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maio 31

O Bode

O bode é um dos animais que mais aparece nas lendas e no folclore de muitos povos. Em função de seu aspecto físico, com enormes chifres, e seu temperamento rebelde e arredio, em várias culturas substitui a figura do demônio, do diabo, do capeta ou confunde-se com elementos do mundo do mal. Além disso, dá origem a várias expressões de linguagem, geralmente de conotação pejorativa, refletindo circunstâncias complicadas da vida humana.

Amarrar o bode

Ficar zangado, de cara amarrada, mal-humorado, irritado, amuado.

O bode é, por natureza, um animal rebelde. Gosta de viver solto, em plena liberdade. Costuma pular cercados, ultrapassando obstáculos com facilidade. Quando amarrado, torna-se impaciente, inquieto, o que expressa em movimentos intermináveis e berreiro. Não há quem suporte bode amarrado. Quanto ao animal, a solução é livrá-lo da corda; quanto ao sujeito zangado, o recomendável é afastar-se dele ou ignorá-lo. Cada um conhece melhor os seus bodes e, com certeza, saberá tomar a atitude mais correta para a devida circunstância.

Bode expiatório

Pessoa sobre a qual se fazem recair arbitrariamente culpas ou erros de outros. Pessoa ou coisa a que(m) se imputam ódios, reveses, frustrações, é alvo favorito de troças e ataques de todos. É o acusado injustamente no lugar do verdadeiro culpado.

A expressão tem origem em ritual da tradição judaica, conforme consta do capítulo l6 do Levítico, livro do Antigo Testamento da Bíblia. Dois bodes e um touro eram levados ao templo de Jerusalém. Os sacerdotes sorteavam ao azar um dos dois bodes. O outro era sacrificado e queimado em holocausto, no altar dos sacrifícios, com o touro, e o sangue de ambos era aspergido nas paredes do templo. O segundo tornava-se o bode expiatório. O sacerdote colocava as mãos sobre a cabeça dele e confessava os pecados de Israel. Simbolicamente, o povo depositava todos os seus pecados nesse animal, que depois era abandonado ao relento no deserto. Acreditava-se, assim, que o povo também ficaria livre dos males que havia cometido e acalmaria o demônio. A cerimônia simbolizava a purificação e a expiação dos pecados e culpas. O ritual era repetido anualmente, em data conhecida como o Dia da Expiação, em hebraico Iom Kippur.

A história da humanidade é rica em exemplos de bodes expiatórios, escolhidos para encobrir despropósitos e ganâncias dos dominantes. Hereges, índios, negros, judeus, deficientes, homossexuais, pobres, imigrantes, entre outros, ilustram essa longa relação. Quando não se quer mudar uma situação ou não se quer admitir uma culpa, escolhe-se um bode expiatório, entre os mais fracos e indefesos. Depois é só alardear aos quatro ventos a culpa do infeliz e provocar sobre ele a ira dos demais. Muitas vezes, o próprio escolhido é incapaz de perceber que está sendo vítima. O mesmo ocorre com a legião dos que embarcam nessa versão e veem no sacrifício do bode a solução dos males. Infelizmente, muitos pagaram e continuam pagando o pato, nas margens da vida e da história, enquanto outros, em minoria, rumam, impunes, no largo leito da ganância, da ambição descabida e da impunidade.

Dar bode

Confusão, complicação, encrenca, contratempo, incidente que contraria a ordem.

A explicação para a frase deve-se ao comportamento rebelde do bode, já expresso em “amarrar o bode”.

Tirar o bode da sala

É solucionar uma situação que foi criada artificialmente, no intuito de desviar a atenção sobre um problema mais difícil e para o qual não há ou não se quer dar solução. Para tirar um bode da sala, primeiro ele deve ser ali introduzido. Imagine as pessoas, em acalorada discussão, e alguns dos indivíduos ali presentes, com responsabilidade e poder de decisão, sendo colocados contra a parede e intimados a tomar uma atitude a que não estão dispostos ou que não é de seu interesse. Como tática para livrarem-se do constrangimento, colocam um bode bem catinguento naquele ambiente. Diante do novo problema, todos reclamam com veemência. Prontamente, o bode é retirado da sala e com ele, aquele odor desagradável. Os que, antes, estavam a exigir um posicionamento sobre a questão em debate até já se esqueceram disso e aplaudem a retirada do bode, dando-se por satisfeitos, sem perceberem a manobra a que foram submetidos.

Ditado popular

Para quem ama, catinga de bode é perfume.

A frase desfila muito em para-choques e para-lamas de caminhões ao longo das estradas. Traduz, de maneira simples e até chula, o modo de pensar do povo a respeito do amor, para o qual se trata de um sentimento cego. Quem ama, ou mais, quem está apaixonado não vê defeitos, a tudo releva, aceita incondicionalmente o outro com todos os defeitos. Inebriado de amor e paixão, o mundo só tem rosas e perfume.

COLABORAÇÃO; CESAR TOMAZZINI LISCANO

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