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ago 05

A Heroína de dois Mundos – ANITA GARIBALDI – morria em 4/08/1849 – parte II

ANA MARIA DE JESUS RIBEIRO..

A BORDO, ANITA FEZ EXERCÍCIOS DE TIROS E PREPAROU-SE PARA AS BATALHAS

Porque recém ocupada a Vila de Laguna, e porque a Marinha republicana passou a existir somente após a ocupação, Garibaldi havia recrutado homens inexperientes na arte dos combates navais. Eram, porém, homens movidos por ideais, dispostos a lutarem. Ansiavam
pelos combates. Valentes e corajosos marinheiros, que lutavam sem saber se receberiam ou não algum soldo. Tinham consciência de que enfrentariam um adversário bem mais treinado e equipado, com embarcações maiores. Por tais motivos, necessitavam ser treinados a
abordarem e a dispararem suas armas e canhões com os navios em movimento. Durante estes dois dias, Garibaldi os preparou, treinandoos, simulando ataques, lutas, defesas e abordagens.
Sempre ao lado de seu homem, para Anita, aquilo era um mundo novo, totalmente diferente de sua monótona e simplória vida de aldeã. Tudo era novidade. Nada escapou de sua aguçada curiosidade. A cada detalhe, a cada item que observava e que lhe era ensinado, seguiam-se
intermináveis seqüência de perguntas. Estava ávida de conhecimentos.

NA ENSEADA DE IMBITUBA, O BATISMO DE FOGO
Anita que em nenhum momento deixou de estar ao lado de Garibaldi, de tudo tinha participado, mesmo nos momentos em que pareceu eminente a derrota e a morte, manteve sempre alta a confiança na vitória final. Durante as refregas e contendas não houve
o que não fizesse: carregou e disparou mosquetões e canhões;incitou à luta e não deixou o desânimo permear a coragem dos mais fracos. Nas pausas, a ferocidade da guerreira cedeu espaço à humanidade da emergente enfermeira, consolando e cuidando dos dilacerados feridos. Garibaldi, antevendo um confronto desvantajoso e temendo pela segurança e integridade de Anita, encareceu para que desembarcasse, acompanhando os feridos à Laguna, ou então que se pusesse a salvo, em terra firme, de onde poderia participar e assistir o desenlace da contenda. Em vão os argumentos. Respondeu que ficaria ali mesmo e
que haveria de correr os mesmos riscos, como qualquer um dos homens e que para ela não fosse destinada atenção ou proteção especial. Queria ficar, para ser mais um a ajudar no combate. E não para ser protegida. De nada adiantaram os argumentos. Resoluta,
Anita permaneceu a bordo.
Ao clarear a manhã de 4 de agosto, os três maiores navios da armada imperial, o Bela Americana, o Patagônia e o Andorinha compareceram na embocadura da enseada e imediatamente, abriram fogo. Os dois primeiros atacam e disparam contra o Rio Pardo, o mais bem equipado dos republicanos, onde encontrava-se Anita e Garibaldi. O Andorinha concentrou seus tiros contra a artilharia que estava sobre a elevação de terra. Mas o alvo dos imperiais era o Rio Pardo, pois ali concentravase o grosso da resistência republicana e ali estava Anita, postada com fuzil, na primeira linha dos atiradores. Enquanto as naus imperiais mantiveram-se em movimento, fazendo manobras, o Rio Pardo ficou fundeado, sem poder mover-se. Alvo parado, logo começaram surtir os efeitos do poder de fogo inimigo, cujos canhões o atingiram inúmeras vezes.

