Visitante Nº:
contador de visitas

 

  Chasques do Poeta,Escritor e Radialista Dilmar Paixão...

 

 

    

 

 

 

 

 

A MULTIMUSICALIDADE INTERCULTURAL NA FESTA NACIONAL DA MÚSICA

- Dilmar Paixão –
(professor, escritor e poeta)

                Um espetáculo de muitos shows em movimentos artísticos diversificados. Porto Alegre viveu dias 17 e 18 out 2016, uma iniciativa ímpar: Fernando Vieira organizou mais uma edição da Festa Nacional da Música. Para quem percorreu o Estado e o Sul do País por muitos anos transmitindo ao vivo os festivais nativistas, desde 1980, esse evento é, sim, singular, principalmente, por reunir artistas na máxima expressão da qualidade, alguns mais novos e outros consagrados inclusive pelo tempo de palco. Além disso, o evento é mesmo uma festa: homenageou, sem concorrerem, mas destacados pelos mais diferentes motivos do trabalho com qualidade nomes aplaudidíssimos como o sempre versátil Luiz Carlos Borges, Carlinhos de Jesus, José Roberto (aquele das marchinhas de carnaval como Cabeleira do Zezé), Luiz Coronel, Sérgio Reis, Paula Fernandes, Roberto Frejar, Grupo Barra da Saia, enfim, Sambistas, Pagodeiros, Regionalistas Gaúchos, Nativistas e uma lista enorme de personalidades do ambiente artístico e cultural brasileiro na música, na letra, na dança e na promoção de eventos do gênero.
A cantora Rosemery - aquele mesma da “jovem” guarda - afirmou convicta: "Este é o único momento de estarmos juntos todos os anos". Neto Fagundes, Cristiano Quevedo, Grupo Tchê Guri, os Serranos, Daniel Torres, todos, foram se sucedendo no palco entregando ou recebendo troféus e trocando de lugar para apresentações rápidas, bem organizadas, qualificadas e muitas improvisadas pelo talento de integrantes de grupos musicais diversificados. Se isso demonstra, mais uma vez, que a música não tem fronteiras nem divisórias, universal como é a sensibilidade, também, a sabedoria artística os diferenciou com pronunciamentos importantes desde o posicionar-se político à convocação para unirem-se e permanecerem próximos e atentos diante das ameaças que atingem a cultura musical, artística e profissional como a outros setores do país.
O poeta Luiz Coronel, das Cordas de Espinho e outros clássicos nativistas, recebeu o troféu destaque da Festa Nacional da Música 2016 das mãos de Vanderleia, outra tradicional representante da MPB – música popular brasileira. Com a posse do seu troféu, ele lembrou a frase de Lima Duarte ao ser premiado no Festival de Cinema de Gramado: “Ganhar um prêmio, uma distinção, é ser representante de uma época, de um grupo, portanto o prêmio não é de um, mas de todos”. Desse modo, minha primeira conclusão é afirmativa de que todos e todas venceram com mais esse momento de convívio e de sucesso das iniciativas simples e organizações edificadas com zelo e competência.
Feitos esses elogios, sem querer apresentar críticas, preciso abordar dois pontos a serem revistos pelos gestores do poder público em todos os níveis se desejarem propor transparência e austeridade nos gastos públicos: a pouca divulgação pelos canais públicos anunciando a festa e o financiamento que, nesses tempos de crise anunciada e real, opta por grandes nomes trocando o endereço dos beneficiários aos quais seriam destinados esses investimentos do setor privado como patrocínio isentado de impostos das verbas públicas. Explico melhor. A rede de televisão educativa, TVE, transmitiu ao vivo, porém das 22 horas a 01 hora do dia seguinte. Outras veiculações foram raras e discretíssimas, provavelmente, sem reapresentações. E a quem deveriam beneficiar as verbas públicas que liberam de impostos as empresas do setor privado que patrocinam esses eventos pelas ditas leis nacional, estaduais e municipais da cultura?
A redundância da palavra “pública” tem interesse direto. Esses grandes eventos promocionais têm patrocínios públicos também. Contudo, o que quero ressaltar é para que os integrantes dos conselhos e os gestores que administram essas possibilidades de autorizações para que os recursos sejam captados percebam que muitas pessoas da sociedade civil organizada e o cidadão comum sabem desse privilégio. Com ele, quais as chances de grupos artísticos menores e de outras manifestações culturais e artísticas ou de artistas amadores e iniciantes receberem verbas para sua arte diante da competição com nomes consagrados?
Enfim, mais um problema agudo que se cronifica na sociedade dos desiguais que sobrevivemos. E muita gente boa fala em cidadania plena e em apoio aos artistas populares e grupos menores. Quantos grupos penam por falta de local de ensaio? Quantos artistas poderiam ser auxiliados na gravação de um primeiro trabalho artístico? Quantos centros culturais como as entidades tradicionalistas e clubes associativos reúnem-se em salas alugadas ou cedidas e não em sedes próprias para os seus funcionamentos? E nem estou falando das verbas para financiamento das atividades educacionais e formativas da cidadania popular.
Há outras situações que precisam exames mais detalhados em seus contextos. Por exemplo, a destinação nos orçamentos oficiais de verbas para emendas parlamentares. Um único parlamentar e seu grupo de apoio decide destinar patrocínio, com dinheiro público, a um ou outro trabalho, uma ou outra instituição, alguma atividade da sua área eleitoral. Isso reduz escolhas coletivas como em congressos e conferências com participação da sociedade.
Soube, por acaso, que Paulo Freire – o educador popular do método construtivista – fazia verso. E, por isso, provocado pelo X Seminário Nacional Diálogos com Paulo Freire, construí um poema regionalista para mostrar que um poeta da Academia Xucra do Rio Grande, a nossa Estância da Poesia Crioula, tem respeito e se comunica com outras escolas acadêmicas e científicas do conhecimento cultural. A interculturalidade, a etnomusicalidade e essa multimusicalidade são, como outras, fontes da expressão livre de quem respeita, integra, interage e dialoga com todas as formas de saber e de manifestações da arte e da cultura viva na sociedade. Aporto a esse campo temático “de outra feita”.

