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jul 04

Ao completar 90 anos, Paixão anuncia afastamento: “É hora de descansar! Que as novas gerações sejam responsáveis pelos novos frutos!”

João Carlos D’Ávila Paixão Côrtes nascido em Santana do Livramento, fronteira seca do Rio Grande do Sul com Rivera (Uruguai), em 12 de julho de 1927, é Engenheiro Agrônomo, folclorista, radialista e dedicado pesquisador da cultura, hábitos e costumes populares do Rio Grande do Sul e do Brasil, os quais registrou em dezenas de publicações e discos.

Formado em Agronomia, teve sua vida profissional ligada a Secretaria da Agricultura do Rio Grande do Sul onde desenvolveu trabalhos ligados a Ovinotecnia, em destaque a introdução da tosquia australiana e a tipificação de carcaças.

Em 1947, liderou os estudantes que fundaram o Departamento de Tradições Gaúchas do Grêmio Estudantil do Colégio Júlio de Castilhos em Porto Alegre, célula-mater do Movimento Tradicionalista Gaúcho.

Esse núcleo estudantil foi o centro agregador para um grupo de jovens que protagonizaram pioneiramente momentos marcantes na história do tradicionalismo. Ele e sete companheiros, trajados e montados tipicamente à gaúcha, algo inédito na época, formou o “Piquete da Tradição” que desfilou, em Porto Alegre, fazendo a guarda de honra da urna funerária dos restos mortais do general farroupilha Davi Canabarro.

Este Departamento criou, durante a primeira Ronda Crioula, uma série de solenidades culturais e cívicas que deram origem aos símbolos da Chama Crioula e do Candeeiro Crioulo, e inspirou a criação da Semana Farroupilha.

Participou ativamente do grupo, onde estavam presentes Barbosa Lessa e Glaucus Saraiva, que fundou o “35 Centro de Tradições Gaúchas”, o primeiro CTG, compondo a primeira diretoria como Patrão de Honra.

Estima-se que existam mais de 4.000 entidades gauchescas de diferentes constituições (CTGs, piquetes, grupos de danças, conjuntos musicais, etc) que congregam cerca de cinco milhões de pessoas no Rio Grande do Sul, em quase a totalidade dos estados do Brasil, e em diversos paises da Europa, da América do Norte, e da Ásia.

Seu trabalho foi reconhecido pelo povo do Rio Grande do Sul, ao ser escolhido por voto espontâneo, como um dos “Vinte Gaúchos que Marcaram o Século XX” , colocando-o entre exponenciais figuras como Getúlio Vargas, Osvaldo Aranha, João Goulart, Érico Veríssimo, Mário Quintana, Barbosa Lessa e outras personalidades.

Nacionalmente foi distinguido, pelo, então, Presidente da República Fernando Henrique Cardoso, com a Comendo da “Ordem ao Mérito Cultural”, por serviços prestados à cultura brasileira.
Do Governo do Estado do Rio Grande do Sul recebeu a “Medalha Negrinho do Pastoreio”, como reconhecimento por serviços prestados à cultura, e a “Medalha Assis Brasil”, em destaque por seu trabalho em prol da agropecuária.

Por sua atuação nos mais diversos segmentos, igualmente recebeu significativas homenagens e distinções, por diferentes entidades das áreas de ensino, da cultura, das artes, da literatura, das representações governamentais, da agropecuária, da economia, da religiosidade e da representação popular. Igualmente, empresta seu nome a Museu, a CTG, a praça, e a premiações em distintos municípios gaúchos.

Convidado pelo consagrado escultor Antônio Caringi, em 1954, Paixão Côrtes teve a honra de posar, com suas roupas campeiras e laço de 14 braças, para o artista esculpir a estátua do “O Laçador”, que inicialmente foi colocada em gesso na exposição em comemoração do IV Centenário de São Paulo. Em 1958, a obra escultural eternizada em bronze, foi erguida em praça pública à entrada de Porto Alegre, sendo deslocada, em 2007, para o “Sitio do O Laçador”.

Recentemente, sua Sant’Ana do Livramento homenageou-o com obra estatutária de Sérgio Coirolo, colocada na entrada da cidade, saudando o visitante da fronteira.

Paixão Côrtes, que iniciou suas pesquisas folclóricas junto com Barbosa Lessa ainda no final da década de 40, desenvolveu um notável trabalho de “garimpagem” junto ao genuíno homem do campo por perdidos rincões do estado gaúcho. No transcorrer do tempo, necessitou custear, as expensas próprias e sem auxílio de qualquer órgão governamental, os filmes, as fitas magnéticas e os equipamentos – gravadores, filmadoras, e máquinas fotográficas, utilizados para registrar um fértil manancial da cultura popular gauchesca.

Deste trabalho com pesquisador no nosso estado, em outros estados brasileiros, e em diversos paises da América Latina e da Europa, resultou um acervo de milhares de slides, de centenas de fitas gravadas, de horas de filmes em super 8 e em VHS, de raros registros fonográficos da “Casa A Eléctrica” pioneira produtora do selo gramofônico “Discos Gaúchos”, e de inúmeros documentos sobre os hábitos e costumes rio-grandenses.

