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ago 07

A Heroína de dois Mundos – ANITA GARIBALDI – morria em 4/08/1849 – parte IV

A CHEGADA DE ANITA FOI NOTÍCIA DE JORNAL NA ITÁLIA

Durante os 60 dias que durou a viagem para a Itália, Anita teve a oportunidade de ler a “História de S. Luiz – Rei da França”, que lhe foi presenteado pelo abade e amigo Paulo Semidei.
Os legionários italianos e a própria Anita, não tiveram a exata dimensão do que estava realmente acontecendo na Itália, pois a efervescência era maior do que imaginavam. Após ter-se colocado a disposição do Papa Pio IX e depois de ter tomado a decisão de voltar sem dele receber nenhuma resposta, Garibaldi não havia imaginado que a disposição liberal do Papa arrefecesse significativamente, No dia 02 de março de 1848, Anita Garibaldi desembarcou com os filhos em Gênova, onde foi recebida por um contigente popular de 3.000 pessoas, que a esperavam no Porto. Surpresa com a recepção, do tombadilho do navio Anita ouviu os gritos populares de “viva a família Garibaldi” – “viva Garibaldi” – “viva a Itália”. Já no cais do Porto, Anita foi homenageada com a entrega de uma bandeira tricolor. Anita fez um breve discurso em italiano,
quando agradeceu a honraria que lhe foi ofertada, falou na liberdade e colocou-se à disposição para também lutar pela causa italiana. A população exultou em novos vivas.
O fato, que seria posteriormente narrado por Anita em uma de suas cartas, foi motivado pela expectativa popular que a notícia do retorno de Garibaldi havia despertado.
Em Gênova Anita e os filhos são recepcionados por familiares de Stefano Antonini e de Napoleone Castellini, que estavam radicados em Montevidéu como fortes comerciantes e armadores. Seus familiares foram os anfitriões de Anita e seus filhos.

A INTELIGÊNCIA DE ANITA SURPREENDEU OS ITÁLIANOS

Em Gênova Anita e os filhos são recepcionados por familiares de Stefano Antonini e de Napoleone Castellini, que estavam radicados em Montevidéu como fortes comerciantes e armadores. Seus familiares foram os anfitriões de Anita e seus filhos. Nos dias que seguiram-se, pode conhecer Gênova, admirar seus prédios incrustados rentes às íngremes e pequenas ruas,
rasgadas por entre escarpas das montanhas que até hoje precipitam-se obliquamente sobre o mar. Tudo o que viu foi motivo de curiosidade e de admiração, desde os costumes, as roupas, a arquitetura, os prédios com suas fachadas e pisos de mármore, as artes, a cultura e tudo o mais que viu ser diferente do que até então conhecia. Cercada pelos anfitriões e por curiosos,
quando lhe foi indagado sobre suas impressões a respeito de Gênova, Anita não titubeou: “Um amigo nosso argentino, Juan Batista AIberdi, que esteve
aqui há três anos, escreveu-nos que em Gênova os monges, os santos, as frutas, as lojas, os palácios, os monumentos, as igrejas, as flores, a sujeira,
os mármores, tudo isso está tão amontoado, que Gênova tanto pode parecer um convento, um mercado de verduras, uma loja de antiguidades, um jardim, uma Corte, um depósito de lixo, como um sonho do Oriente. 0 Alberdi é engraçado… Mas eu não vi Gênova assim, aos pedaços. Desde que
me achei no Porto, senti a cidade inteirinha, como num amor à primeira vista, em que a gente não liga a detalhes e nem repara nos olhos, na voz, nos cabelos, na alma de quem amamos. Eu diria, enfim, que Gênova é uma mulher amorosa.”
A resposta inteligente que Anita deu em forma de elogio à cidade, foi motivo de notícia, transcrita por jornal local. Conta Valentin Valente que a definição da ” la brunetta di Garibaldi” (a bronzeada de Garibaldi) correu a cidade inteira, cuja população, que já era ardorosamente garibaldina, passou a conviver e a respeitar sua esposa pela sua inteligência e declaração de amor
ao povo genovês.

