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ago 04

A Heroína de dois Mundos – ANITA GARIBALDI – morria em 4/08/1849 – parte I

ANA MARIA DE JESUS RIBEIRO

“Ana Maria de Jesus Ribeiro, nasceu em Laguna – SC, no dia 30 de gosto de 1821, depois ficou conhecida como Aninha e mais tarde, como Anita Garibaldi -” A Heroína dos Dois Mundos”. Enquanto a maioria dos historiadores afirma ter nascida em Laguna, outros a pretendiam como nascida em Imbituba, e outros ainda em Lages, onde nasceram dois de seus nove irmãos. Como após retiraram-se de Santa Catarina, viveu com Garibaldi cerca 14 meses nas cidades de Viamão, S. Gabriel, Mostardas e outras do Rio Grande do Sul, onde nasceu-lhe o primeiro filho, existem publicações afirmando que Aninha era nascida em solo gaúcho.

PAI FALECEU QUANDO ERA MENINA-MOÇA
Como não existe ato lavrado que comprove oficialmente, deduz-se que Bento Ribeiro a Silva, o pai de Ana Maria de Jesus Ribeiro, faleceu entre os anos de 1833 a 1835, pois estas duas datas compreendem o nascimento de Salvador, seu último filho, e o Casamento de Ana Maria de Jesus Ribeiro, em cuja lavratura constou ser órfã de pai.

A PAIXÃO PELA “REPÚBLICA” e
AS PREGAÇÕES DO TIO ANTONIO, O ATIVISTA REPÚBLICANO
Influenciada pelas novidades e histórias que durante as breves estadias lhe eram contadas pelo tio, Anita já se interessava pela idéia de república desde a adolescência. Este Tio Antônio era um ativista político, precursor das ideais de igualdades sociais e da instituição do regime republicano. Por suas idéias contrárias à monarquia, foi cruelmente perseguido, tendo sido incendiada sua casa em Lages pelos soldados imperiais.

ANINHA FOI COAGIDA A CASAR-SE
Anita já aos 13 anos tinha comportamento considerado inadequado pelos moradores de seu bairro, por ser extrovertida, andar de pés descalços, montar a cavalo e andar sozinha. Mas assim mesmo era encarregada de cuidar dos irmãos mais novos. Aconselhada por terceiros e pelo padre local, Maria Bento, mãe de Anita, que passava o dia trabalhando de doméstica do outro lado da cidade, imaginou que poderia acabar com as maledicências sobre a filha, contratando lhe casamento. Bonita, cheia de vida, com corpo exuberante, logo apareceu-lhe um noivo, intermediado que foi pelo Pároco. Tratava-se de Manoel Duarte de Aguiar, um sapateiro, pelo que sabe-se, nascido no Desterro. Conta-se que teria ficado impressionado pela vivacidade temperamental de Anita, completamente ao contrário de sua própria personalidade e comportamento, que era calado, arredio e vivia isolado, sendo sua principal preocupação, além de seu estabelecimento, as pescarias e os cães que o acompanhavam permanentemente.

O casamento foi realizado no dia 30 de agosto de 1835, exatamente nodia que Aninha comemorava 14 anos de idade, alguns dias antes de 20 de setembro do mesmo ano, quando eclodiu, no Rio Grande do Sul, a Revolução Farroupilha.

O DESASTROSO CASAMENTO COM MANUEL DUARTE DE
AGUIAR
Os atos preparativos que antecederam a cerimônia de casamento e as comemorações, foram feitas na casa localizada ao lado esquerdo da Igreja Matriz de Laguna, prédio ainda hoje existente, transformado em museu, com o nome de Casa de Anita. Segundo SAUL ULYSSEIA,
em sua obra COISAS VELHAS (1946), aponta àquele prédio como tendo sido o primeiro de alvenaria, que foi construído no então Campo do Manejo, depois Praça da Igreja.

