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ago 06

A Heroína de dois Mundos – ANITA GARIBALDI – morria em 4/08/1849 – parte III

 

GARIBALDI, ANITA E MENOTTI PARTIRAM PARA O URUGUAI LEVANDO 900 BOIS

Em fins de abril de 1841, após diversas semanas de inatividade militar, resolveu, então, pedir dispensa do Exército republicano, pois pretendia retomar as suas atividades embarcado, ou quanto muito, fixar-se junto a um Porto, onde poderia conviver com o mar, a sua grande paixão de navegador. Anita não obstou, porque a intenção de Garibaldi não era a abandonar definitivamente a causa republicana. A ida para Montevidéu seria temporária, disse-lhe. Assim decidido, procurou o General Bento Gonçalves e expôs-lhe todas as suas angústias, dúvidas e incertezas.
Deste encontro não existem registros oficiais, havendo historiadores que afirmam ter Garibaldi argumentado a Bento Gonçalves que Montevidéu poderia ser uma alternativa para as ligações marítimas da República Riograndense. A maioria, porém, defende a tese de que Garibaldi não partiu para Montevidéu com estas intenções. O que importa, porém é o fato de que
desta confabulação, que não teve testemunhas e que durou quase duas horas, ficou definido que Garibaldi partiria com sua mulher e filho, sendo-lhe entregue uma manada de novecentos bois, que deveriam servir para as despesas de manutenção da família, durante os primeiros tempos.
Estava encerrada a participação de Anita e de seu companheiro Giuseppe Garibaldi na Revolução Farroupilha, que continuou por mais quatro anos, terminando apenas em fevereiro de 1845. Iniciada em 1835, durou dez longos anos. Para a paz chegar, cederam ambas as partes, celebrando o Tratado do Poncho Verde. Os farroupilhas depuseram as armas e o Governo Imperial concedeu anistia aos revoltosos farroupilhas, tendo seus oficiais e praças sido incorporados ao exército e mantidas suas patentes. Também as dívidas e os compromissos do Governo Farroupilha foram assumidas pelo Império. Em 1845 a paz foi selada e o Brasil manteve sua unidade territorial.
A viagem para o Uruguai durou exatos cinqüenta dias, transformando o casal
em tropeiros de bois. O que inicialmente pareceu-lhes uma fácil empreitada, foi, na verdade um desastre, pois a boiada, quase toda formada por gado alçado, deu-lhes muitos transtornos.
A chegada da pequena família em Montevidéu foi registrada pela polícia local na data de 17 de junho de 1841. Tinham feito 650 quilômetros em 50 dias de viagem.

O URUGUAI LUTAVA POR SUA REPÚBLICA
A independência já havia sido reconhecida pelo Império Brasileiro, mas o país estava dividido em duas correntes, que digladiavam-se: uma liderada pelo general Oribe, que tinha o apoio do ditador Argentino Rosas, que pretendia deter a hegemonia do estuário da Bacia do Prata.
Garibaldi havia enviado mensageiros, comunicando sua disposição de mudar-se para Montevidéu. Assim, alguns carbonários italianos ali refugiados, já o aguardavam com ansiedade. Os heróicos gestos de bravura e de valentia de sua companheira Anita já eram relativamente conhecidas,
principalmente pela comunidade italiana sediada no Uruguai, de quem tiveram notícia sobre sua forte e marcante personalidade. Ao chegarem, nos primeiros tempos foram hóspedes em casa de Napoleone Castellini.
Em meio a comunidade italiana, foram recepcionados como heróis da epopéia riograndense. Suas áureas e famas já brilhavam, sendo respeitados e admirados, principalmente em rela ção a Garibaldi. Em relação a Anita, as histórias corriam de boca em boca, enaltecendo seu destemor e coragem em combate, o que era fato inusitado, em virtude de tratar-se de uma mulher.

ANITA E GARIBALDI SÃO ACOLHIDOS E GARIBALDI PASSA A DAR AULAS, A FAMÍLIA AUMENTA
Acolhido pela fraternidade maçônica, empenhada que estava na total independência da República do Uruguai, após algum tempo da chegada, dedicou-se Garibaldi a atividade econômica, já que necessitou prover o sustento de sua família. Foi lecionar história, caligrafia e matemática em um
colégio particular, pertencente ao seu conterrâneo Paulo Semedei. Com o emprego de professor, e julgando necessário viverem sem a dependência dos amigos, o casal mudou-se para uma casa que foi alugada nas proximidades do Porto, hoje conhecida como rua 25 de Maio. Posteriormente, a residência foi transformada em museu, que até hoje existe. A residência, embora fosse uma antiga construção, oferecia razoável conforto, pois era de alvenaria e relativamente ampla. Esta foi a primeira e única casa em que Anita teve estabilidade. Ali teve mais três filhos, fixando-se por um período de aproximadamente sete anos, conforme veremos na sequência desta obra.