Tendo como foco a divulgação deste material, colaborou com diversos artigos para jornais e revistas, apresentou teses aprovadas em Congressos Tradicionalistas e de Pesquisadores da Música Brasileira, palestrou em simpósios e encontros culturais, participou de programas de rádio e televisão, colaborou com documentários, entre outras atividades culturais.

Profissionalmente realizou cursos sobre tradição, folclore e danças tradicionais, ensinou professores em especializações em faculdades, realizou espetáculos de danças, e como radialista utilizou seus programas de rádio, ao longo de quatro décadas para propagar seus estudos e para oportunizar espaço para manifestação da cultural popular do homem do campo.

Desenvolveu nas últimas décadas, o Projeto MOGAR – Momento Gauchesco Artistico-Cultural Rio-grandense, no qual editou, com textos e fotos do seu acervo pessoal, cerca de quatro dezenas de livros, opúsculos, folhetins, e folders, num total de 350 (trezentos e cinquenta) mil publicações que estão sendo distribuídas gratuitamente para enriquecimento cultural de bibliotecas públicas, de entidades educacionais, de Centros de Tradições Gaúchas, de Grupos Artísticos, de escolas, e de diversos grupos propagadores da cultura gauchesca.

Assim, em 70 anos de múltiplas atividades, Paixão Côrtes, sempre foi um tropeiro cultural. Se em um momento estava em terras européias cantando e dançando a alma da sua terra, em outro estava pesquisando e resgatando as manifestações autócne do povo sulino, para, em seguida, estar transmitindo e divulgando-as pelos diversos rincões do Brasil, contribuindo, assim, definitivamente na formação da identidade do gaúcho riograndense.

Chegando aos 90 anos de idade, decidiu recolher-se na intimidade do convívio familiar. Vai dar uma pausa na sua atuação como homem público pois os anos de tropeada lhe causaram desgastes de saúde. Já não consegue atender igualmente a todas as demandas e não quer preterir ninguém, mas precisa se fortalecer. Espera que compreendam sua decisão.

A sua figura pública sempre foi agente de uma ideia, que foi plantada em solo fértil, e propagou nas novas gerações. Que estas sejam responsáveis pelos novos frutos.

Ele segue observando, organizando e enriquecendo seu extenso acervo documental de pesquisas. O Tropeiro da Tradição agora segue “a despacito” no ritmo do seu tempo, a trançar outros tentos.

Agradece a todos, as mais diferentes manifestações de carinho que continua recebendo.

Porto Alegre, 02 de julho de 2017.
Carlos C Paixão Côrtes
(filho de J. C. Paixão Côrtes)


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Post do facebook, emocionado, da jovem Muriel Machado Lopes, ex-2ª Prenda do RS (2011/2012), advogada, uma tradicionalista dos quatro costados – o qual trago para repartir com os amigos…

 
Nunca seremos órfãos de tua patriarcal contribuição na construção cultural dos seres que nos tornamos a partir do renascimento da valorização da nossa cultura que se deu pelas tuas mãos.
 
Nunca seremos ausentes de tua presença física, pois ela jamais se fará silente, ela é viva e expoente como as danças que resgataste. Ela, a tua presença de alma, canta nas músicas para quais emprestastes teus ouvidos nos regastes Rio Grande a fora, ela é vivaz nas páginas dos livros que nos remetem as tradições perante as quais garantimos um presente cheio de certezas do que somos.
 
Eu compreendo Paixão, ainda que não tenha tido a oportunidade de te ouvir, sorvendo um mate e contando todas histórias que ja li da forma como eu sempre imaginei, ainda que não tenha tido a oportunidade de te agradecer por tudo, eu compreendo.
 
Saiba, nunca tive ídolos e, por isso, nas paredes da minha casa nunca houveram posters de artistas internacionais ou famosos, mas cresci te vendo esculpido por Caringi, assim como os heróis de que tanto ouvimos falar quando lemos sobre a Revolução Farroupilha e, cada vez que olho para a imagem, sinto orgulho em pensar que habito o mesmo tempo em que tu nos presenteia com tua presença e com teu saber.
 
Ainda, quero que saibas, que juntamente com o significado de cultuar tradição, nos ensinou a perpetuar tudo que nos é imprescindível para nos tornarmos uma sociedade melhor, por isso, se de algum modo te incomodas se ausentar, não se atucane, já aprendemos também que as gerações se encarregam de manter acesa a chama dos conhecimentos que lhe determinam para a eternidade e o agora.
 
Por isso Paixão, com tranquilidade eu acredito que todos te entendem e todos te agradecem. Obrigada, 4 mil vezes obrigada, pois foi através do teu sentimento que nos tornamos mais de 5 milhões de apaixonados pela tradição que tu nos devolveu com tanta propriedade.
 
Aceite, por fim, a humilde carta de entendimento de quem muito lhe deve por ser quem é, por viver o que viveu dentro do tradicionalismo e de quem sentiu o que sentiu por uma causa! Obrigada.
 
Nós que agradecemos….

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