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jul 28

Maj. João Cezimbra Jacques parte I

Patrono do Tradicionalismo Gaúcho
13/11/1848 – 28/07/1922

João Cezimbra Jacques (Santa Maria, 13 de novembro de 1848 — Rio de Janeiro, 28 de julho de 1922) foi um militar brasileiro, precursor do Movimento Tradicionalista Gaúcho.
Militar de Cavalaria, foi voluntário na Guerra do Paraguai aos dezoito anos, em 1867, servindo no 2º Regimento de Cavalaria. Lá permaneceu durante três anos e recebeu condecorações do Uruguai, Argentina e Brasil. Seu pai também participou da Guerra do Paraguai onde veio a falecer.
Em 1895 comandava o terceiro Esquadrão do terceiro Regimento de Cavalaria, foi instrutor da Escola Preparatória de Rio Pardo e do Curso D’Armas da Escola Militar do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre. Em 1901 passou para a reserva no posto de major. Era positivista, discípulo de Augusto Comte.
Pioneiro em várias áreas, foi o primeiro a publicar um livro em Santa Maria, participou da criação da Academia Rio-Grandense de Letras em 1901. Foi um dos fundadores do Partido Republicano Rio-Grandense em 1880. Fundador do Grêmio Gaúcho de Porto Alegre, em 22 de maio de 1898, sendo por isso considerado precursor do Movimento Tradicionalista Gaúcho e seu patrono.