ANITA SURPREENDEU NOS ASSUNTOS POLÍTICOS

Em meio a estes acontecimentos e a sua nova vida de mãe e doméstica, relativamente tranqüila, Anita tornou-se anfitriã de longas e intermináveis reuniões entre os carbonários, mazzinistas, liberais e estrangeiros de outros países, que reuniam-se na casa de Garibaldi, durante a noite, para ouvir as histórias das insurreições e conspirações que chegavam da Itália e de outros países que combatiam pela sua autonomia, contra os regimes tirânicos e centralizadores. Eram constantes os relatos de refugiados italianos, que recém-chegados, Garibaldi os acolhia por alguns dias, e que em longas tertúlias noturnas, muitas vezes sem qualquer iluminação, narravam sobre os compatriotas italianos, que ao serem presos pelos que impediam a unificação italiana, tombavam gritando “viva a Itália!”
Convivendo com este seleto tipo de pessoas, Anita enriquecia -se de conhecimentos. Wolfang Rau cita em sua obra nomes de algumas pessoas que construíram a história, e que travaram longos diálogos na residência,
com a própria Anita, não apenas uma, mas diversas vezes. No que pese a razoável casa que residia e a constante presença do companheiro, àqueles meses haviam sido difíceis, já que necessitou adaptarse à nova cultura, costumes e língua. Passado os primeiros tempos, além do
português, Anita já dominava outras duas línguas: italiano, espanhol e um pouco de francês, conseguindo manter longas conversações com os amigos e convidados do companheiro.

O CASAMENTO DE ANITA COM GARIBALDI
Garibaldi foi um anticlerical, mas ambos tiveram formação religiosa, e tendo em vista que Garibaldi alçava posição de destaque, urgiu que o casal regularizasse sua situação matrimonial. Como fazê-lo, porém, se Anita já era casada no Brasil, cujo marido havia sumido, sem deixar qualquer notícia?
Anita o imaginava morto, tendo sucumbido, provavelmente, em um dos muitos combates entre os imperiais e farrroupilhas, quando estes sustentavam a ocupação de Laguna. Era a única justificativa que Anita dava ao silêncio sobre seu paradeiro, pois tendo passados diversos anos, ninguém sabia de seu destino. Já haviam mandado investigar em Laguna e as notícias que receberam era de que Manoel Duarte de Aguiar, seu primeiro marido continuava sem dar notícias. Em vão foi procurado registro de óbito, sem o qual Anita não poderia contrair novo matrimônio.
Como, então, justificar à sociedade conservadora da época uma união de um
casal tão influente, com filhos, sem que tivessem recebido as bênçãos nupciais? Além do mais, sendo católicos, necessitavam batizar seu primogênito Menotti, o que somente seria possível se estivessem casados. As vésperas de ter seu segundo filho, pressionados socialmente, não lhes restou outra alternativa que não foi informar ao clero de Montevidéu ser Anita livre e desimpedida, o que foi feito e aceito mediante o depoimento das testemunhas que firmaram o pacto antenupcial. No dia 26 de março de 1842, oficializaram sua união, e o ato matrimonial,que havia sido precedido por proclamas, foi registrado no Livro 01 de Matrimônios Realizados na Paróquia de São Bernardino em Montevidéu, a folhas 27 verso, sob número 19. Anos mais tarde, tendo sido demolida a Igreja de S. Bernardino, seus registros foram transferidos e até hoje encontram-se arquivados na Igreja de São Francisco, naquela mesma Capital. Neste histórico documento, ao qualificarem os nubentes, Anita, que oficialmente ainda usava o nome de Ana Maria de Jesus Ribeiro, foi qualificada como sendo natural de Laguna, no Brasil, conforme sua transcrição abaixo:
“No dia vinte e seis de março de mil oitocentos e quarenta e dois, Dom
Zenon Aspiazú, meu lugar tenente em esta Paróquia de São Bernardino em
Montevidéu, autorizou o matrimônio que, “in facie Ecclesiae” contraiu por
palavra de presença Dom José Garibaldi, natural da Itália, filho legítimo de
Dom José Domingo Garibaldi e de Dona Rosa Raimunda;com Dona Ana
Maria de Jesus, natural de Laguna no Brasil, filha legítima de Dom Benito
Ribeiro da Silva e de Dona Maria Antonia de Jesus;tendo o Sr. Provedor e
Vigário Geral dispensado duas conciliares proclamas e praticado o mais
quanto previne o Direito: não receberam as bênçãos nupciais por ser tempo
em que a Igreja não as impõe;foram testemunhas do ato Dom Pablo Semidei
e Dona Feliciana Garcia Billegas, o que por verdade firmo, eu o Cura
Reitor – (ass.) – Lorenzo A. Fernandez.” (67)

