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Chasque Pampeano:A vocação emocional que acampa na Semana Farroupilha...

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18/09/2015

A vocação emocional que acampa na Semana Farroupilha
 

 

- Dilmar Paixão –

(professor, escritor e poeta)

 

                Há pessoas que reservam os trinta dias do mês. Há os que se dedicam intensamente – e bem mais do que isso. Gente que ergue os cenários e aqueles que trabalham na cozinha, que se movimentam e que servem de peões caseiros. Há quem prepare estudos e pesquisas elaboradas especialmente para as oficinas culturais ou aqueles e aquelas das lidas artísticas, das poesias, das cantigas, das danças e das recordações. É, por isso, inegável que existe uma vocação emocional em tudo isso. Da minha última acampada na Semana Farroupilha, eu me lembro de que vivia um período de grandes atribulações e as vicissitudes das viagens, das palestras, das atividades profissionais, conferências e entrevistas não foram suficientes para provocarem-me cansaço ou desânimo. Pelo contrário, cumpri horários com pontualidade e fui assíduo e dedicado a responder favoravelmente a todos os convites recebidos.

Atender à convocação do www.chasquepampeano.com.br tem esse sentido de emotividade. Evidente que o computador favorece. Porém, para quem fazia esse exercício antes da máquina de escrever eletrônica, quando ao menor erro reiniciava a datilografia da página de texto, destinar alguns minutos para assinalar na tarca do tempo impressões do cotidiano e lembranças acumuladas pela memória é tarefa prazerosa e de acolhida. O Paulo Roberto Guimarães, Diretor do Jornal Digital e Sítio Chasque Pampeano, é um desses abnegados tradicionalistas e ativista cultural que, por sua doação de esforços, tem recebido a nossa resposta favorável mais imediata a cada chamado. Ao iniciar esta nova fase do Chasque Pampeano, o Guimarães merece ser saudado e incentivado por esse novo galpão mantido em pé. Fisicamente, existe o galpão da turma de Passo Fundo que, por dificuldade de agenda, ainda não fui conhecer pessoalmente. Um Centro de Tradições na capital, outro no interior e participações dele e da esposa em muitos eventos, além da liderança que ele exerce no Conselho Municipal de Cultura de Porto Alegre. Vejam que são maneiras dinâmicas de pleitear garantias e espaços significativos para as artes, a cultura, os usos e costumes da nossa gente rio-grandense.

A Semana Farroupilha serve muito bem para essas manifestações emotivas e de recordações. Valendo, claro, a lembrança do verso do Telmo de Lima Freitas na voz do Edson Otto: “quantos recordam tropeadas sem nunca tropear”! Os interioranos que acampam ou visitam o acampamento farroupilha na capital, por exemplo, convivem com momentos distantes da rudeza das lidas campeiras tradicionais. A tecnologia digital, por sua vez, torna o mundo acessível através de conexões infinitas vezes mais rápidas e surpreendentes. Nem o cavalo tem o mesmo preparo e destinação que antigamente lhe era reservada.

Alguns dos cursos de danças que participei com o Paixão Cortes me ensinaram que o andamento de determinadas danças tradicionais têm a sua cadência mais acelerada para demonstrações artísticas em espetáculos para turistas. Aliás, a esses grupos muito se tem destinado das apresentações festivas da Semana Farroupilha até mesmo nos galpões dos CTGs e entidades afins. Quando leio que o Guimarães publica a responsabilidade do site com as diretrizes da Carta de Princípios elaborada pelo Glaucus Saraiva, reencontro-me muito jovem quando do meu primeiro curso sobre a cultura gaúcha ainda em Cruz Alta.

As relações emocionais são, portanto, superiores ao contexto cotidiano quando mergulhamos no simbolismo dessa cultura que sustenta a Semana Farroupilha. As adversidades – e sobrevivemos em uma das mais severas crises da política governamental contemporânea – não têm sido suficientes para diminuir o sentimentalismo de quem comemora o passado com os pés firmes no presente dos nossos dias. Atrapalha, sim. Com certeza. Preocupações que entram em cena, nem sempre estão providas dos melhores cuidados intencionais. Retiram-se cavalos, cancelam-se desfiles, outorgam determinações, como quem adia tarefas e atribuições menos importantes. Mas o coração segue livre sendo o potro sem dono cantado pelo Noel Guarani. Leio que o mormo como doença foi detectada pela primeira vez no Brasil em 1811. Será que esse bacilo gram-negativo não é parente daquele que motivou o incêndio do galpão crioulo do CTG da fronteira, por coincidência, na terra natal do Paixão Cortes? Embora tivesse sido cantado para amenizar as dores da saúde combalida do Homem Rural, vale citar o Cenair Maicá e a contemporaneidade da interrogação mais forte do seu verso: “De que vale tanta ciência”?

No nosso CD de Poesias Gaúchas “Paixão em Família”, respondendo em versos ao desafio do saudoso Padre Paulo Aripe (o que idealizou a Missa Crioula) para que eu fizesse a Homilia de uma das Missas de abertura da Semana Farroupilha, teci considerações através da indagação: “Que sentimentalismo encilha as nossas emoções e vem passear nos galpões na Semana Farroupilha”?  Ora, é preciso muito mais na atualidade. Para quem passa como eu transportando o filho todas as manhãs, ida e volta, em frente ao Colégio Júlio de Castilhos em Porto Alegre e vê, no centro da Avenida João Pessoa, a Chama Crioula é possível constatar que se perdeu muito da vocação tradicional de gauchismo e da altivez rio-grandense ou, como diria o Jayme Caetano Braun, do Orgulho Pátrio. Apenas nesses dias, há uma guarnição para o Fogo Simbólico que denominamos de Chama Crioula. E tem sido somente guarda militar. Onde estão os peões e prendas, como a representação do povo gaúcho? Se pensarmos que atravessando a metade da Avenida já podemos entrar no Colégio Julinho, onde estão as referências ao prédio matriz da Ronda Crioula que o Paixão Cortes e os outros alunos e alunas transformaram, por força do movimento estudantil, em Semana Farroupilha?

Basta ligar o rádio do carro para se ouvir músicas ligadas ao sentimento dessa Semana festiva?  Todos sabem que é evidente que não. Nem músicas, nem citações dos locutores e quase nem comerciais. Nosso público, também não é foco de consumo para o comércio midiático. Ao surgirem os festivais nativistas transmitiram-se noites e noites, muitas vezes, com precárias condições técnicas. A gauchada de CTGs e Piquetes cederam a base hospitaleira, iluminaram-se palcos e a maioria dos artistas de antes, agora fazem espetáculos e animam bailes a custos elevados. Muitos motivos, com certeza. Contudo, ao me pedirem para resumi-los agrupo-os em poucas justificativas: má gestão. Hoje, outras causas reproduzem situações parecidas às causas das dificuldades que provocaram e mantiveram a Revolução Farroupilha por tanto tempo. Para seguir no tema, nossa musicalidade precisa ser moldada para conseguir tímidos espaços na mídia nacional. Nem as grandes redes midiáticas alcançam condições favoráveis a essa expansão. Motivos?  Ora, basta uma rápida pesquisa e se encontrarão inúmeros estudos gastando argumentos para evidenciar caminhos, tendências e outras opções mais adequadas às que foram escolhidas. “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto” – ah, isso era Rui Barbosa falando de outro contexto.  Outro?  Esta indignação é mesmo de 1914 ?

 

Proseamos mais de outra feita !

Acampamento Farroupilha, quinta, 17 de setembro de 2015.

 


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