João Cezimbra Jacques
(por José Francelino de Araújo)
O pioneiro João Cezimbra Jacques teve sua vida assinalada por dois pontos fundamentais: o infortúnio e o pioneiris-mo. Seu pai, ainda moço, morreu na guerra do Paraguai, onde também servia João Cezimbra Jacques, com apenas 18 anos de idade, engajado no 2o Regimento da Cavalaria. Sua mãe, esposa e filhos faleceram jovens.
Nasceu na rua do Acampamento, em Santa Maria, no dia 13 de novembro de 1849 e morreu no Rio de Janeiro, aos 73 anos de idade. Seu pioneirismo se revela por inúmeras iniciativas: como escritor abordou assuntos até então pouco explorados ou inéditos. Por sua inspiração e incansável labuta foi criado o Grêmio Gaúcho, primeiro núcleo para a cultura das tradições destes pampas; foi um dos fundadores do Partido Republicano no Rio Grande de Sul; adepto do Positivismo, escreveu sobre o problema social e integrou o elenco de intelectuais de nossa primeira Academia de Letras do Rio Grande do Sul.
Segundo Hélio Moro Mariante, in Assuntos do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 1912, Cezimbra Jacques possuía “estatura mediana, cabelos lisos, maçãs do rosto salientes, grandes orelhas, olhos levemente amendoados, fronte ampla e bastos bigodes, era bem o lipo representativo do gaúcho da campanha”.
Sinval Saldanha, amigo íntimo do patrono, examinando o tipo e personalidade de Cezimbra Jacques, escreveu no Correio do Povo, em março de 1926: “indiático, pouco barba, a sua fisionomia tinha traços do silvícola nacional.
Talvez, mesmo, o sangue desses antepassados corresse nas suas Veias.”
Homem de um dinamismo incomum, acatado e respeitado na sociedade civil e militar. Foi professor das escolas militares de Rio Pardo e Porto Alegre. Falava francês, guarani e caigangue e era dono de prodigiosa memória.
Excelente tocador de viola, conhecedor das danças antigas, cujas características coreográficas, música e letra recolheu nas suas andanças pelos pagos.
Era neto, pelo ramo paterno, do catarinense João Guilherme Ja-cques Filho e da riopardense Feliciana Maria de Souza e, pelo materno, do baiano João Antônio da Silva Cezimbra e Ana Francisca Cezimbra, de Cachoeira do Sul.
João Cezimbra Jacques era militar e escritor regionalista, considerado mestre do gênero. Em seu Dicionário dos Intelectuais Rio Grandense, Luis Corrêa de Mello disse que seu estilo era dúctil e vigoroso.
O escritor, compositor e folclorista Barbosa Lessa, em artigo publicado em Zero Hora de 15 de maio de 1999, sobre o Regionalis-mo-expansão da nova sabedoria, disse: “A grande novidade trazida por João Cezimbra Jacques, porém, residia no expressivo vocabulário guarani-português colhido junto às próprias tribos remanescente na região – e num glossário capaz de introduzir qualquer imigrante no domínio das mais belas expressões regionais”.
Continua Barbosa Lessa:
“Pela primeira vez apareciam as letras de forma, prontinhas para serem lidas e repetidas; palavras como ‘bagual’, ‘bombachas’, ‘chi-marrão’, ‘churrasquear’, ‘guaiaca’, ‘guaco’, ‘matambre’, ‘matungo’, ‘piguancha’, ‘pingo’ e outras”.
Em 1883 Cezimbra Jacques lançou o Sertanejo Rio-Grandense, obra acrescida de copioso vocabulário sobre a fauna da região. Escreveu dois pequenos ensaios: o Parlamentarismo e o Presidencialismo Puro, ambos em 1918. Integrou o grupo de intelectuais que fundou a Academia de Letras do Rio Grande do Sul, tendo ocupado a cadeira de Crítica e História.
A obra de João Cezimbra Jacques sobre o Rio Grande do Sul é fonte primeva para quem deseja consultar, ou se aprimorar, sobre a história do pampa sul-brasileiro.
Em seu Perfil de um Pioneiro, sobre Cezimbra Jacques, acrescenta Hélio Moro Mariante: “Embora não fosse senhor de excepcional cultura, ressentindo-se da falta de aprimorada formação humanístico-científica, Cezimbra Jacques supre tal deficiência com talento”.
O patrono da cadeira n°19 era homem simples e confessou isso ao referir-se em sua obra Assuntos do Rio grande do Sul, da seguinte maneira: “Encarando pelo lado da forma, somos o primeiro a reconhecer o nenhum mérito deste trabalho. Cumpre ainda dizer que não dispomos de nenhuma aptidão literária, apresentando despretensiosamente de utilidade que possa oferecer…”