Os fatores determinantes para o fim deste casamento foram óbvios: a) o casamento foi realizado por imposição social e familiar;b) era notório o interesse econômico da família de Aninha neste casamento;c) se inicialmente Aninha não havia consentido, era porque não devotava nenhum amor ao noivo e se depois veio a concordar, é porque foi pressionada pela penúria e estado de quase miserabilidade de sua família;d) nela haviam sido implantados os embriões das mudanças sociais e políticas, enquanto em Manoel Duarte de Aguiar estava
alicerçado o convencimento que deveria manter a ordem monárquica vigente;d) ela era indômita, amava a natureza, a vida livre, gostava de conhecer lugares, tinha curiosidades, e ele, ao contrário, era passivo e fechado, vivendo introvertidamente, dedicando-se apenas a sua
sapataria e as suas isoladas pescarias.
Assim fluíram os primeiros meses deste infeliz matrimônio, cujas diferenças, a medida em que o tempo passava, ao invés de uni-los, ao invés de oferecer-lhes prazer e filhos, tornava-se infecundo, sem alegrias.
De nada adiantou a interferência clerical e de sua mãe, pois Manoel, provavelmente recusado ao leito, tornou-se mais introspectivo ainda, dando-se ao vício da bebida.
Mais tarde o marido alista-se nas forças imperiais abandonando Anita.

ANTES DE GARIBALDI CHEGAR, LAGUNA FOI
ASSEDIADA PELOS REPÚBLICANOS LAGEANOS
Enquanto estes fatos todos tiraram do estado de letargia as autoridades imperiais catarinenses, que passaram a preparar-se através de seu comandante militar João Carlos Pardal, um diminuto grupo de soldados farroupilhas, chefiados pelo coronel Filipe José de Souza
Leão, conhecido pelo apelido de Capote, muito tempo antes de Garibaldi chegar à Laguna, desceu dos Campos da Vacaria para a Vila de Araranguá. Ali uniu-se a mais alguns republicanos e marcharam celeremente sobre a guarda da Barra Velha, dos Conventos, a quem derrotaram em rápida refrega.

GIUSEPPE GARIBALDI
Giuseppe Maria Garibaldi era italiano, filho de Domenico Garibaldi e de Rosa Raimondi. Nasceu em 04 de julho de 1807, na cidade de Nizza, que mais tarde passou ao domínio da França, com o nome de Nice. Filho de armador e capitão de navios.
Encontrava-se no Brasil porque em sua pátria tinha sido condenado a morte por suas lutas em prol da Jovem Itália, sociedade fundada por patriotas que pretendiam unificar as diversas regiões da península itálica, criando o Estado italiano sob a forma de governo republicano
Chegou ao Brasil em 21 de novembro de 1835 acompanhado de um punhado de “patriotas
italianos”, que também haviam sido proscritos pelos mesmo motivos.
Ao chegarem encontrou no Rio de Janeiro mais alguns companheiros e passou a dedicar-se aos serviços marítimos, transportando mercadorias de um porto para outro, internamente.
Brevemente, seu espírito revolucionário, auxiliado pela maçonaria, o colocou em contato com o General Bento Gonçalves, líder dos farroupilhas, que havia sido preso e estava encarcerado. Deste encontro saiu com uma carta de Bento Gonçalves que determinava ao presidente da República Riograndense dar a Garibaldi uma carta de corso, já que a Marinha republicana riograndense não existia, e era necessário admoestar o Império também por mar, libertando o Porto de Rio Grande, indispensável a consolidação da República. De posse da carta de corsário, fez-se ao mar e aprisionou um navio e sua carga.