MÃE E ESPOSA… CIUMENTA!
Em 30 de novembro de 1843 nasceu a segunda filha de Anita, de nome Rosita, uma encantadora menina de cabelos loiros. Mais do que nunca, as atividades domésticas e o zelo de mãe exigiam sua constante presença, impedindo-a de acompanhar seu marido em suas atividades. Neste período, Anita testemunhou grandes manifestações de apreço e admiração devotados a Garibaldi, cada vez mais e mais famoso. Orgulhou-se do marido, mas, no fundo surgiram-lhe dois sentimentos: sentiu ficarem cada vez mais distante seus desejos de participação mais ativa nos combates e cavalgadas, nas aventuras em prol dos ideais de autodeterminação e de justiça social, sobre os quais tanto haviam-lhe falado;embora tivesse aceitado seu papel de mãe e
esposa com total dedicação, fidelidade e lealdade, pressentiu o interesse feminino que involuntariamente Garibaldi despertou em outras mulheres, pois já havia presenciado e ouvido senhoras manifestarem-se em admirações pela compleição física de Garibaldi, enaltecendo a beleza de seus longos e loiros cabelos. Em março de 1845, Anita revela a sua irmã, em carta que lhe enviou, seu inconformismo com a costumeira tolerância com que as mulheres aceitavam os deslizes de seus esposos. Exerceu na plenitude os direitos de igualdade entre homens e mulheres, sobre os quais tanto haviam falado

NO URUGUAI NASCERAM TRÊS FILHOS E ANITA PARTICIPA DE COMBATES
Além de Menotti, o único filho brasileiro, Anita teve mais outros três filhos, que nasceram-lhe enquanto residente em Montevidéu. Em 30 de novembro de 1843 nasceu Rosita. Em 22 de evereiro de 1845 nasceu a filha Terezita e em 4 de fevereiro de 1847 nasceu o filho caçula Ricciotti. Rosita veio a falecer ainda criança. Menotti e Ricciotti cresceram e tornaram-se oficiais do Exército italiano, tendo ambos lutado ao lado do pai Giuseppe, anos mais tarde, no segundo período das guerras pela unificação italiana. Casaram-se e tiveram diversos filhos, quase
todos militares. Alguns chegaram ao posto de general. Terezita casou-se na Itália e teve 16 filhos.
Em decorrência de suas responsabilidades biológicas e naturais de mãe, nestas lutas Anita não participou, a não ser na de Salto, como enfermeira. Tamanho foi o preço desta vitória que Garibaldi narrou mais tarde que quase todos saíram feridos, metade mais gravemente e a outra metade menos gravemente. Imediatamente após a batalha lá estava a humanitária Anita, que
Garibaldi a havia mandado buscar, como forma de tirá-la do profundo estado depressivo em que encontrava-se pela morte de sua inesquecível filha Rosita. Além de tentar buscar alento junto a seu marido, trouxe para o Salto a sua confortante experiência de enfermeira, consolando e curando àqueles que sofriam pelos ferimentos do inolvidável ato de heroísmo. Deixou os outros
dois filhos aos cuidados de pessoas de confiança. Mesmo sofrendo profundamente, Anita não deixou de prestar auxílio voluntário à causa republicana do Uruguai, servindo como enfermeira para socorrer os inúmeros feridos na Batalha de Salto. Wolfang L. Rau confirma este episódio em sua obra.

A FILHA ROSITA MORREU EM SEUS BRAÇOS
Estava Garibaldi há bastante tempo ausente de sua casa e de sua família, quando a filha Rosita, com apenas dois anos e meio de idade, adoeceu. Durante dias padeceu em virtude de uma incontrolável infeção de garganta, que lhe causou falta de respiração. No dia 23 de dezembro de 1845, à véspera do natal, Anita viu a filhinha falecer por asfixia em seus braços.
Foram longos e penosos dias para Anita, que sentindo-se só, entrou em processo depressivo.