UM TIRO DE CANHÃO ATINGIU ANITA
Com muitos mortos dentre os republicanos, com o Rio Pardo bastante avariado em seu velame e casco, no meio da tarde, após longas horas de contínuo combate, sem que a Marinha Imperial recuasse, alguns soldados começaram a pressentir que a resistência era inútil, e o ânimo começou a declinar. Era eminente a abordagem. Garibaldi os conclamou a não desistirem, e deu o exemplo, indo para o parapeito, ficando de frente para as balas inimigas, expondo-se pessoalmente, ainda mais. Anita o acompanhou e de fuzil em punho, gritou palavras de ordem, chamando os exaustos marujos, que começaram a fraquejar.
Vendo-a assim exposta, Garibaldi, foi tomado de orgulho pela demonstração de coragem de sua companheira, mas temendo pela sua integridade, ordenou-lhe pôr-se a salvo, proteger-se, sair do tombadilho. Anita ouviu, mas não lhe obedeceu e permaneceu no palco da luta. Entre um tiro e outro, ergueu seu mosquetão e conclamou seus companheiros à luta. Um tiro de canhão, porém, atingiu o local onde encontrava-se com outros dois marinheiros.
Anita entre dois marinheiros continua na proa, de fuzil ao peito. Como que alheada de tudo quanto se passa ao seu redor descarrega a arma em tiros rápidos. Nenhum lugar está mais exposto às balas do inimiga Em vão se empenhara Garibaldi por tirá-la dali. De repente,
um tiro de peça, batendo de encontro à amurada fá-la em estilhaços.
Anita e os marinheiros são arremessados à distância. Ouvem-se gritos de espanto. Garibaldi precipita-se para o lugar em que a companheira jaz estirada, sem sentidos. coberta de sangue. Acodem alguns homens aos marinheiros. Inútil todo o socorro. Estão mortos, horrivelmente
mutilados. Anita, porém, passados alguns instantes, volta a si. Diz que não está ferida. 0 sangue que lhe mancha o rosto, as mãos, os braços. É sangue dos marinheiros que morreram ao seu lado. E quando Garibaldi de novo lhe adverte que desça. ela responde:
– “Sim. vou descer ao porão, mas para enxotar os covardes que lá se
foram esconder”!

VITORIOSOS, ANITA E OS REPÚBLICANOS
RETORNARAM À LAGUNA
Para surpresa dos republicanos, os imperiais começaram a retirar-se, fazer-se ao largo, distanciando-se. A reação de Anita havia despertado tamanha disposição que nos últimos momentos os republicanos conseguiram provocar uma séria avaria no casco da nau Bela
Americana e um tiro havia ferido mortalmente seu oficial comandante, o que a obrigava retirar-se do combate e ir buscar mais reforço. Pretendiam trazer mais navios e tropas de desembarque. Os outros dois barcos, embora em condições de continuarem a pugna por estarem bem armados, não quiseram continuar e também retiraram-se da enseada, lançando âncora bem distante, em mar aberto. O combate naval de Imbituba, o batismo de fogo de Anita, onde revelou-se sua coragem, havia findado, com muitas mortes e sérias avarias para
ambos os lados. Porém, pela desproporcionalidade das forças, a vitória havia sido dos republicanos..
A trégua serviu para desembarcarem e ali mesmo, sepultarem os mortos, enquanto Anita socorreu e deu atendimento aos feridos, que após receberem os primeiros socorros, foram desembarcados e transportados à Laguna por terra.
Sentindo a oportunidade para evadir-se antes que chegassem mais reforços, Garibaldi agiu rapidamente. Necessitando ludibriar a vigilância do imperiais e sair da enseada, para alcançar o Porto de Laguna, ordenou que em terra fossem acessas três grandes fogueiras,
cujos clarões foram interpretados pelos imperiais como se os republicanos tivessem fugido por terra, abandonado os navios e neles deitando fogo.

ESPIÕES DO IMPÉRIO ACUSARAM GARIBALDI E ANITA
O governo do Desterro havia colocado espias na cidade de Laguna, que além de mante-lo informado, também tinham a missão de disseminarem a intriga e a discórdia. E no foco das intrigas também estava o nome de Anita, cujo união com Garibaldi passou a ser usado
como propaganda contrária à República pela sua “leviandade”. Como argumento espalhavam que Anita estando casada com um soldado do Império, enquanto este lutava para defender a ordem vigente, o “aventureiro farroupilha” a havia raptado, ofendendo a moral, os costumes e as famílias lagunenses.