Cezimbra Jacques foi um apaixonado pelos pampas, por suas eoxilhas e pelos rincões mais distantes do Rio Grande do Sul. Profundo admirador da geografia e conhecedor dos costumes sul-rio-grandenses.
Com a instalação da República Brasileira Cezimbra Jacques retornou ao Exercito em 1890. Serviu novamente em São Borja e inspecionou obras militares no Estado do Rio Grande do Sul. Em 1891 recebeu a promoção de capitão. Logo em seguida, motivado pela moléstia, recolheu-se ao hospital militar em Porto Alegre. Nesse mesmo ano casou-se com Júlia Cidade, natural de Porto Alegre. Ele estava com 42 anos de idade e ela com 21. Tiveram 3 filhos: Alberto, nascido em 1891, Bolívar, nascido em 1893, e Albertina, nascida em 1894. Infelizmente sua esposa veio a falecer prematuramente em 1897. Junto com seus filhos ele também ficou órfão de afeto.
Durante a Revolta Federalista de 1893 Cezimbra Jacques posicionou-se contra os revolucionários. Apesar de doente apresentou-se e lutou, pelo lado legalista, o positivismo era telúrico; nascera com a sua formação adulta. Por isso apoiou os governos de Floriano Peixoto e de Júlio de Castilhos.
Sua carreira militar teve continuidade. Em 1895 tornou-se ins-trutor da Escola Militar de Porto Alegre. Dois anos depois foi aprovado em todos os testes finais na sua arma escolhida, a Cavalaria. Mais tarde, por cinco anos, tornou-se instrutor da Escola Prática do I ixército em Rio Pardo. Recebeu inúmeros elogios pelo seu trabalho. Em 1901 foi reformado do Exército. Passou para o posto de Major depois de 36 anos dedicados à vida militar, à honra e aos valores patrióticos. Sua organização, competência e criatividade o destacaram nas artes militares e no relacionamento humano. Inventor, escritor, historiador, sociólogo, lingüista e biógrafo foram faces, desta personalidade vibrante, que o acompanharam durante sua vida. Ousadia, caráter firme e desprendimento são valores insofismáveis de sua existência.
A experiência militar lhe fortaleceu o profundo respeito à disciplina, à organização, e à criatividade. O contato com pensadores militares no Rio de Janeiro auferiu-lhe o gosto pela reflexão filosófica, pelo reconhecimento de valores sociais e pela política. Somaram-se tradições avoengas quanto à ordem e ao amor pela pátria. Somaram-se, ainda mais, a experiência de vida paterna voltada para a vida urbana.
Adotou a filosofia de Comte e abraçou a causa republicana desde jovem. Foi republicano histórico, pois estava dentre os fundadores do PRR (Partido Republicano Rio-Grandense) em 1882. Até sua morte nunca se afastou do positivismo comtiano. A organização, o moralismo e a paixão pelo progresso levaram-no a se aprofundar cada vez mais nos estudos e práticas positivistas.
Dentro do Exército a hierarquia superior lhe penalizou por Ter sido republicano. Em 1888 foi demitido, como instrutor, da Escola Militar de Porto Alegre. O motivo era sua ideologia republicana Ele não se abalou. Pois tinha convicção que, como militar, cumpri rigorosamente seu ofício. Afinal, tanto o cidadão civil quanto o mi litar servem à Pátria e não aos governos. A sociedade ou o coletiv é prioritário e não o patriciado. A lição de Comte vibrava em su mente.
Publicou sua obra “Costumes do Rio Grande do Sul – Precedid de uma ligeira Descrição Física e de uma noção Histórica” em 1883 A ela seguiram-se ensaios típicos que costumavam sair na época Ele escolheu escrever sobre sua terra. A obra “Assumptos do Ri Grande do Sul” foi publicada em 1912 e tratou de temas lingüístico e sociais de maneira mais elaborada. Foram essas suas obras mais estudadas e divulgadas. No entanto, Cezimbra Jacques publicou e 1904 “Frases e Vocábulos do Abá-Nêênga Guarani”; em 1907 “Me ditações -Assuntos Sociais”; em 1911 “Assuntos Sociais”; 1913 “f Parlamentarismo”; em 1914 “O Presidencialismo Puro”; em 1915 “O Aspirante a oficial Alberto Cezimbra Jacques – in Memoriam”; em 1917 “O Direito na Sociologia”; em 1918 “A Proteção ao Operariado na República”, e outras obras sem data de publicação: “Novos Ideais Políticos” e “Prática de Esgrima”. Publicou outras obras interessantes que auxiliaram a coroar seus talentos.
João Cezimbra Jacques possuía todas as qualificações para ser escolhido, como foi, patrono da cadeira n° 19 da Academia Rio-Grandense de Letras.

