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jun 13

A Memória guardará as Lembranças -homenagem ao Porca Véia

A MEMÓRIA GUARDARÁ AS LEMBRANÇAS

– Dilmar Paixão –

(professor, escritor e poeta)

               O sentimentalismo da data consagrada ao dia dos namorados durou até o início da tarde, para a maioria do mundo regionalista do sul do Brasil. Provavelmente, uma boa parte dos leitores e leitoras deste texto no Chasque Pampeano, sítio já tradicional com espaços para a arte e a cultura popular, entenda porque estou afirmando isso. Justo neste ano do imediatismo extraordinário de fatos incomuns, algo pode dominar as atenções mais do que a data reservava.

Para que se tenha uma ideia, a Dupla Augusto Camargo e Bruna Scopel, uma parceria jovem do meu convívio mais direto por projetos conjuntos, preparou com qualidade e carinho um vídeo celebrando a paixão, o amor e a convivência de alma e corpo inteiro. Suspendeu-a. Eu, nem nos meus tempos mais ativos na cobertura radiofônica dos festivais nativistas – e existia um ou até três, em cada final de semana – respondi a tantas convocações para entrevistas e comentários sobre o acontecimento. Sim, foi um acontecimento. Esperado, sim; biológica e naturalmente se esperava, inclusive, como um alívio ao sofrimento prolongado e repetitivo.

“Como é difícil começar a escrever, quando a saudade vem antes da palavra”. Meu amigo e ídolo artístico por ideias de vanguarda, Luis Carlos Borges (2020) confirmou no seu Instagram (lcborgesoficial), que estava vivendo isso desde que lhe chegou a notícia. Outro amigo, que eu admiro muito e não me canso de aplaudi-lo a cada pajada, o Paulo de Freitas Mendonça (2020) também foi brilhante ao escrever: o Élio Xavier cruzou a porteira do infinito, mas o Porca Véia está eternizado nas suas canções, discos e amizades que cultivou. O Mendonça afirmou isso com propriedade e, principalmente, rememorou a chegada do estagiário da ETA/Viamão à São Pedro do Sul-RS na juventude de ambos, momento em que ele se autoapresentou pela alcunha.

Como um mecanismo emocional e aguardando o horário para a primeira das três dúzias de entrevistas a colegas do rádio, transferi ao texto poético, as minhas lembranças. Conheci-o na tarde da quarta-feira 16 de novembro de 1983, no Auditório do Cine-Teatro de Santa Rosa, quando estávamos no estacionamento numa roda de amigos e profissionais colegas e chegou o João de Almeida Neto acompanhado daquele cara jeito xucro, cabeludo e que, abrindo o sorriso, era como um florear de gaita no estilo campeiro que o consagrou. Conversa rápida e se dirigiram ao setor de credenciamento do festival. Enquanto isso começou a passagem do som (ação muito comum como ato preparatório das apresentações musicais) e a responsabilidade profissional convocou-me a assistir aos ensaios do espetáculo de abertura, porque já havia feito as anotações no livreto das letras das composições concorrentes.

A composição Vozes Rurais chamou a minha atenção pelo teor da letra:

Cada vez que um cantor abre o peito, no galpão interior que ele traz; quem não quer o Rio Grande cantando, com razões, sem sentido, desfaz. Mas no meio de tantos estranhos, momentistas e circunstanciais, surge o forte refrão das campanhas entoado por vozes rurais.

Dê-lhe boca essas bocas cantoras, redentoras da voz dos galpões; dê-lhe pata e desata esse brado dos sagrados rituais dos fogões.

E, entre cantos que negam e fogem aos atávicos tons musicais, estão eles de bota e bombacha sustentando os padrões culturais. Que não falte coragem a esses homens; contra o tempo, agüentando o repuxo e que a estranhas tendências imponham o autêntico canto gaúcho (ALMEIDA NETO, 1983).

Vozes Rurais – com este título – era completa, era verdadeira, era autêntica. Representava muitas coisas, até mesmo a resistência a modismos e outras influências oportunistas. A letra fortemente intencional, a interpretação segura e decidida do João de Almeida Neto, um elogiado acompanhamento musical e um enorme destaque àquele gaiteiro já anunciado pelos apresentadores como Porca Véia. Pela escolha dos jurados, não venceram aquele Musicanto Sul Americano de Nativismo, a 1ª edição.

Isso foi em novembro de 1983. O Juliano Trindade (2020), popularmente conhecido como O Bonitinho, em sua postagem na data de hoje, lembrou do início profissional de ambos, em Porto Alegre, no ano de 1980. A nova fase dos festivais como eu qualifico começou com a Tertúlia em 1980. Foi a minha primeira transmissão de festival pela Rádio Medianeira.

Eu considero como os dois marcos principais do grande destaque do Porca Véia nos festivais nativistas, esse início no palco do Musicanto e, no ano seguinte, na 5ª Tertúlia Musical Nativista. Afirmo, com tranquilidade, porque estava presente com a responsabilidade profissional de realizar a cobertura pela imprensa credenciada. Na época, a equipe de nativismo criada pelo Padre Paulo Aripe na Rádio Medianeira AM para transmitir – ao vivo e por boletins durante o dia – todos os festivais de música nativista do Rio Grande do Sul.

Na primeira entrevista, tão logo foi anunciado o falecimento, aos colegas e amigos Renato Oliveira e Carlos Roberto Nunes – Programa Tá na Hora, Rádio Imembuí FM – concordamos com a proeminência do instrumentista Porca Véia confirmado no acompanhamento musical da canção Nova Trilha, da autoria do Nilo Bairros de Brum e do João de Almeida Neto (1984).