REPÚBLICANOS PREVIRAM QUE DEVERIAM
ABANDONAR LAGUNA
Todos estes fatos fizeram os acontecimentos precipitarem-se mais ainda. A noite, quando Garibaldi voltou, encontrou Laguna agitada.
Os informantes republicanos davam notícia de que o ataque à cidade poderia acontecer dentro de pouquíssimos dias, pois as tropas de Teixeira Nunes já marchavam recuando para Laguna, permitindo o avanço da infantaria imperial. A frota naval de Mariath, ancorada em Imbituba, esperava a infantaria aproximar-se de Laguna para que, em conjunto, fosse desferido o ataque decisivo.

A BATALHA NAVAL DE 15 DE NOVEMBRO
Amanheceu o dia 15 de novembro e Garibaldi não parou na sua dupla tarefa de efetuar a passagem das tropas para o lado sul da barra e de retocar as últimas medidas necessárias à defesa naval. Diria mais tarde em suas memórias que “.. eu trabalhei desde a madrugada até ao meio dia.”. Ao meio dia, em seu navio, fez uma última reunião com os comandantes das outras embarcações. Combinou com Griggs, João Henriques, Valerigini, Rodrigues e Bilbao os pormenores das ações em caso de ataque. Tomou as últimas providências, confabulou com Canabarro e querendo certificar-se pessoalmente do movimento dos navios inimigos, sobiu ao mais alto dos morros localizados ao sul da Barra, acima de onde estava localizado o Forte Atalaia, para de lá verificar e acompanhar com luneta o movimento dos navios imperiais. Seus espiões haviam-lhe informado que Mariath tinha determinado que dois navios imperiais fizessem desembarcar mais ao sul da Barra, cerca de duzentos homens, junto a Barra do Camacho, que seguiriam a pé, por terra, em direção ao norte, que no momento do ataque deveriam surpreender as baterias e artilharia de Garibaldi pela sua retaguarda.

NA FUZILARIA, ANITA SALVOU AS MUNIÇÕES
REPÚBLICANAS. GARIBALDI ATEIOU FOGO NOS NAVIOS
A bordo do Rio Pardo, de onde comandou a operação, Garibaldi, pressentiu a derrota de sua resistência e enviou Anita à presença de Canabarro para mostrar-lhe a inadiável urgência de socorro. Ordenoulhe que após cumprida esta missão, permanecesse a salvo, com as
tropas de Canabarro. A missão era apenas uma forma de afastar Anita daquele inferno, pois o grosso dos navios imperiais já haviam transposto a Barra.
Ela desceu do Rio Pardo, tomou um bote, atingiu a margem e partiu. A poucos quilômetros alcançou Canabarro, transmitindo-lhe a mensagem. Em resposta disse-lhe que Garibaldi deveria abandonar a luta, salvando os homens e a munição que fosse possível, e que após
ateasse fogo nos navios republicanos, impedindo-os serem aprisionados e usados pelos imperiais. Voltou Anita para o centro da batalha, sob a continuada fuzilaria, tomou um pequeno bote e novamente subiu a bordo do Rio Pardo com o recado de Canabarro.

DERROTADOS, ANITA E OS REPÚBLICANOS ABANDONARAM LAGUNA
Narrando este triste fim, poucas semanas após, já estando em Lages, Anita escreveu à sua irmã Felicidade, no Rio de Janeiro:
“Lages, 10 de janeiro de 1840 Minha querida irmã,… o abandono do nosso porto assinalou o fim dos meus mais lindos sonhos. A data de 15 de novembro está marcada a fogo na minha mente. Ainda sinto algumas de suas imagens cruéis, cortantes como lâminas. No entanto,
de manhãzinha, tudo parecia normal. 0 sol já se levantou quente, o céu estava limpo, azul brilhante, lavado pela brisa marinha…. Eu estava a bordo, na nossa cabine… José já tinha descido até o fortim, na Barra….para se reunir com as nossas forças de terra e estudar as
últimas informações sobre os movimentos inimigos. De repente, apareceram as barcas imperiais, as velas infladas, com as pontes repletas de homens armados. Penetraram silenciosamente na enseada, passando diante do fortim e alinhando-se ameaçadoras, uma a uma, com o lado armado voltado para Laguna e os canhões apontados diretamente para nós, as bocas prontas para vomitar a sua carga mortal.
Garibaldi, por sua vez, embora derrotado, dentre o exército farroupilha
era o único, talvez, que abandonou Laguna levando um bem precioso,
um verdadeiro tesouro:
“Eu seguia a cavalo para o Rio Grande, com a mulher do meu coração
ao lado. Cavalgava na vanguarda de uns poucos companheiros,
sobreviventes de muitas batalhas. Mas que me importava não ter mais
roupa do que a que me cobria o corpo e servir uma pobre República
que a ninguém podia pagar um soldo? Eu tinha um sabre e uma
carabina que levava atravessada diante dos arreios. E tinha Anita, meu
maior tesouro.”