HOMENAGEM A JOÃO CEZIMBRA JACQUES, PATRONO DO TRADICIONALISMO GAÚCHO E EX-PROFESSOR DO VELHO CASARÃO DA VÁRZEA (CMPA), REALIZADA NO COLÉGIO MILITAR DE PORTO ALEGRE EM 27 DE MAIO DE 1999.
O HOMEM JOÃO CEZIMBRA JACQUES
Segundo seu biógrafo – o Coronel PM, historiador e membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul – Hélio Moro Mariante, aqui presente, JOÃO CEZIMBRA JACQUES teve sua vida terrena assinalada por um signo dúplice – o do infortúnio e o do pioneirismo – um e outro com extraordinária influência em sua vida.
Abriu os olhos para o mundo na rua do Acampamento, em Santa Maria, no dia 13 de novembro de 1849. Seu pai, moço ainda, expirou no Paraguai a serviço da Pátria, onde também se encontrava nosso biografado que, contando apenas 18 anos de idade, prestava serviços de guerra, engajado no 2º Regimento de Cavalaria.
Sua mãe, esposa e filhos faleceram muito jovens, vítimas da tuberculose que dizimou toda sua família, vindo ele próprio sucumbir aos 73 anos de idade, do mesmo mal.
Juntamente com seus dois irmãos, Cezimbra Jacques foi criado pelos avós paternos. Esse permanente e angustiante estado emocional influenciou, como não poderia deixar de ser, em sua idiossincrasia, pois que o acompanhou do berço ao túmulo como um ferrete a amargurar-lhe a existência.
De estatura mediana, cabelos lisos, maçãs do rosto salientes. grandes orelhas, olhos levemente amendoados, fronte ampla e bastos bigodes, era bem o tipo representativo do gaúcho da campanha.
“Indiático, pouca barba, a sua fisionomia tinha traços do silvícola nacional. Talvez mesmo, o sangue desses antepassados corresse nas suas veias”, segundo precioso depoimento de seu íntimo amigo, Dr. Sinval Saldanha, que acrescentou: “Original, excêntrico, respeitável por todos os títulos, gozava de alta consideração no meio social.”
O Dr. Mário Kroeff, amigo pessoal de Cezimbra Jacques, em seus livros “Imagens do Meu Rio Grande” e “O Gaúcho no Panorama Brasileiro”, relata com pormenores, a tragédia que se abateu sobre a família de Cezimbra, culminando por acompanhar ele próprio os restos mortais de seus filhos e de seu pai até a última morada. Encarregado do enterro pelo próprio Cezimbra, desincumbiu-se dolorosamente do encargo.
Outro depoimento valioso, de autoria do também seu amigo Dr. Sinval Saldanha, diz: “Mais de uma vez visitei-o em sua residência na Avenida Mem de Sá, no Rio. Eu ia em companhia do Oswaldo e do Mário Kroeff, seus bons amigos aqui do Sul. Na parede do quarto, penduradas, se viam fotografias de dois moços e duas blusas de militar. Eram dos entes queridos levados pela morte. Uma ou duas vezes por semana renovavam-se as flores que enfeitavam aquele quarto.
E o velho pai, reverente, saudoso e positivista, se encurvava todos os dias ante aqueles objetos pertencentes aos caros filhos desaparecidos.
Em dado momento de nossa palestra, naturalmente sobre assuntos do Rio Grande do Sul, Cezimbra Jacques abriu uma gaveta e dela tirou um saquinho. Aberto, vimos que tinha terra. Sim, era terra do Rio Grande do Sul que o venerando cidadão conservava para lhe servir de travesseiro em seu caixão mortuário. Emocionado, disse que ia morrer distante de seu torrão natal, pois não queria afastar-se para longe da sepultura dos filhos, no Rio. E assim sendo, suplicava aos três amigos presentes, que levassem um dia as suas cinzas para os pagos sulinos.
Lamentavelmente não foi cumprida sua última vontade. Oswaldo e eu morávamos em Porto Alegre; Mário, no Rio de Janeiro, viajou à Europa por longo tempo. Deixamos assim, passar o prazo do arrendamento do túmulo do intrépido gaúcho”.
No entanto, durante o Primeiro Congresso Tradicionalista Gaúcho, em Capão da Canoa, uma tradicionalista pediu ao presidente do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul, Cel Cláudio Moreira Bento, para localizar os restos mortais de Cezimbra Jacques, e o Instituto então foi a campo. Através das pesquisas realizadas no Hospital Central do Exército, onde ele faleceu em 28 julho 1922, na Santa Casa – que administra os cemitérios, na Biblioteca Nacional e no jornal A Noite – que registrou seu falecimento, chegou-se à conclusão que seu óbito foi lavrado sob o número 242, tendo sido seus restos mortais trasladados para Porto Alegre em 3 agosto 1927, com a guia de nº 406. Todavia, ainda não se descobriu quem o levou e para onde.

Pesquisa por: Cesar Tomazzini.

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