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fev 05

EXISTE  ‘MORTE’  FELIZ  ?

Dilmar Paixão –(professor, escritor e poeta)

Confesso-lhes que eu não era muito crente dessa afirmativa. Apesar de ter lido muito sobre isso por dever profissional, a palavra ‘morte’ já me soava como um termo funesto e profundamente triste. Fiz leituras sobre o assunto e dois livros, particularmente, deram-me dimensões complementares: “Morte, estágio final da evolução” e “As ilusões e os problemas da Vida”. O primeiro deles, contém relatos de pessoas que estiveram clinicamente mortas, como se diz vulgarmente “desenganadas”, e voltaram a ter consciência e a se recuperar biológicca e fisiologicamente. No outro, Mosquera explica o ciclo existencial do ser humano e o destino para a vida em plenitude.Na beira da praia, eu recebi a notícia tecnológica de que o jovem Volmir Martins, no auge dos seus quarenta e poucos anos, partiu para a querência eterna, após mais uma apresentação com sucesso.A semana em torno do dia 24 de janeiro era festiva para nós, porque meu pai aniversariava e, há três anos, havia promovido talvez a sua festa mais importante: a missa-jantar-espetáculo e baile dos seus 80 anos, bem como ele havia imaginado.No 66º Congresso do Movimento Tradicionalista, acompanhados do seu herdeiro natural, o Arthur, com a Dinara, pudemos, novamente, saber da admiração e da boa lembrança que os tradicionalistas e a gauchada de prendas e peões devotavam ao Seu Paixão. E a homenagem póstuma foi honrosa: eleito Patrono Espiritual do evento com a companhia de Adelar Bertussi e Raul Dias. Fiz a letra da canção que recebeu a melodia do Grupo Alma Gaudéria. Falo disso noutra oportunidade.Homenageado na Semana Farroupilha de Santa Maria, Seu Paixão disse que não nos preocupássemos se ele iria à cavalo, numa carreta ou carroceria do caminhão, porque ele não desfilaria. Nós que compartilhávamos daquela roda de chimarrão tradicional sorrimos, porque não tinha como entender tanta certeza. A reunião prosseguiu com as recomendações e escalas feitas por ele. Dinara, para fazer os agradecimentos do encontro preparatório com os tradicionalistas e a Comissão Coordenadora dos festejos; eu, para agradecer em nome dele fazendo o ‘discurso’ em versos na solenidade de distribuição da Chama Crioula às representações das entidades tradicionalistas; o neto Arthur, destinado às entrevistas da televisão, emissoras de rádio, revistas especializadas e jornais.A cada momento haveria – e houve – uma mensagem sua de unidade e de valorização à juventude, à pesquisa, ao estudo e à prática da cultura do tradicionalismo e da cultura gaúcha.No dia 18 de setembro, radiante, ele foi à Missa Crioula na Basílica da Medianeira – Santa Padroeira do Estado do Rio Grande do Sul – veiculada para todo o país pela Rede Vida TV, cumpriu sua rotina diária de fé, lazer e convívio e se despediu como sempre pediu à Deus: “uma chama que se apagasse, num sopro Divino”.Umbandistas comentaram que foi uma “passagem”; católicos, mencionaram “Páscoa”, como explicou o Padre Dotto nas cerimônias fúnebres. O fato é que estamos usando o lenço preto como sentimento por sua morte e passaremos para o lenço carijó aos seis meses, e ouvimos das pessoas que o Seu Paixão teve a morte que queria.Quando eu escrevi os versos, com o Arthur e a Dinara, cantarolava em nós, a canção do Teixeirinha, no Tropeiro Velho: “Morreu feliz porque vamos continuar as tropeadas que ele tanto amou”!Eu falava sobre isso quando irrompeu no Plenário da Câmara de Vereadores, de gaita em punho, o seu ‘parente’ acordeonista mais qualificado: Prof Júlio Cesar Pires Pereira. Não há como admitir que tenha sido um velório comum ou tradicional. Se ele não sofreu, se morreu ouvindo música e sendo homenageado, atrevo-me a perguntar: não teria sido, uma morte feliz ?Antes, o filho do Gregorinho (Artur Bonilha); pouco depois do nosso pai, o Adelar Bertussi e, agora, o Volmir Martins. O Adelar e o Seu Paixão haviam se encontrado jovens na caserna. O Volmir, eu apresentei à ele, impressionado com a velocidade de raciocínio na criação de versos ‘da ideia’ na trova. Posso contar-lhes inúmeras passagens sobre esse jovem que nos deixou no final de janeiro.Resta-me, perdoem-me pela audácia, mais uma convicção: para quem sempre aplaudiu trovadores rápidos, perspicazes e inteligente, admirou e homenageou a cordeona bem tocada num ‘mi maior de gavetão’ deve ter formado no pelotão da guarda de honra a receber o Adelar e o Volmir. Cantemos o ‘Sangue de Gaúcho’ e gritemos, vez por outra: “Ataca as éguas Salvador”!Nossa solidariedade fraterna aos familiares e amigos.Proseamos mais de outra feita, tomara mais conscientes, participativos e reivindicadores dos nossos direitos!
Atlântida,  24 de janeiro de 2018. 

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