UM TIRO ARRANCOU-LHE MECHA DO CABELO. ANITA
FOI PRESA EM CURITIBANOS
… Anita, que tinha ficado na retaguarda, tinha compreendido rapidamente a perigosa situação e, como era responsável pela guarda e transporte da munição, mesmo sentindo estarem cercados seus companheiros, tratou de apressar-se, imaginando que estivessem necessitando da munição para sustentar o renhido combate. Quando fazia os movimentos para aproximar-se do cerco, foi surpreendida por um destacamento imperial que lhe abriu fogo, ao que foi prontamente respondido. Travou-se uma refrega. Anita e seus comandados não
estavam disposta a render-se e a entregarem a munição tão facilmente.
Montada a cavalo, respondeu aos tiros que lhe foram enviados, viu seus homens tombarem, mas continuou resistindo bravamente.
Um tiro arrancou-lhe o chapéu e raspou-lhe na cabeça, arrancando-lhe uma mecha de seus cabelos. Mesmo assim não se deixou esmorecer. Afrontou e atingiu os que aproximavam-se para abate-la e tomar a munição. Ao tentar livrar-se do cerco em que estava, um disparo
atingiu seu cavalo, que ao cair, também a derrubou. Levantando-se rapidamente, desembainhou sua espada e ofereceu resistência aos soldados que vendo-a sem arma de fogo, cercaram-na e a dominaram. Anita foi, então, aprisionada!

ANITA PROCUROU O CORPO DE GARIBALDI ENTRE OS
MORTOS, ANITA BURLOU A VIGILÂNCIA E FUGIU
Do lado republicano morreram neste dia mais de cem soldados, além de sete oficiais. Também perderam todos os seus seiscentos cavalos, parte de seu armamento e quase toda sua munição. Entretanto, apesar destas perdas lamentáveis, confiante de que Garibaldi não havia
sucumbido, Anita passou a premeditar uma forma de evadir-se. Enquanto os imperiais descuidados afogavam-se no delírio da inesperada vitória, aproveitou-se de oportunidade e evadiu-se sorrateiramente, ocultando-se em uma casa, próxima a densa floresta, ocupada pelos imperiais e daí, durante a madrugada, penetrou na mata e evadiu-se. Em carta escrita à sua irmã alguns dias após a sua prisão seguida de fuga, escreveu-lhe Anita:
“Querida irmã:… Além disso, tinha caída prisioneira dos imperiais,
que zombavam de mim e dos farrapos, dizendo que estávamos
desesperados e que estávamos até usando frágeis mulheres …
Logo depois, eu estava fugindo como o vento, através das matas, sem que ninguém tivesse notado…. e procurei me orientar naquele sentido de Lages, mas não sei o quanto me desviei do caminho. Encontrei todo tipo de obstáculos, até mesmo um rio em cheia, o rio Canoas,
como vim a saber mais tarde. Estava com fome e nem tinha certeza de que José tinha conseguido voltar para a cidade. Dois dias depois, cheguei numa casa que achei que estava reconhecendo. Felizmente, os camponeses sabiam a direção que os farrapos tinham seguido e me ofereceram café.

