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Chasque Pampeano:EXCLUÍDOS SOCIAIS E O GAUCHISMO...

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02/06/2008

EXCLUÍDOS SOCIAIS E O GAUCHISMO
 

                                             

Joaquim Moncks

Não tenho vida de campo. Sou o produto emocional e psicossocial do subúrbio de minha cidade natal, Pelotas, a “Princesa do Sul”. E esta cidade tem uma herança incontestável de cultura universalista. O ciclo do charque – e a conseqüente prosperidade econômica ocorrida a partir do início do século XIX – fez naturais permutas com a velha Europa, bem diferente do que ocorreu com cidades de outras regiões do RS.

Deste modo, por ser fiel e reverente às raízes do gauchismo, sempre que me é possível, conveniente e oportuno, procuro abordar os assuntos e temas que dizem respeito ao homem gaucho – o habitante da Pampa Larga – seus usos, costumes e história.  Faço estas abordagens com alguma riqueza vocabular e o hibridismo natural de quem ama, estuda e pesquisa a contemporaneidade de um Rio Grande marcado pelas necessárias trocas entre o êxodo rural e o citadino.

Percebo, no entanto, que vários de nossos talentosos participantes de festivais de música e poesia havidos por este Rio Grande de Deus constroem suas composições em cima da tradição oral inautêntica ou deturpada. E, o que é pior, em cima de literatice, utilizando vocábulos da vertente guasca fora de seus sentidos e concepções originais, portanto não consagrados nos vocabulários crioulos, e nem passíveis de vir a ser porque equivocados, incorretos na designação.

Causa-me preocupação a utilização do imaginário dos que ajojaram-se no campo em suas lidas cotidianas, costumes, tradições, crenças. De repente, na busca da sobrevivência e de melhores condições de vida para si e sua família, milhares de pessoas restam jogadas na periferia das grandes cidades.  

Sob esta ótica de vertente sociológica ressalta o imaginário que migrou junto com os hoje excluídos sociais. E há uma ponchada deles que vive o saudosismo das experiências trazidas do interior da Pátria Grande do Sul e de todo o Pampa.

Daí que é natural buscar nos Centros de Tradições Gaúchas o lazer cultural que lhes agrada, porque nestes estão à disposição meios e materialidades aproximadas dos costumes da vertente original do homem rural. E a saudade dele no coração constrói o imaginário e produz ações ingênuas e saudáveis da alma boa dos interioranos. O CTG é o campo trazido idealisticamente pra dentro da cidade.

Isto começou a ser opção quando, lá pela década de 50, popularizou-se o Movimento Tradicionalista Gaúcho e ocorreu a fundação de muitos CTG, inicialmente na capital, e depois em cidades de várias regiões do RS. E houve uma imediata adesão dos viventes embretados no “Povo”, isto é, o aglomerado urbano.

O que temos hoje em dia é a terceira geração dos que fizeram as primeiras migrações para o grande “Povo”, mormente para Porto alegre, a capital do Rio Grande.

Passados mais de 50 anos, há situações gritantes na prática tradicionalista que merecem cuidado por parte dos dirigentes do Movimento. Relatos colhidos entre os cavalarianos do Acampamento Farroupilha, na capital, nos dão conta de situações específicas:                     

“ – Sou o neto do militante tradicionalista que fundou o CTG lá por 1950, e hoje não posso freqüentar o CTG porque não tenho dinheiro pra pagar a mensalidade social...”

“ – Não posso me agregar à Invernada Campeira, lá talvez  não teria de pagar mensalidade, mas tenho que arranjar dinheiro para o arranchamento do cavalo...”

“ – Tenho de pagar tudo... Não sou ginete e não me dou bem no tiro de laço! Sou gauchinho de cidade...”

“ – Resta-me, como consolo, ir ao “bailão sacolejar os quartos” e ouvir música sertaneja! É o que sobra ao guri de subúrbio de cidade grande!”

“– O vestido de prenda custou mais caro que o meu vestido de 15 anos!

“ – A mãe da fulana fez um vestido todo de veludo que custou cinco salários mínimos!”

“ – O conjunto cobrou  tão caro que o ingresso pro fandango custará  seis cervejas!”

Pelo que vejo, o CTG passou a competir com o clube social típico da burguesia. Onde fica a preservação das tradições e costumes do homem do campo? E o respeito à figura do gaúcho camponês?

O CTG é o “galpão crioulo” trazido para a cidade ou a sede da estância em outro território que não o campo? Ou o que temos hoje é a sede da estância campesina metida na periferia urbana?

Na área da composição musical, é necessário ressaltar alguns tidos como “autênticos”: Noel Guarany, Cenair Maicá, Telmo de Lima Freitas, José Cláudio Machado, Pedro Ortaça, Elmo de Freitas, o Carijó, e Adair de Freitas. Entre os quase novos figuram Luís Marenco, Jorge Guedes, Baitaca, e essa curiosa figura crítica de costumes que é o Mano Lima e suas jocosas letras musicais.

Rurais e urbanos sabem que a composição musical não é só a música... Tem de haver um relato de verdade quando se trata de retratar o campo e suas memórias de coxilhas, cavalos, bolichos, peleias e pilchas de domingo pra ver a prenda...

Nesta alegoria, como bem se pode observar, faço a recolha e a necessária crítica à quadra histórica pela qual estamos passando – já faz uns vinte e cinco anos – no tradicionalismo rio-grandense.

Estes pensamentos calibram o amor ao telúrico, no início do século XXI.

– Joaquim Moncks, na função de deputado estadual constituinte, em 1989, foi o autor da lei que instituiu a Pilcha Gaúcha como traje preferencial e de honra em todo o território do RS.

– Do livro CONFESSIONÁRIO – Diálogos entre a Prosa e a Poesia, 2006.

http://recantodasletras.uol.com.br/cronicas/1004143

 


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