ANITA DISCURSOU EM ITALIANO PARA UMA MULTIDÃO

Em uma das noites, os Antonini levaram Anita assistir uma apresentação musical no teatro Carlo Felice. Em determinado momento, após o início da peça, o tenor, que deveria interpretar peça musical programada, repentinamente, iniciou a cantar o Hino de Mameli, cuja letra estava proibida por ser uma exortação à guerra contra os tedescos e pela unidade italiana. A letra do Hino conclamava: “Irmãos italianos, a Itália acordou. Colocou na cabeça o elmo de Cipião. Cerremo-nos em corte. Estamos Prontos a morrer: Itália chamou”. Logo a seguir o teatro foi invadido pela polícia local, que suspendeu a apresentação e evacuou o recinto.
Em outra noite, após ter assistido a uma comédia teatral, recém-chegada em casa de seus anfitriões, Anita e seus acompanhantes foram surpreendidos por um grande número de populares, que parados em frente a casa dos Antonini, passaram a cantar o Hino de Mameli e dar-lhe vivas: “- Viva Giuseppe Garibaldi – Viva Anita – Viva a Legião italiana – Viva o Brasil – Viva o
Uruguai “- Um dos manifestantes, deu alguns passos a frente e em nome dos demais
disse-lhe: “Senhora! Sou Godofredo Mameli. Genovês poeta da Itália. Sou a voz de um povo oprimido que viu refulgir além-oceano a Espada de Roma! Em nome de Gênova, a Soberba, e que vós, Senhora, apelidastes de Mulher Amorosa, eu vos peço entregueis este pendão sagrado de Fé, Esperança eCaridade ao Loehngrin da Itália que deve chegar! Que ele o condottiere nascido das ondas da Ligúria e que vós soubestes amar, seja o primeiro a desfraldar as cores da Itália em terra lombarda”.

ANITA E OS FILHOS CONHECERAM A MÃE DE GARIBALDI

No dia 8 de março, após poucos dias de estada festiva e agradável em Gênova, onde fora alvo de múltiplas atenções por parte de populares, da família Antonini e das autoridades simpáticas à causa da unificação italiana, Anita, juntamente com seus três filhos, embarcou num navio a vapor em viagem para Nizza. Aguardava-lhe, impaciente e desejosa de conhecer os netos, sua sogra e cunhados. Anita escreveu à Garibaldi, informando-lhe os diversos acontecimentos e o clima altamente favorável e propício à sua chegada, narrando-lhe que havia uma grande expectativa popular em Gênova e em Nice, pelo seu retorno. A carta, entretanto, não alcançou Garibaldi em Montevidéu, de onde já havia partido em 15 de abril de 1848. Garibaldi, em cartas que mandou a Anita neste período, registrou a preocupação que tinha quando estas duas tão amadas mulheres, mãe e esposa, se encontrassem e tivessem que viver sob o mesmo teto. Em 10 de fevereiro, em carta enviada a Anita por intermédio de Giácomo Médici de partida para encontrar-se com Mazini, Garibaldi escreveu:
“Te mando minhas cartas, que penso vais recebê-la em companhia de
minha querida e amada mãe. Tu minha pequena e amada amiga, deves te
ocupar-te muito dela. E ela fará de tudo para dar-te prazer, para aliviar-te
do desprazer de nossa separação. Quando penso no dia que voltarei a
apertar todos vocês entre os meus braços, serei muito feliz. Porém, por amor
de Deus, não me separarei mais, porque não poderei suportar a idéia de um
desentendimento entre as duas pessoas que representam a minha felicidade futura”.
A mãe de Garibaldi tinha dúvidas quanto a legitimidade da união entre seu filho e Anita, o que poderá ter causado algum embaraço, ou fomentado a crise de relacionamento que obrigou Anita a mudar-se para uma casa de amigos com seus filhos, posteriormente.

ALTIVA E PRUDENTE, ANITA NÃO ACEITOU A OFERTA DO REI CARLOS ALBERTO

Recém-chegada em Nizza, foi convidada para conhecer a Intendência Geral, cujo responsável a recebeu com tradicional receptividade nizarda e efusiva amabilidade. Informou a Anita que tinha recebido ordens do Rei Carlos Alberto, mandando colocar à disposição do filho Domingos Menotti, uma vaga no importante Real Colégio de Racconigi. Altiva como sempre, Anita formulou com dignidade palavras de seu reconhecimento particular, ressalvando, porém, depender a decisão final sobre o assunto inteiramente da vinda de seu marido, ainda em Montevidéu.