ANITA REFUGIOU-SE EM LAGES DEPOIS PARTIU AO REENCONTRO DE GARIBALDI

… exausta, chegou em Lages e procurou ocultar-se em uma casa na área central da Vila, próximo a igreja, que era habitada por duas senhoras.
Inicialmente, por estar com seus cabelos presos sob o chapéu e vestida com roupas masculinas, foi confundida com um soldado, motivo pelo qual negaram-lhe abrigo. Como duas senhoras probas e íntegras poderiam justificar aos seus vizinhos o pernoite de um homem desconhecido em sua residência? Porém, em gesto silencioso, Anita
abriu sua camisa e expôs seus seios, como forma de identificar sua feminilidade. Foi-lhe, então, concedida guarida. Ali alimentou-se e repousou e na manhã do dia seguinte colocou-se novamente em marcha, até atingir a Vila de Vacaria, para encontrar Garibali e seguirem para Viamão

GRÁVIDA, ANITA QUIS LUTAR NA BATALHA DO
TAQUARI, MAS FOI IMPEDIDA POR BENTO GONÇALVES
Naqueles dias Giuseppe Garibaldi foi de extrema valia, pois parte do comando militar, para unir-se e comandar suas tropas acampadas em Taquari, deveria atravessar o Rio Guaíba, infestado e policiado por numerosas canhoneiras imperiais, que singravam seu leito dioturnamente,
sem cessar. Em pequenas canoas, movidas apenas com a força dos remos, a travessia foi feita de madrugada. No dia seguinte, em Taquari, já desanimados pela longa ausência e desorientação em que encontravam-se, os rebelados farroupilhas exultaram com a presença de seus comandantes.
Iniciaram, então a movimentação das tropas, planejada para realizar a operação que deveria unir os exércitos republicanos e decidir a consolidação da República Riograndense.

NASCEU O FILHO MENOTTI
Em S. Luiz de Mostardas, no dia 16 de setembro de 1840, na casa da família
Costa, nasceu o primeiro filho de Anita, o único que seria brasileiro.
Giuseppe resolveu dar-lhe nome homenageando as memórias de seu pai
Domingo Garibaldi e de Ciro Menotti, este último herói da unificação
italiana, executado pelos austríacos em 1831. Segundo narrado por Elma
Santana (59), a criança teria nascido com um pequeno afundamento no
crânio, devido a um coice de cavalo recebido por Anita durante a gravidez.
A verdade, porém, foi um tombo que Anita sofreu nos últimos dias de sua
gravidez, tendo caído do cavalo que havia -se assustado, segundo relatam
outros autores, entre eles Brasil Gerson (60)
No dia seguinte ao nascimento do filho, à Maria Costa, sua nova amiga e
anfitriã, Anita ditou-lhe algumas cartas, a serem enviadas aos seus parentes.
Em uma destas cartas, endereçada ao tio Antônio, de Lages, anunciou o
nascimento de seu filho:
“Mostarda, 17 de setembro de 1840 Caro tio Antônio.
…estão me dizendo que logo vai partir um mensageiro para Porto Alegre e
Lajes. Por isso, decidi escrever-lhe através de Maria Costa, a senhora que
nos está hospedando, para dizer que ontem nasceu o meu primeiro filho….
Não consigo parar de olhar para ele…. É pequenino, rosado, claro, e tem
cabelos loiros como José.Não tem marcas das minhas tribulações, fora,
talvez, um furinho na cabeça, perto da testa, que José insiste em dizer que
foi causado por aquele tombo estúpido que levei quando me prenderam em
Curitibanos…. Ele diz isso para mexer comigo e “me fazer parar no meu
lugar”, como ele diz…. Quero que ele cresça corajoso, leal, sincero e
generoso. Assim como o José, que também é uma pessoa muito doce..

