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set 24

UM FUNERAL GAUCHESCO

-Dilmar Paixão-
“A tropa se perde espargindo searas de angústia e revolta…”

Nem angústias, nem revolta,
a tropa não está perdida,
é claro, a morte é sentida,
mas, nessa consciência larga,
não pensei na Tropa Amarga,
do Luis Menezes e Darci.

E, “se a morte não marca hora”:
– como explicar Teixeirinha ?
… se esse operário da vinha
recolheu-se lá de fora,
firmou o rumo e a espora para tropear no infinito?
Não fora um gesto bonito, p´ro Seu Paixão ir embora, no mês que celebra a Bíblia?

“Veio a cantiga da noite na garupa do aguaceiro cabresteada pelo vento.
Até um relâmpado alçado andou pateando o espaço
preludiando um temporal…”

Que noite?
Que aguaceiro?
Que relâmpago alçado?
Que temporal?
Pois, nem mesmo, o vento norte
veio saudar a sua morte na tarde em banho de sol?

Finado?
“… só a luz das velas clareava os rostos sombrios da peonada no velório
onde o respeito era pouco…”

Seu Paixão não seguiu rouco
e, muito menos, foi louco ou esboçou gesto simplório.

“A peonada no velório,
onde o respeito era pouco?”
No velório dele: não!
Pois ninguém seria louco… ou houve tristeza tampouco.

Autoridades e o povo,
Companheiros, velho e novo,
boas lembranças, afinal.
Saudações da sociedade,
tudo justo e ao teu jeito fraterno, afetuoso e cordial.
E teve o Luto Oficial decretado pelo Prefeito.

“Foi quando o preto Clarindo compreendendo o desrespeito
pelo coitado do morto, tirou uma longa tragada,
pigarreou como pensando para afinal sentenciar:
O homem que nasce pobre é como um cavalo xucro…
É pealado pela vida, sofre a doma das tristezas,
até que um dia se amansa perde a vontade e a fé…
Depois já sem serventia morre na beira do alambrado esquecido…sem ninguém”!

Sim, o Darcy Paixão, agora, é finado.
Mas, ele, não foi coitado,
nem perdeu razão e Fé.

Com ele, cavalo xucro sofrendo a doma das tristezas?
Não era a sua natureza…
Se a morte não tem beleza, o Seu Paixão teve lucro:
– nunca foi sem serventia,
– nem morreu abandonado na beirada do alambrado,
esquecido, sem ninguém.

E “nem se precisou de canha para esquentar o pensamento”.

“Cemitério de campanha, pouso certo dos humanos, fim do calvário terreno,
onde o grande e o pequeno se irmanam no mesmo pó.
E onde os suspiros de dó, de nada, significam, 
porque em ti, os viventes ficam diluídos no mesmo pó.

Gauchescos funerais…
Que importa a coroa fina e a vela de esparmacete?
Se entre os varais do teu brete nada mais tem importância?
Um patrão, um peão de estância, um doutor, uma donzela,
tudo, tudo, se nivela pela insignificância”.

Cemitério Faxinal.
Um cemitério de campanha
onde só o vento se assanha, pois o respeito é colossal.
Entre as lavouras de trigo foi plantado o teu jazigo
para condizer com o ritual e o silêncio do local.
O gado berrando perto, indo ao cocho de sal, 
quem sabe, saudando, certo, pelos ares do campo aberto, o teu gauchesco funeral?

Antes, teu gaiteiro abriu a gaita e, do Oh! de Casa, lembrou.
Até teu neto falou na Câmara de Vereadores.
Aplausos. 
Coroas de flores.
Entre peonada e doutores, teu trovador, no improviso, 
cantou o que era preciso com tal gana missioneira.
E não faltaram bandeiras
ou o rádio dando avisos.

Voltaste, agora, meu pai
p´ra junto da tua amada.
Tua mortalha pilchada
deixou memória e alegria.
Por isso, juntei as poesias
dos poetas cantando a morte
para acalmar o vento norte,
pois já amansaste a tropilha
e, na Semana Farroupilha,
deixaste a última lição:
“de humildade e comunhão”.
Vamos seguir a tua missão
teu filho, o neto, a filha,
e mais alguém da família
com as gentes da tradição.
Que, no Céu, tua alma esteja!
Que siga na Fé, a Igreja!
Descanse em paz,
Seu Paixão.

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*Por ocasião da Missa de Sétimo Dia, em 24 set 2017,
Santuário Basílica da Medianeira. Missa Crioula.
** Trechos dos poemas de Luiz Menezes, Teixeirinha e Jaime Caetano Braun.

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