pontos mais elevados do planeta, formações montanhosas e planaltos da serra. Ou seja, o meu filho Arthur viu neve (originada do termo latino nix ou nivis) nestes dias na Itália e no hemisfério norte.

Esta época, para os lados de lá, tem tudo a ver com o frio, as muitas roupas e a paisagem com neve, como pedaços de algodão, tal quais nas árvores de natal comercializadas por aqui. Pode-se ir além: intensidade leve, moderada ou forte; de modo geral, nevada; muito leve, nevisco; se tempestade, nevão ou, mais comum no inverno brasileiro, a nevasca. Independente da metonímia ou da meteorologia, meu foco agora não é o substantivo feminino agrupado em flocos e cristais de gelo.

Estou a cumprir uma promessa colhida da obra profundamente sentimental do Vitor Matheus Teixeira, parodiada: – morreu feliz, porque vamos continuar as tropeadas que ele tanto amou! Serve como referencial fundante tanto ao meu pai como ao “parente”, como eles se tratavam.  Casualmente, um foi na semana farroupilha do ano passado; o outro, neste ano. Antes, as tensões, em 2016, levaram a zero qualquer estoque remanescente de reserva emocional das pessoas a ponto que a charge inteligente e jornalisticamente atualizada do Elias fazia-se coerente com os pacotes anunciados pelos governos federal e do estado naquela quase antevéspera natalina: os “presentes” não estavam debaixo da árvore, porque foram jogados por cima da árvore a destruíram totalmente, dados os acontecimentos extraeconômicos e das políticas e finanças públicas brasileiras, surpresas pesadas para a tênue sustentação da árvore daquele Natal. Nada imaculado ou inocente. Houve quem falasse no apocalipse.

Para continuar a tropeada referida em alusão ao Tropeiro Velho, recorro ao acervo das pesquisas realizadas pelo João Carlos da Paixão Cortes. A corporatura do velhinho chegou ao sul do Brasil após a 1ª Guerra Mundial, baseada em São Clauss, do catolicismo, para os nórdicos europeus, criada pelo desenhista Tomas Nast, inspirado no poema do seu compatriota norte-americano Clemente Clark Moore. Esse caricaturista Nast – como o Paixão dizia – deu forma, traços e cores à roupa do velho bispo Nicolau e acrescentou capa rubra, inventou um gorro vermelho e, mais tarde, a figura ganhou a roupagem do inverno simplificada para um gibão, a espécie da calça abombachada. Ora, a indústria comercializa e profaniza essa ilustração. Nada de santo.

É preciso ser valorizado o Natal tipicamente gauchesco sem os pinheiros europeus, trenós e roupas de lã nesta época do verão de altíssimas temperaturas no nosso meridiano. A primeira notícia da árvore de natal é de 1605, em Estrasburgo. O mais antigo texto a falar do pinheirinho é do século XVI, as famílias enfeitando pinheirinhos com flores de papel, frutas e doces. Vermelhas, representavam o conhecimento e as flores brancas, a inocência. As frutas eram maçãs, com o passar do tempo, substituídas por bolas coloridas. O pinheirinho de natal (Tannenhbaum) é árvore que se mantém verde, não perde as folhas, nem a vitalidade e a exuberância no rigor do inverno. No alto coloca-se uma estrela, como aquela guia dos magos até Belém. Tradicionalmente, desmonta-se a árvore de Natal e o presépio e se recolhe a decoração no Dia de Reis: seis de janeiro.

São Nicolau viveu no século IV e foi bispo de Mira na Turquia. Foi declarado santo, porque milagres lhe foram atribuídos. De grande devoção no Oriente e na Rússia, quando na existência humana costumava ajudar, anonimamente, quem estivesse em dificuldades financeiras, principalmente ao colocar um saco com moedas de ouro na chaminé das casas. Daí, a simbologia natalina.

O verdadeiro Natal Gaúcho é festa da família comemorando o nascimento de Jesus Cristo, diante de um presépio, Menino Jesus na manjedoura, ovelhas, gados, o burro, cânticos singelos fundamentados no cristianismo e anunciando a chegada dos Reis Magos. O folclore rio-grandense é rico e os Ternos de Reis constituem uma tradição a ser preservada, inclusive com incentivos dos poderes públicos, pois, como ele afirmava, as comunidades açorianas a praticam há muito tempo.

