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jun 28

A ORIGEM DO RITMO BUGIO

Adelar Bertussi (gaiteiro em pé), primeiro acordeonista a gravar um bugio,
defende a teoria de que o ritmo brotou nos campos de cima da serra,
em São Francisco de Paula.
Já que estamos que estamos as vésperas de mais um Ronco do Bugio, áquele que é considerado o festival mais autêntico do Rio Grande, vamos fazer uma breve explanação sobre o surgimento deste que é o único ritmo parido em nossa terra, ou seja, o Bugio.
Segundo o dicionário da língua portuguesa, bugio significa uma espécie de macaco. Tal animal seria oriundo da Argélia, mais precisamente da cidade de Bugia, que leva o nome por dizer-se o berço do citado primata. Figurativamente chama-se de bugio o indivíduo feio, desengonçado, que imita os outros. Macaqueador.

Uma característica marcante dos bugios é a presença do osso hióide (gogó) muito desenvolvido nos machos, que atua como câmara de ressonância e amplificação, conferindo a esses animais uma vocalização ímpar e mais acentuada, quando o tempo está para chover. Segundo os mais antigos “se o bugio roncou no mato, é chuva grossa de fato” e nenhum campeiro saía para suas lides sem a capa na garupa.

Pois foi para imitar esse ronco que surgiu o único ritmo genuinamente gauchesco, visto que todos os outros (vaneiras, chotes, valsas, etc.) são “importados”. A eterna e inútil discussão é onde surgiu o ritmo. Alguns historiadores dizem que foi em São Francisco de Assis, através do gaiteiro Neneca Gomes. Outros, como Os Bertussi, defendem que a origem do balanço sincopado apareceu pela primeira vez lá pelas bodegas do Juá, em São Francisco de Paula, através do gaiteiro Virgílio Leitão.

O pesquisador e folclorista Paixão Côrtes considera que é muito perigoso precisar o nascedouro do gênero musical característico do Rio Grande e que deve ter sido bem depois da guerra do Paraguay, pois em pesquisas discográficas da época do gramofone, entre o período de 1913 a 1924, nunca aparece o gênero bugio.

Em defesa de sua tese, o folclorista alega que em “gaita de botão”, por ser de “voz trocada”, isto é, abre num tom e fecha em outro diferente, não se pode realizar o “jogo-de-foles”, que caracteriza a imitação do primata, recurso só obtido em gaita pianada, que aparece por estas bandas mais ou menos ao findar da guerra com o País vizinho.
O que se sabe, e isto está provado por registros fonográficos, é que foram os Irmãos Bertussi os primeiros a gravar em disco o ritmo bugio, com a música “Casamento da Doralice” no LP Coração Gaúcho.

E foi Adelar Bertussi, mais recentemente, que apresentou uma pesquisa intitulada “O Bugio na Mulada”, onde retrata o aparecimento do ritmo em sua terra natal, no interior de São Francisco de Paula. Segundo suas observações, fruto de diversas entrevistas, o gênero já era dançado na região serrana, antes de 1918, pelos bugres descendentes dos índios caingangues que habitavam as encostas do Rio das Antas e os tropeiros birivas açorianos.

Conta-se que, tal qual o tango argentino que foi parido na zona portuária de Buenos Aires e, inicialmente, era proibido de ser executado nos salões nobres por ser considerado um ritmo degradante pois permitia aos dançarinos um “roça-roça” inconcebível para a época, o bugio também só era retrechado nos bailes de ralé onde o cheiro da canha, o lusque-fusque das lamparinas e o perfume de baixa qualidade faziam parceria para o embalo que tomava conta dos bailões de fundo de campo. Seu compasso sincopado convidava aos bailarinos dançarem meio acotovelados e imitando os passos do bicho bugio.

Uma das características deste animal está relacionada com as suas reações ante uma adversidade, quando ele excreta e lança as fezes sobre seus adversários, ou seja, sua arma é seu esterco. Por esses motivos, quando gente de baixo quilate discute asperamente, as pessoas mais experientes aconselham: – não te mete, isto é briga de bugio!

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