GARIBALDI PARTIU PARA ITÁLIA SEM SABER COMO SERIA RECEBIDO

Garibaldi partiu de Montevidéu acompanhado de 86 companheiros fiéis, entre eles dois enfermos: Francesco Anzani, acometido de tuberculose e Gaetano Sacchi, que havia sido ferido em um dos joelhos. O fiel “Mouro” André de Aguyar não deixou de seguir o condottieri. Embora a fidelidade
que lhe era devotada pelas centenas dos membros da Legião italiana, a maioria dos legionários garibaldinos já haviam deitado raízes familiares em Montevidéu, lá possuindo esposa, filhos e residência. Além do mais, embora houvessem temporariamente cessado os combates pela consolidação da independência, era necessário manter constante vigilância, com tropas
regulares permanentes. Por tais motivos, a maioria optou por continuar naquele País. Os mais fiéis e que comungavam com a ansiedade patriótica pela unificação da Itália, seguiram com Garibaldi e embarcaram no navio originário do Reino da Sardenha, chamado de Bifronte, rebatizado
especialmente para esta viagem com o nome de “Speranza”.
No mastro principal do Speranza hastearam a bandeira Uruguaia. A viagem de retorno a Itália foi tranqüila, marcada apenas pela incerteza e insegurança sobre a forma que seriam recepcionados. Contra ele e alguns de seus compatriotas no passado havia sido decretada a pena de morte por suas atividades no movimento dos Carbonários e as idéias republicanas da Jovem Itália. Estaria ainda em vigor? O Rei Alberto estava disposto a anistiá -los? A resposta concreta que dispunham era apenas a notícias sobre a vocação liberal do novo Papa, que havia outorgado a liberdade e decretado anistia para alguns presos políticos do Vaticano, mas que sequer tinha respondido a
carta que havia enviando, quando tinha colocado sua espada à disposição.

O REENCONTRO: ENQUANTO AGUARDAVA PELO MARIDO, EM NIZZA ANITA APRIMOROU-SE

Angustiada com a longa separação, Anita não esperou o navio atracar. Tomou os filhos pelas mãos embarcou em um pequeno barco e foi ao encontro do Speranza, onde subiu para saudar e abraçar seu esposo e companheiro. O reencontro emocionou todos que o presenciaram. No dia seguinte, refeito da longa viagem o primeiro ato exigido por Anita foi atendido por Garibaldi. Acompanhados apenas por seus filhos, o casal dirigiu-se ao cemitério onde o pai de Giuseppe jazia, e ali sepultaram a urna contendo os restos mortais de Rosita. Por este episódio, que dobrou e
sensibilizou a rudeza de um momento de conflitos e de guerras, pode-se aquilatar o profundo zelo, apego e devoção que Anita nutriu e manteve em relação aos seus sentimentos de mãe.
Valentin Valente registra que que durante os meses que Anita esteve em Nizza, enquanto esperou o retorno do marido, dedicou-se ao aprimoramento de seus conhecimentos. Nizza era uma cidade com pouco mais de vinte e cinco mil habitantes, mas com belezas naturais sem fim. Foi um período pródigo na descoberta de novos horizonte. Visitou o Palácio dos Lacaris, o Terraço, o Mercado das Flores, o Prado da Foz e o Passeio Saleia. Recusouse, entretanto, a fazer excursões para fora da cidade, pois desejava fazê-las em companhia de Garibaldi. Após ter conhecido a cidade, sua arquitetura, história, costumes e cultura, enquanto esperava ansiosa, aplacava sua
angustia dedicando-se a leitura. Giuseppe gostava de ler e reler a “Divina Comédia”, de Dante Aleghieri, que Anita já tinha tido a oportunidade de também ler. Mas o tempo que dispunha em Nizza permitiu-lhe ler outras obras. Ficou impressionada com as críticas feitas ao antigo Império Romano, escrita por Santo Agostinho em “A Cidade de Deus”. Também leu obras como a “História de Joana D’Arc”;”La Bataglia de Legnano” de Guerrazzi e “La Monaca di Monza”, de Rossini, entre outras.

GARIBALDI PREGOU A UNIFICAÇÃO ITÁLIANA E SE COLOCOU À DISPOSIÇÃO PARA LUTAR

Logo após a chegada em Nizza, diversas solenidades e homenagens foram prestadas à Garibaldi, Anita e seus legionários. Já conhecido e festejado em virtude da notícias dos jornais que publicaram os seus feitos na América, Garibaldi e Anita demonstravam-se seguros e resolutos. Ele apresentou-se trajando as mesmas vestimentas típicas dos revolucionários sul americanos:
bombacha, bota, camisa vermelha e um pala branco. Era um personagem diferente, ao qual haviam-se agregados os novos e importantes conhecimentos militares, conquistados ao longo de diversos anos nas batalhas libertárias na América do Sul. Era herói que o povo italiano esperava para conduzi-lo!
Alguns dias após sua chegada em Nizza, sendo necessário colocar-se em marcha, passou a conclamar as cidades ao levante pela unificação. Por onde passou foi aclamado e em sua honra realizaram-se banquetes e comemorações. Seguiram-se dezenas de discursos em salões e em praças públicas. Em todas as ocasiões Garibaldi repetia a mesma argumentação em defesa da unificação, exortando os cidadãos para engajarem-se, aumentando seu pequeno exército.
Apesar de colocar-se à disposição do Rei Carlos Alberto, o rei receoso (pois no passado havia decretado a sua pena de morte por atentar contra a Momnarquia), não o apoiou e pediu-lhe que fosse falar com Franzini, seu Ministro da Guerra. O Ministro foi ríspido e objetivo: “-Aqui não há vagas para vós”.