Costumava dizer o cantor, advogado e jornalista Edson Otto – e o Jaime Caetano Braun eternizou em lindos versos que, de vez em quando, se ouve – não se precisa brigar com os avós para ficar de bem com os netos. O Paixão, no registro das suas pesquisas, escritas e em áudio e vídeo, sempre criticou as fantasias das luzes das cidades e a ambição desse certo comércio sedento de grandes lucros, cheio de imagens e gente viva como Papai Noel. A cada final de ano tem sido assim. Porém, a gente campesina desconhece essas comemorações com árvore de neve, enfeitada, presentes esperados ansiosamente, Papai Noel atemorizando gurizada travessa ou elogiando filhos bons. Por que será que se veem crianças pequenas chorosas e se recusando a essa aproximação? Será?

Explicava o velho mestre que o povo simples do campo não esquece as mensagens cristãs do Natal, da chegada do Ano Novo e do Dia de Reis. Se primeiro de janeiro é festivamente assinalado por um churrasco e ressacas, intensos são os festejos natalinos e os Ternos de Reis, onde grupos musicais pitorescos anunciam o nascimento do Salvador, de casa em casa.

Num país tropical como é o Brasil, no mais forte do verão, alguém vestido como Papai Noel, com grossas roupas de lã, encapuzado e respingado de neve, descendo de botas de uma chaminé ou sentado em um trenó puxado por gamos (mamífero ruminante parecido com o veado, cauda comprida, malhas brancas e galhos achatados na extremidade superior, longevidade de uns 25 anos)? Paixão listou mais: bolinhas coloridas e velas completam os enfeites das mesas, onde são servidas ameixas secas, nozes, tâmaras, torrones, chocolates, passas e outros alimentos de alto teor calorífico próprios para o inverno do clima europeu.

É necessário que os trabalhos de pesquisas cheguem às mãos das pessoas – escreveu a Elma Santana. Ainda dos estudos do Paixão, O Natal e os Santos Reses (publicado pelo IGTF em 1982), a tradicionalidade do “Dia de Navidad” não tem Papai Noel e/ou Mamãe Noel distribuindo presentes na maioria dos países sul-americanos. Tem a Cantiga de Reses, cujo objetivo varia de um a outro Terno de Reis. Para alguns, a louvação da memória do Menino Jesus. Outros, para a retribuição aos cantadores com fartos comes e bebes. Aos oprimidos por necessidades materiais, o “pedido de reis” e a esperança da fraternidade das pessoas popularmente chamadas de gente do bem. É uma festividade sim, mas que não precisa apelar para nada mais do que os sentimentos cristãos.

Se o Natal tem o cunho de renascimento e cada novo ano brota com auroras esperançosas, os apelos comerciais tão vigorosos noutras épocas sabem que, quando embrulhados, envolveram presentes com conteúdos mais modestos e bem singelos. Propagandas motivaram: “na crise, subtraia o ‘s’ e crie”!

Os penduricalhos, as bolotas, os ramos de neve e o peso da subserviência colonizada por culturas estranhas aos hábitos do nosso povo gaúcho, brasileiro e sul-americano, merecem reflexões sobre isso tudo que se vende, a comercialização internética globalizada. O bem viver, a cultura e a cidadania de ser livre seguem sofrendo ataques grotescos e obsequiando fatias privilegiadas, em especial, pelas estratégias de apossar-se da tomada das decisões. Necessário se faz providenciar pensamentos e problematizar esse peso pendurado na árvore social.

Feliz Natal!  Feliz 2019!  Feliz Festa de Reis!

 

 

Proseamos mais de outra feita. Julgo válido agradecer ao ativista cultural e amigo Paulo Roberto Guimarães pelo espaço e almejo que o Natal seja de reencontro com o sentimentalismo cristão com o 2019 possibilitando-nos melhores dias para comemorações e celebração da vida !

 

 

Santa Maria, Natal de 2018.

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