Proseamos mais, noutra data, saudando a generosidade desse espaço que nos concede o Paulo Guimarães sempre apoiador e líder das causas culturais brasileiras, viabilizador desse já tradicional sítio dos Chasques Pampeanos.

 

Partenon, Porto Alegre, 20 de outubro de 2016 – Dia do Poeta.

 

“BONDADE NUNCA É DEMAIS” !
- Dilmar Paixão –
(professor, escritor e poeta)

                O verso é por demais conhecido e se faz adequado para abrirmos as porteiras de mais um ano. Agora 2016. Tudo tão rápido e passageiro, quase a noção explícita de que somos peregrinos e vamos depressa como os segundos do tempo e a velocidade do vento. Aliás, a natureza tem mostrado motivos para reflexões bem importantes.
                Voltando ao verso do título “... bondade nunca é demais!”, pode-se afirmar que, nem mesmo o Teixeirinha, tinha em seus pensamentos a imagem de tanto sucesso que essa canção faria entre a juventude frequentadora de um ambiente musical diferente do nosso regionalismo gaúcho. Cantá-la, antes, nos estádios de futebol já foi uma vitória. Estar na boca do povo em diversas solenidades oficiais e da sociedade rio-grandense também.
É importante que se diga, pois, que não é por “bondade” que as pessoas entoam este tipo de hino “Querência Amada”. E a letra não é das mais fáceis, como a população massificada está acostumada a cantar, com conteúdos resumidíssimos e de apelo fácil. Pelo contrário. É melhor que se diga que é um fenômeno.
De um momento inicial, impulsionado por novos cantores em um grande canal de radiodifusão, essa composição tem se mantido contemporânea sem mais favores e escolhas midiáticas. Então, cante-se: “... bondade nunca é demais”! 
Há anos, o Planeta Atlântida tem um início oficial com o Hino Rio-Grandense, numa participação tradicionalizada pelo Neto, da família dos Fagundes do Alegrete. Uma merecida ocupação de espaços com qualidade, que projetou, desde muito tempo, integrantes da família que responderam, com sucesso significativo, às oportunidades surgidas. Darcy Fagundes, no Grande Rodeio Coringa e na arte da declamação, os irmãos Bagre e Antônio Augusto, o Dorotéo, o Neto, o Ernesto, o Paulinho e os demais, muitos que tenho o privilégio de listar entre os amigos.
Nos idos da 2ª Tertúlia Musical Nativista, em 1981, ainda na sede social e campestre da Associação Tradicionalista Estância do Minuano, no tempo em que Santa Maria era mais famosa por notícias boas, o Bagre e os seus filhos subiram ao palco e tomaram conta. Duvido que os Fagundes tivessem ideia da repercussão que os aguardava com o Canto Alegretense. Tanto que a mais popular daquele festival foi “O Bugio”, do Borges com letra do Prado Veppo. Conta-se que um renomado conjunto regionalista de fandangos preferiu não gravar a novel canção, porque não era costume saudar-se somente uma cidade, já que os grupos de baile animavam festas em inúmeros municípios pelos recantos do Estado e do país. O Guri de “Uruguaiana” que diga do seu sucesso interpretando versões do Canto do “Alegrete”. Méritos, portanto, e aplausos sempre.