ANITA PARTICIPOU DA BATALHA DE LUINO

Decepcionado pelas rejeições que suportou, Garibaldi tentou sobrepor-se à amargura que sentiu, dirigindo-se a Milão, onde os mazzinistas já haviam formado um exército, que acrescido com seus homens, chegou a 3.000, os quais passaram imediatamente ao seu comando. Era um exército de
voluntários, de diversas procedências, sem disciplina e sem armas e equipamentos indispensáveis. Este exército não teve tempo sequer para organizar-se em companhias e batalhões, pois a falta de maior mobilidade militar dos soldados do Rei Carlos Alberto fez com que os austríacos, com
um exército de 20.000 soldados voltassem a atacar, retomando a cidade de Milão. Depois de sofrer uma deserção de mais de 1.500 homens, Garibaldi foi derrotado na Batalha de Luino, onde combateu com apenas 400 soldados. Segundo os historiadores Leite Castro, Henrique Boiateux e Lindolfo Collor, Anita participou desta batalha, tendo o seu cavalo sido atingido por um tiro,
jogando-a ao solo. Garibaldi vendo-a caída, rapidamente puxou-a para a sela de seu cavalo e os dois, a golpes de espadas, abriram caminho entre os austríacos. Mesmo derrotado e com minguados legionários republicanos, Garibaldi ainda permaneceu na Lombardia, onde na cidade de Morazzone tentou dar combate aos austríacos, sustentando pequenas batalhas. Depois desta
batalha, Garibaldi retirou-se para a Suíça, entrando em Lugano, em cuja fronteira entrou disfarçado, juntamente com poucos de seus homens. Ali foi preso, mas logo posto em liberdade, pois o Cantão Tessin, onde encontravase, que tinha o italiano como língua oficial, era francamente favorável ao projeto de unificação. Mesmo sendo libertado, entendeu que a tão sonhada
revolução pela unificação havia fracassado temporariamente. Era necessário retroceder e ganhar tempo para reorganizar-se. Da Suíça voltou à Nizza, reencontrando Anita, que para lá havia voltado logo após a derrota de Luino.

ANITA ROMPEU O CERCO E ENTROU EM ROMA PARA LUTAR PELA REPÚBLICA ROMANA

Ao saber das notícias, Anita preocupou-se e solicitou a sua amiga Nina, um empréstimo e tomou novamente a diligência para Roma. Foi uma viagem que durou diversos dias. Partiu de Nizza outra vez e foi em socorro do marido. Estava Grávida de cinco meses, mas não importava, porque Roma estava cercada e dentro de Roma estava seu marido. Além dos franceses, tropas de diversas nacionalidades tinham vindo socorrer e restabelecer o poder temporal do Papa.
Em Tarquínia, distante quase cem quilômetros de Roma, deteve-se a carruagem, impedida de passar em decorrência dos bloqueios militares da estrada, pois muitos patriotas italianos estavam seguindo para auxiliar os romanos sitiados pelos franceses. Dali escreveu um carta à sua amiga Nina: “Tarquinia 23 de junho de 1849…. Estou esperando uma chance para me aproximar e entrar em Roma… Não é fácil por causa do cerco…. Estou impaciente para chegar. Ouço notícias ruins de Roma, onde os franceses estão bombardeando sem parar os edifícios antigos. Até retomaram o ataque à traição, durante um tempo de trégua que eles próprios haviam pedido sob o pretexto de recolher seus feridos…”
Em Livorno Anita conseguiu um cavalo, no qual empreendeu a travessia da Toscana, da Úmbria e do Lácio. Cavalgando dezenas de léguas, de forma a evitar estradas vigiadas, no dia 26 de junho de 1849, burlando todo o tipo de vigilância dos austríacos e franceses, Anita consegue adentrar Roma. Entrou pela Porta Pia. Grávida de cinco meses, havia cavalgado sozinha, durante três dias, sob um forte calor do verão italiano. Quando muitos desejavam sair e abandonar Roma, por que já não suportavam mais o cerco agora ampliado e efetuado por 65.000 soldados inimigos, o que tornava a continuidade da luta inócua, Anita, ao contrário, sozinha, rompeu o cerco de fora para dentro e foi enfileirar-se, mesmo grávida e cansada da longa viagem, ao lado dos que ainda acreditavam na continuidade da luta pela manutenção do regime republicano. Quando Garibaldi, que estava reunido com seus oficiais em um improvisado quartel, a viu, surpreso, exclamou:
“-temos mais um soldado!”

compilação de pesquisa: Cesar Tomazzini.
fonte:Anita Garibaldi A Guerreira das REPÚBLICAs– Adílcio Cadorin.

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