GARIBALDI TEM PARTICIPAÇÃO VALIOSA EM COMBATES NO URUGUAY
A Legião italiana criada em Montevidéu, durante o período que lá mantevese, sofreu algumas derrotas, mas foram maiores em número e importância as vitórias. Durante quase todo o tempo, Montevidéu sofreu o bloqueio do seu porto pela frota Argentina. Inúmeras vezes Garibaldi usou de seus conhecimentos e artifícios para burlar a vigilância inimiga, permitindo que
navios oriundos de outros países ali aportassem, despejando suprimentos que asseguraram a continuidade da luta, já que a cavalaria e infantaria do inimigo também assediava Montevidéu por terra. Novamente atos de verdadeiro heroísmo foram registrados, que aconteceram em face da reconhecida superioridade da força militar da Argentina em detrimento da inferioridade
uruguaia. Quer em água ou em terra, dentre as principais vitórias da Legião italiana,
destacaram-se as empreendidas em Cerro, Martin Garcia, Rincon, Las Três Cruces, Vizcaino, Gualeguaichu, Paisandú, Colonia, Passo de la Boyada, Santo Antônio de Salto e outras mais.
A mais significativa, porém, foi a de Salto, onde os minoritários 190 homens de Garibaldi, derrotaram 1500 adversários, numa proporção de um para cada sete inimigos, após doze horas
de encarniçada luta, que iniciou-se ao meio-dia do dia 8 de fevereiro de 1846 e encerrou-se a meia noite do mesmo dia. Durante a campanha cisplatina, a coragem e a competência do guerreiro marido de Anita foi reconhecida, respeitada e cumprimentada pelos seus próprios inimigos.

O ULTIMO COMBATE DE GARIBALDI NO URUGUAY
O último combate de Garibaldi no Uruguai ocorreu em 1846, na Batalha de Dayman. Do segundo semestre daquele ano em diante, a Legião italiana dedicou-se exclusivamente à guarnecer a Capital, em cuja função alternavase com outros corpos militares. A partir de então, o final da guerra civil e a independência Uruguaia estavam mais dependentes de gestões diplomáticas,
que envolviam a Inglaterra, a França, o Brasil e a Argentina do que de resultados militares de batalhas. Em junho de 1847, apesar da oposição interna, Garibaldi foi nomeado comandante-em-chefe de todas as forças de defesa de Montevidéu, permanecendo neste cargo por apenas uma semana. Profundamente atingido pela inveja, sentiu sua honradez e dignidade ultrajadas por comentários de alguns comandantes uruguaios, companheiros de armas, o que o fez pedir
demissão do cargo, limitando-se ao posto do comando anterior.

BOAS NOTÍCIAS VINDAS DA ITÁLIA INFLUENCIAM A PARTIDA PARA A EUROPA
Anteriormente, em Roma, um liberal havia sido eleito como Papa, que adotou o nome de Pio IX, que gradualmente passou a introduzir modificações na política do Vaticano, até então alinhada à Espanha e a Áustria, que, para defenderam seus interesses, não permitiam a unificação
italiana. Esta linha de atuação do Vaticano havia determinado o exílio de Garibaldi e de milhares de patriotas italianos, proscritos pela ordem vigente na época. As primeiras atitudes do novo Pontífice haviam dado a impressão de que tinha mudada a atuação política do Vaticano, pois um dos primeiros atos papais foi decretar uma anistia aos presos políticos. Outra atitude também festejada pelos carbonários e mazzinistas da Jovem Itália foi a modificação do critério de escolha das lideranças que administravam Roma, até então sob o domínio administrativo do Clero. Por ato do Papa, a estrutura administrativa romana passaria a contar com uma parcela de cidadãos
italianos, escolhidos por eleição popular dentre os que destacavam-se em suas atividades.
Juntamente com Francisco Anzani, tomou, então, a iniciativa de colocar-se a disposição do Papa Pio IX, escrevendo uma carta, que foi enviada ao Monsenhor Bedini, Núncio Apostólico do Rio de Janeiro, que por sua vez a remeteu ao Papa.

GARIBALDI DECIDER VOLTAR PRA ITALIA …
compilação de pesquisa: Cesar Tomazzini.
fonte:
Anita Garibaldi A Guerreira das REPÚBLICAs– Adílcio Cadorin.

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