Como pai de adolescente, agora universitário, com idade mínima para o Planeta, acompanhei, mais de perto, as festividades deste ano. Da minha experiência profissional na radiodifusão, transmitindo inúmeros eventos musicais pelo país, por raras vezes, observei em um mesmo espetáculo uma canção ser repetida - e na mesma noite. Mais: os intérpretes vieram de outros Estados da Federação Brasileira. E o povo presente demonstrou profundo conhecimento de toda a letra do Teixeirinha. Outra surpresa ainda: no outro dia, vi pela reportagem televisada, que um dos mais reconhecidos sambista daquela noite, intérprete dessa cantiga, confirmou a sua admiração pelas tradições gaúchas e dançou nosso folclore em invernada artística.
Registrar, isso, para a contemporaneidade ou recolher como mais uma prova da popularidade de Teixeirinha, como nosso principal cancioneiro a transportar a arte regional para o mundo, seriam objetivos corriqueiros. Por isso, prefiro recorrer ao verso que sublinhei no título desta manifestação para saudar o ano que se inicia e agradecer a Deus e aos nossos conviventes pela felicidade de estar, coexistir e interagir com bondade. Neste mundo, que há muito é de tanta pressa e desumanidade, sem tempo para o coração, como diria o poeta, conviver é muito mais do que uma necessidade e saber viver e conviver é um desafio sobremodo inegável.
A propósito, humanização é uma terminologia e um conceito que tem sido expresso, inclusive, em políticas públicas e sociais, no entanto, é uma prática mais discursista do que efetiva e eficaz. Sensibilidade é outra palavra integrante desse sentimentalismo racionalizado, onde o ter não deixa mais espaços para o ser e as pessoas, em plena era da comunicação e tecnologia que poderiam aproximá-las, preferem afastar-se das outras pessoas e de Deus. Hospitalidade é uma prática quase inexistente em nossos dias. Aliás, dias e noites.
Uma canção conhecida dos Irmãos Bertussi, chamada Oh de Casa!, historiou o período mais frequente de se demonstrar a hospitalidade: “... um lugar para pousar”. Se recorrermos à literatura poética do payador Jayme Caetano Braun, no seu livro De Fogão em Fogão, há toda uma poesia para definir a hospitalidade. A certa altura dos versos, ele profetiza que, até o índio mais xucro, à margem da vida em sociedade, “... cumpre a hospitalidade”. Se ainda vivêssemos esse tempo que foi descrito em sua real existência, por exemplo, não teríamos tantas banalidades em assaltos que vitimam pessoas inocentes, muitas vezes, por futilidades.
O verso do Teixeirinha é atual, atualizado, apropriado para esses tempos, neste novo ano que se inicia. Se pensarmos que “... bondade nunca é demais!”, poderemos conferir mais qualidade às nossas vidas e convivências, mais humanidades para os relacionamentos, mais amorosidade para o existir humano e social. É um pouco daquelas conversas que se tem nas rodas de mate sobre tradição, progresso e evolução. A tecnologia, mais do que teoria e estudos sobre técnicas, processos e métodos, como sempre se disse, é um mero conjunto de meios e instrumentos disponibilizados para facilitar e não afastar os seres humanos entre si. Entre os males desse último período sem luz, houve um tempo precioso para a convivência nas famílias com criatividade. Para algumas, coisa rara.
Pensando no tema da bondade e no ano estreado, vale uma prece final: “Oh Deus, tem misericórdia de nós e abençoa-nos! Trata-nos com bondade”. “O amor do Senhor Deus não se acaba, e a sua bondade não tem fim”(Lm:3,22). “A bondade é a colheita produzida pelas sementes que foram plantadas pelos que trabalham em favor da paz”(Tg:3,18). Que esta nova temporada seja de bondade entre todos nós, afinal, como a canção recomenda: “... bondade nunca é demais”!