A TRAVESSIA DO SEIVAL POR TERRAL, PUXADO POR 100
JUNTAS DE BOIS
A república riograndense proclamada a 11 de setembro de 1836 precisava urgentemente de um porto. A cidade de Rio Grande, único porto da província de São Pedro, estava sob domínio do império. Então Garibaldi propõe a tomada de Laguna como solução e a cosntrução de embracações que seguiriam pela lagoa dos Patos rumo aos campos de Viamão e a travessia por terra puxados por juntas de bois. Havia construído os lanchões Farroupilha e Seival, mas estava impedido de fazer-se ao mar pela Barra do Rio Grande, fortemente
guarnecida pela Marinha Imperial. Para atingir e invadir Laguna emSanta Catarina.

O Seival e o Farroupilha atravessaram matas, campos e
banhados, transportados por dois carretões, puxados por cem
juntas de bois.
GARIBALDI NAUFRAGOU PRÓXIMO A FOZ DO RIO
MAMPITUBA
Forte chuvas caíram e um temporal surpreendeu o Farroupilha na traiçoeira costa, nas proximidades da foz do rio Mampituba, região que tem seu fundo raso e com pedras, o que a faz ser respeitada e conhecida como “cemitério de navios”. Era o dia 15 de julho, quando
a frágil embarcação, com trinta homens a bordo, atingida pela violência dos ventos de das ondas, não resistiu, fazendo-a afundar.
Garibaldi, após tentar ajudar seus companheiros, salvou-se nadando até a praia. No desastre marítimo morrem diversos soldados farroupilhas, entre eles os italianos que o acompanhavam, amigos íntimos, de sua absoluta confiança: Eduardo Mutru, Luigi Carniglia, Luigi Staderini, Navona, Giovanni e outros.
Com os homens que salvaram-se empreendeu e uma caminhada pela praia, rumo norte. Após transporem nadando a foz do Mampituba, chegaram a Barra da Lagoa do Camacho, onde surpresos, encontram o Seival ancorado, que havia escapado milagrosamente do furacão que
abateu o Farroupilha.

APENAS COM O SEIVAL, GARIBALDI SURPREENDEU E
TOMOU LAGUNA
Aproveitando o conhecimento de um prático do local, conhecido como João Henrique Teixeira, acostumado a navegar pelo sinuoso sistema de canais e lagoas interligadas pelo delta que o Rio Tubarão formava, soube Garibaldi, que poderia por ali chegar ao Rio Tubarão,
o que lhe permitiria burlar a vigilância e atacar a flotilha imperial pela retaguarda, que o esperava na embocadura do Rio Tubarão. Faltava apenas a Vila da Laguna ser tomada, o que foi feito ao final da tarde de 22 de julho, com os quarenta homens, que foram transportados por Garibaldi e comandados por ele e por Jerônimo Castilhos.

LAGUNA FESTEJOU A CHEGADA DOS REPÚBLICANOS
RIOGRANDENSES
Os imperiais fugiram em direção norte, parando em Garoupaba. Perseguidos, ofereceram resistência, mas depois dali bateram em retirada, sendo perseguidos até o Morro dos Cavalos, onde o comandante farroupilha Teixeira Nunes, às margens do rio Massiambú, ficou acampado com seu exército.

O INFELIZ MATRIMÔNIO PREPAROU ANINHA PARA UMA
GRANDE PAIXÃO
Desde que aconteceu seu casamento, Aninha nunca escondeu sua infelicidade com o mesmo, e muitas vezes queixou-se e denunciou, aos mais íntimos, a sua revolta contra infeliz união, protagonizada por sua mãe e pelo padre local. Uma destas manifestações de inconformidade está inserida na carta que remeteu ao seu Tio Antônio, em Lages, passados apenas três meses de seu casamento.