Vale sublinhar que a letra Nova Trilha tem a estrutura de três estrofes de oito versos. Dois terços tiveram o piano sensacional do Cid Guez e os demais, exceto a gaita do Porca Véia, que foi aberta somente no terço final. A composição menciona o trabalhador rural que vem para a cidade e acaba sofrendo agruras nas vilas e embaixo das pontes, com seus direitos sonegados. Posteriormente, volta à querência com a esperança da sobrepartilha e de uma nova trilha. O diferencial aparece justamente nesta parte da canção. O gaiteiro, que permaneceu com a gaita fechada e as mãos debruçadas sobre o instrumento, saúda essa volta à querência no padrão de qualidade dos outros participantes do grupo. A partir deste instante, o grandioso gaiteiro Porca Véia se consagra.

Falei na Charla de Galpão, programa do Adolar Martins e da Sônia (Rádio Santa-Mariense), e nas entrevistas seguintes, que esse gaiteiro, cantor e compositor visitou o palco dos festivais primeiro como concorrente e, em seguida, em espetáculos; no entanto, oriundo dos fandangos, bailes, festas e reuniões de amigos ao espontâneo. O Movimento Tradicionalista Gaúcho-MTG promoveu uma live prestigiadíssima com colegas seus que acorreram para homenageá-lo.

Correspondendo ao sentimento da minha admiração pela figura humana da pessoa simples e autêntica, opinativa e verdadeira, eu escrevi e muitos colegas do rádio, como o Elói de Ávila (Rádio Noroeste), divulgaram: Vá em Paz, Porca Véia!

Um Minuto de Silêncio se faz quando morre alguém.

Eu estou triste, também, pela morte do gaiteiro.

P’ra quem viveu no entreveiro dos fandangos, bailes e festa,

tua arte é o que nos resta. Siga em paz, Companheiro.

Élio Xavier, o Porca Véia. Desde os seis anos, gaiteiro.

Lagoa Vermelha, o primeiro dos acordes na família.

Com a raça de um farroupilha, no palco dos festivais,

tocou nas Vozes Rurais; o gaiteiro da Nova Trilha.

Aluno dos Irmãos Bertussi. Fundador do Grupo Cordiona.

A cadência que apaixona, regionalismo e talento.

Com “Lembranças” me concentro.

Um “Gaiteiro por Demais”, “Alma Serrana” dos imortais,

a entrar “Do Jeito que Deu”, “Céu a Dentro” (PAIXÃO, 2020).

O encerramento da carreira aos 33 anos – contra a sua vontade – naquele 28 de dezembro de 2013 lotou a Festa da Uva, em Caxias do Sul-RS. Lá, como eu defendo sempre, a homenagem em vida esteve no carinho e no aplauso do público, mais nos versos do letrista de melhor qualidade e meu confrade na Estância da Poesia Crioula, amigo Léo Ribeiro de Souza. A música do José Claro e do Zezinho; interpretação competentíssima do Grupo Floreio. Super recomendo, que assistam pelas redes digitais ou no DVD: O Último Baile.

A certa altura do texto, o Léo Ribeiro (SOUZA et al, 2020) sustenta que as lembranças ficam de herança para o resto dos tempos; a alma do homem na gaita; não morre o seu canto; num fundo de campo, ecoa o seu nome, voltando o gaitaço na força do braço da gurizada.

E, agora, o baile tem fim.

O mundo é assim: se cala o cantor.

Não mais, a negra cordeona se abrindo, chorona, sobre o tirador.

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Descansa, mas sua jornada

fica na invernada da nossa memória (SOUZA et al, 2013).

Sim. As lembranças ficam de herança para o resto dos tempos e a memória as guardará com respeito, autenticidade, carinho e muito aplauso reverente.

Uma vez mais, pronuncio a constatação inevitável: é a fila que anda. Como a fazer uma prece, repito: Vá em paz, Porca Véia!

Partenon, Porto Alegre, 12 de junho de 2020.

Referências

ALMEIDA NETO, João de. Vozes Rurais. In: Musicanto Sul Americano de Nativismo. Santa Rosa: 1983. Disponível em: <https://www.letras.mus.br/joao-de-almeida-neto/723806/>. Acesso em 12 jun. 2020.

BORGES, Luis Carlos. Publicações lcborgesoficial. Instagram, 12 jun. 2020.

BRUM, Nilo Bairros de e ALMEIDA NETO, João de. Nova Trilha. In: 5ª Tertúlia Musical Nativista de Santa Maria. Santa Maria: Associação Tradicionalista Estância do Minuano, 1985. Disponível em: <https://www.letras.mus.br/joao-de-almeida-neto/596100/>. Acesso em 12 jun. 2020.

MENDONÇA, Paulo de Freitas. Hoje me passou um filme pela cabeça. Porto Alegre: Facebook, 12 jun. 2020. Disponível em: <https://www.facebook.com/search/top/?q=paulo%20de%20freitas%20mendon%C3%A7a>. Acesso em: 12 jun. 2020.

PAIXÃO, Dilmar Xavier da. Vá em Paz, Porca Véia! In: Semeadura: a serviço da cultura. Porto Alegre: Facebook, 2020. Disponível em: <https://www.facebook.com/paixaoemfamilia>. Acesso em: 12 jun. 2020.

SOUZA, Léo Rideiro de; et al. O Último Baile. In: Porca Véia, 30 Anos de Sucessos. Caxias do Sul: ONErpm, 2013. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=3G809AUT37s>. Acesso em: 12 jun. 2020.

TRINDADE, Juliano. Publicações bonitinhoeecodominuano. Instagram, 12 jun. 2020.

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