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ago 04

A Vida, seus percalços e a Calamidade extrapoladora da Quarentena Coronaviralizada

 – Dilmar Paixão –

(professor, escritor e poeta)

Entretido e cuidando de preservar a saúde mental no meu brinquedo favorito contemporâneo de – quarentenado e #FiqueEmCasa – escrever textos, poesias e brincar com as palavras, anotei três significados do dicionário para o termo vida. São os sinônimos: biografia, história e existência. Ouvi do poeta, amigo, médico e professor Luiz Guilherme do Prado Veppo, que os pintores gostam de autorretratos. Talvez aconteça o mesmo com as autobiografias. Eu tenho predileção por ler essas históricas de vida, sejam autoescritas, de entrevistas ou relatos sobre a vivência de alguém. Prefiro a bio-historiografia, assunto para outro momento.

Escolhi escrever percalços. Da mesma fonte, a significância de barreiras, limites, entraves, limitações, obstáculos e ossos do ofício. Há tempos eu não ouvia ou tinha lido essa conformação, meio consoladora, de ossos do ofício. Pois bem, estou a redigir esta coluna para a mídia digital do Chasque Pampeano com júbilo, regozijo, eleição e preferência. A amizade com o editor Paulo Roberto Guimarães, o acreditar nos seus esforços pela cultura e o bem comum da coletividade, a seleção por querer ajudar na construção de um mundo melhor para as pessoas. Enfim, convites e decisões anteriores à quarentena.

Aliás, quarentena é uma calamidade extrapolada.

A data 20 de Março foi o dia D, a marca da decretação do estado de calamidade pública no Brasil. A fonte dessa notícia mencionou o termo “quarentena”. Entre os textos que eu escrevi – e poemas – em um deles eu questionei: – qual o valor de um abraço? Comentei, de imediato: – eita pergunta encardida! Lembro-me do barro vermelho da minha infância nos rincões do Faxinal, no interior de Cruz Alta, hoje distrito do município de Boa Vista do Cadeado, região gaúcha do planalto médio.

Lá na localidade, o barro do Faxinal grudava mesmo nos pés, nas rodas de carreta ou dos veículos. Era um desafio para aventureiros e, ainda, é. Os problemas provocados pelo coronavírus têm extrapolado previsões, causado surpresa e a tragédia é imensa. Para que você leitor neste instante perceba se estudavam nos livros de biologia três definições: epidemia, endemia e pandemia. A primeira mais como um surto epidêmico; a endemia em uma região maior e a pandemia para o mundo inteiro. Era difícil imaginar tamanha amplitude geográfica do mapa mundi.

Na formação profissional e nos cursos pós-graduantes estudamos mais como parte do currículo formal, coisa dos técnicos e não para a população no ensino informal ou não formal. Porquanto, a quarentena passou dos quarenta inúmeras vezes e a previsão ainda assusta com essa pandemia coronaviralizada.

Agosto chegou. Iniciou o segundo semestre do ano sem ter sido concluído o primeiro semestre letivo e laboral das atividades cotidianas. As pessoas no #FiqueEmCasa e fazendo arte andando pelas ruas e algumas até fazendo visitas. Prefiro aplaudir somente a arte das lives tão modernas quanto já do costume diário. Muitas, coincidentes em data e horário. Independente da idade e do conhecimento, as pessoas mais corajosas estão bem à frente e conquistam cada vez mais seguidores. Eta modernidade!

Eu que sempre escolhi a radiodifusão e até a mídia impressa dos textos de livros e revistas antes da televisão, profissionalmente fui convocado para as plataformas – e são tantas – do ensino remoto e à distância, as frequentes reuniões nas salas digitais, que se fecham e se abrem como se fossem salas físicas nos prédios. Levei tempo para publicar “Feicebuque, eis-me aqui…”, em 2011. E-mails, whatsapp, youtube, instagram e o que vier, porque são necessidades comunicacionais.