ANITA VIU GARIBALDI PELA PRIMEIRA VEZ
Na chegada, houve a triunfal entrada, com desfile das tropas sendo vivamente ovacionadas pela população local. Ao padre ficou a incumbência de celebrar uma missa, em ação de graças pela vitória republicana, cujos atos religiosos, com toda a pompa possível, foram celebrados no dia 24 de julho. Embora sua disposição de não mais comparecer na igreja, nesta missa
Aninha não poderia deixar de comparecer. A natural curiosidade e o sentimento de gratidão aos farroupilhas dobraram seu orgulho e teve, então, a oportunidade de ver de perto os líderes farrapos, os corajosos e valentes soldados, que, para defender os mesmos ideais do Tio
Antônio, tinham tido coragem suficiente para enfrentar o potente Império, com toda sua estrutura militar. e lá avistou, em meio aos líderes farrapos, que estavam postados junto ao altar, a figura de um homem vestido com roupas diferentes das costumeiras na cidade. Era de
estatura mediana, com um cabelo longo e loiro, com olhos claros, por quem, subitamente, foi presa de um sentimento que jamais havia tido a oportunidade de sentir. Garibaldi tinha, então 32 anos de idade.
Vestia botas compridas com calças pretas, parcialmente cobertas por um poncho cinza claro. Ante de entrar na Igreja usava um barrete chato, de marinheiro da Sardenha. Dias após esta missa, em carta que endereçou a sua irmã, datada de 8 de agosto, Aninha demonstrou
claramente o despertar dos sentimentos que lhe brotaram durante o ato religioso.

GARIBALDI ENCONTROU-SE COM ANINHA.
TRANSFORMOU-SE EM ANITA
Um dia porém, quando encontrava-se no tombadilho do Rio Pardo, ao cair da tarde, Garibaldi observou por sua luneta, que na rua principal da pequena vila formada pelas humildes casas de pescadores, localizada na encosta do Morro da Barra, próximo de onde estava sendo reconstruído o forte, diversos vultos femininos, envolvidos em seus afazeres domésticos. Uma delas, porém chamou-lhe a atenção: era um vulto feminino, esbelto, gracioso, que descia pela ruela com passos rápidos, em direção às casas da praia, carregando um jarro com água, o que chamou-lhe a atenção.
Um dia, resoluto e sabendo o que queria, encorajou-se e determinou a seus marinheiros que, com um bote, o levassem a terra.
Chegando ao local, não a viu mais, mas estava disposto a descobrir aquele “anjo” que o perturbava durante dias. Encontrou, então, no núcleo de casas, um conhecido a quem tinha sido apresentado logo após sua chegada à Laguna.
Como mandava o costume, o lagunense convidou-o a tomar um café em sua casa. De bom grado Garibaldi aceitou, na esperança de assim obter informações sobre a graciosa moça que o encantou. Imaginou que durante a conversa ao redor do café, quando tivesse oportunidade,
faria as perguntas adequadas para descobrir tão cobiçado tesouro. O destino reservou-lhe agradável e inesquecível surpresa. Quando entrou na soleira da porta, ali estava a jovem Aninha, com suas delicadas feições. O dono da casa apresentou sua família, mas Aninha adiantou-se para dizer que já o conhecia, pois o havia visto quando as tropas entraram na Vila de Laguna e por ocasião da celebração da missa em ação de graças. Garibaldi respondeu indagando quem era a moça, ao que foi informado tratar-se de Ana Maria de Jesus Ribeiro,
mas que era conhecida pelo seu nome no diminutivo – Aninha.
Extremamente feliz, sem esconder seu contentamento explicou, então, que o diminutivo de Ana, em italiano, era Anita.! Nasceu assim, a mudança do nome de Aninha, que doravante, como veremos, será conhecida nos dois continentes como Anita, a Heroína de Dois Mundos.
despedir-se de Anita, tomou suas mãos, fitou-lhe nos olhos e disse-lhe: -“tu devi essere mia!”
Quando escreveu suas memórias, ao descrever este histórico e marcante episódio, Garibaldi afirmou que naquele instante, não disse apenas o que estava sentindo, mas estava dando a sí próprio uma sentença, sem apelação

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Compilação de pesquisa: Cesar Tomazzini.
fonte:Anita Garibaldi A Guerreira das REPÚBLICAs– Adílcio Cadorin

 

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