SEMI-VESTIDA, COM O RECÉM-NASCIDO NO COLO,
ANITA FUGIU A CAVALO PARA NÃO SER PRESA
Havia uma quase obsessão de Moringue contra Garibaldi e seus homens. Informado de que
Anita tinha dado luz a uma criança, e de que Garibaldi havia -se ausentado do
local, onde comandava uma pequena horda de marinheiros, valeu-se Moringue da situação de ausência do líder. Navegando de Rio Grande pela Lagoa, silenciosamente, fez desembarcar um pelotão de seus homens, nas proximidades de S. Simão e Mostardas. No mesmo dia, após destruir completamente os lanceiros negros do Capitão
Máximo, dirigiu-se a casa onde estava Anita. Prendendo-a, pensou que subjugaria Garibaldi. No entanto, graças a resistência dos republicanos ali postados, Anita ainda com febre puerperal, vestida apenas com uma camisola teve apenas o tempo suficie nte para enrolar o pequeno Menotti,
então com doze dias de idade, em um cobertor, pular em pelo em um dos cavalos que estava na estrebaria edificada junto a cozinha e evadir-se em meio ao cerco de sua casa, que naquele instante estava sendo feito, sem que Moringue pudesse prendê-la. Se não tivesse parido e não lhe falasse mais alto o sentimento materno, certamente teria sido presa ou assassinada. Pela
sua já conhecida personalidade e disposição para lutar, teria ficado e comandado a resistência, como lhe era característico. Sua preocupação maior, porém, era salvar seu filho, agora seu maior bem e preocupação. Embrenhou-se no matagal e em sinuoso pântano. Ali permaneceu
acantonada por quatro dias, alimentando seu filho com leite materno e a si própria com raízes e frutos silvestres. Na mesma carta endereçada à sua irmã em dezembro de 1840, Anita conta o
ocorrido : Três dias antes, José tinha ido para Vila Setembrina, para trazer provisões
e também roupas quentes para o menino. Esperto como é, Moringue deve ter
ficado sabendo da ausência de José e logo pensou em aproveitar para nos
capturar. À noite seus homens se aproximaram da fazenda, mas foram
identificados pelos guardas e pelos cães, que tentaram detê-los. Ouvindo o
barulho e os gritos, percebi que estávamos em perigo. Peguei o Menotti e
um xale grande, e saí correndo, ainda de camisola, pelos fundos da casa e
entrei na estrebaria. Ali, numa morna escuridão, ficavam os cavalos da
casa. Saltei para o primeiro que vi e fugi a galope, no escuro, sob a chuva
forte, na direção da floresta, com Menotti apertado ao meu peito. Não
conseguiram nos raptar porque antes que percebessem eu já estava longe.
Escondi-me na mata, num lugar de vegetação cerrada. Fiquei apavorada
com a idéia de me pegarem o menino. Fiquei por aqueles lugares durante
três dias e três noites, esperando a volta de José. Menotti não parecia muito
preocupado;dormia, mamava tranqüilamente, enroladinho no xale…. você
pode imaginar o meu alívio quando, no terceiro dia, ouvi a voz de José
gritando meu nome, andando desesperado pela mata.

BENTO GONÇALVES RESOLVE REUNIR AS TROPAS NA REGIÃO CENTRAL DA PROVÍNCIA, SE RETIRA DE SETEMBRINA, MAS SOFRE ATAQUE DE MORINGUE ONDE TEVE GRANDES PERDAS ENTRE ELAS O ITALIANO MUITO AMIGO DE GARIBALDI O CONFIDENTE E AMIGO LUIGHI ROSSETTI PREFERIU
MORRER LUTANDO A ENTREGAR SUA ESPADA

Ao seguirem em retirada enfrentaram longos dias de frio e muita chuva, a tropa foi definhando aos poucos pelas intempéries e o cansaço pelo esforço da travessia do terreno com vales e mata cerrada. Em outro trecho da carta à sua irmã Anita narra: … Eu usava folhas e alguns trapos que restavam para conservá-lo o mais
enxuto possível. Nas raras paradas eu lhe dava de mamar. Muitas vezes vi,
com dor no coração, alguma outra mulher tirar seu bebê do meio das
roupas e encontrá-lo morto. Imaginem minha apreensão… Pela primeira vez
senti minhas forças diminuírem e me cansava até por carregar o peso do
menino, que afinal só tinha algumas semanas de vida.
Fiquei grata a José, que, voltando-se para ver se eu o estava seguindo,
percebeu a minha angústia e quis carregar Menotti, agasalhando-o embaixo
do poncho e conservando-o quente com seu bafo por algum tempo….
Ocorreram muitas mortes por fome e frio. Mas Anita e Garibaldi com o restante da tropa chegaram a São Gabriel.

GARIBALDI DECIDE DEIXAR O BRASIL …

compilação de pesquisa: Cesar Tomazzini.
fonte:
Anita Garibaldi A Guerreira das REPÚBLICAs– Adílcio Cadorin.

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