Saúdo o cidadão e a cidadã que se aventuraram no seu autolançamento midiático. Há de ter-se muita coragem. Talento, preparo, organização? Nem tanto. O simplificado também é bonito. Nas quarentenas, as pessoas pararam para assistir. Muita gente teve e tem o que dizer.

#NovoNormal ?  Ouvi isso repetidamente e não duvido de mais nada.

Pessoas com quem eu nunca falei, numa live ou noutra demonstraram-me suas ideias, fizeram perguntas, adiantaram subsídios e opiniões. Estreei convidado pela Gilceia no facebook, Live Café. Percebi a audiência na live com o Valdir Oliveira na sua página do facebook, participando junto – para minha alegria – com um parceiro de mocidade tradicionalista, o acordeonista Elias Rezende. Foram mais de vinte mil de acesso, os dados. Bem montado, encilharemos outras tropeadas e cavalgadas mais adiante. Ideias para isso estão como os arreios prontos para a encilha. Buçal e freio, xergão, carona, cincha, dois pelegos, sobre-cincha e o laço preso no basto. Regionalismo. Minha mãe cavalgava montada no selim, sentada de lado – e demonstrava natural habilidade.

Biografia, história, existência, ossos do ofício. A vida em seus percalços da calamidade começa a ser desenhada sob novos planos, nova ótica, horizontes diferentes, previsões e planejamentos modificados pelas circunstâncias. O valor do abraço, da presença, do chimarrão na roda de mate, dos passeios descompromissados e caminhadas, os afazeres cotidianos, tudo tem importância. Até o apego. O pago, a querência, o rincão. Os contatos humanos. A vida e suas perspectivas.

As pessoas que se foram são o maior lamento. A incompetência e o despreparo gestor e institucional é outro assunto. Nesse aprendizado, a lição não foi aprendida corretamente. Com certeza, há muita gente buena obtendo nota baixa e ficando em recuperação. Aí, #EstudarMais e #Dedicação.

Se eu falei da minha mãe, permitam-me que eu assinale o ensejo do Dia dos Pais. No final de julho, 26, foi a homenagem aos avós, que o azáfama comercial resgatou mais do que para celebrar a tradição católica.

Quando o meu pai lançou o seu primeiro livro, O que é MTG: questionamentos e perspectivas, eu o anunciei como o Seu Paixão e disse que o pai era nosso – eu e a Dinara – e o escritor era do seu público. E que público fiel. Com as homenagens recebidas e os tributos póstumos pudemos conhecer pessoas que apenas ele conhecia, que cuidavam frases e escritos dele, histórias e mensagens que ele tinha tido o cuidado de distribuir para que mais gente usufruísse de uma vida melhor.

Já no grupo de risco como eu tenho dito por causa dessa classificação da ciência, embora a legislação e a negação de direitos sociais considerem “velhos” e os “mais velhos”, esses a partir dos oitenta anos, um dia recebi do meu pai um rascunho iniciado de um poema. Comentava o nascimento e anunciava que, antes do filho nascer, “papai já sabia o que devia lhe ensinar”. O poema não evoluiu. A letra da canção ficou nos primeiros acordes do valseado. Um dia, uma noite, uma madrugada, quem sabe, nasça como homenagem a ele e aos pais.

Antes do Arthur nascer, tenho consciência do que foi sonhado e planejado até para que, aos poucos, pudesse assumir por ele próprio as rédeas e firmá-las no seu caminho. Quase advogado, como eu escrevi em um poema que lhe dediquei quando soubemos da sua vitória no vestibular, segue preparando-se profissionalmente para estar apto No Rumo dos Tribunais.

Bueno, a tropeada continua.

A todos os pais, aos avós, os pais dos pais, a partilha da homenagem para data, embora tão especial pelos percalços da vida e desta quarentena extrapolada. Que a saúde e a vida sejam bens maiores e que bênçãos alcançam felicidade e alegrias a todos. Parabéns!

   Proseamos mais de outra feita !    

Buena Vista, Viamão, 04 de agosto de 2020.

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