Proseamos mais, de outra feita.
Partenon, 1º de fevereiro de 2016.

 

A VOCAÇÃO EMOCIONAL QUE ACAMPA NA SEMANA FARROUPILHA

- Dilmar Paixão –
(professor, escritor e poeta)

                Há pessoas que reservam os trinta dias do mês. Há os que se dedicam intensamente – e bem mais do que isso. Gente que ergue os cenários e aqueles que trabalham na cozinha, que se movimentam e que servem de peões caseiros. Há quem prepare estudos e pesquisas elaboradas especialmente para as oficinas culturais ou aqueles e aquelas das lidas artísticas, das poesias, das cantigas, das danças e das recordações. É, por isso, inegável que existe uma vocação emocional em tudo isso. Da minha última acampada na Semana Farroupilha, eu me lembro de que vivia um período de grandes atribulações e as vicissitudes das viagens, das palestras, das atividades profissionais, conferências e entrevistas não foram suficientes para provocarem-me cansaço ou desânimo. Pelo contrário, cumpri horários com pontualidade e fui assíduo e dedicado a responder favoravelmente a todos os convites recebidos.
Atender à convocação do www.chasquepampeano.com.br tem esse sentido de emotividade. Evidente que o computador favorece. Porém, para quem fazia esse exercício antes da máquina de escrever eletrônica, quando ao menor erro reiniciava a datilografia da página de texto, destinar alguns minutos para assinalar na tarca do tempo impressões do cotidiano e lembranças acumuladas pela memória é tarefa prazerosa e de acolhida. O Paulo Roberto Guimarães, Diretor do Jornal Digital e Sítio Chasque Pampeano, é um desses abnegados tradicionalistas e ativista cultural que, por sua doação de esforços, tem recebido a nossa resposta favorável mais imediata a cada chamado. Ao iniciar esta nova fase do Chasque Pampeano, o Guimarães merece ser saudado e incentivado por esse novo galpão mantido em pé. Fisicamente, existe o galpão da turma de Passo Fundo que, por dificuldade de agenda, ainda não fui conhecer pessoalmente. Um Centro de Tradições na capital, outro no interior e participações dele e da esposa em muitos eventos, além da liderança que ele exerce no Conselho Municipal de Cultura de Porto Alegre. Vejam que são maneiras dinâmicas de pleitear garantias e espaços significativos para as artes, a cultura, os usos e costumes da nossa gente rio-grandense.
A Semana Farroupilha serve muito bem para essas manifestações emotivas e de recordações. Valendo, claro, a lembrança do verso do Telmo de Lima Freitas na voz do Edson Otto: “quantos recordam tropeadas sem nunca tropear”! Os interioranos que acampam ou visitam o acampamento farroupilha na capital, por exemplo, convivem com momentos distantes da rudeza das lidas campeiras tradicionais. A tecnologia digital, por sua vez, torna o mundo acessível através de conexões infinitas vezes mais rápidas e surpreendentes. Nem o cavalo tem o mesmo preparo e destinação que antigamente lhe era reservada.
Alguns dos cursos de danças que participei com o Paixão Cortes me ensinaram que o andamento de determinadas danças tradicionais têm a sua cadência mais acelerada para demonstrações artísticas em espetáculos para turistas. Aliás, a esses grupos muito se tem destinado das apresentações festivas da Semana Farroupilha até mesmo nos galpões dos CTGs e entidades afins. Quando leio que o Guimarães publica a responsabilidade do site com as diretrizes da Carta de Princípios elaborada pelo Glaucus Saraiva, reencontro-me muito jovem quando do meu primeiro curso sobre a cultura gaúcha ainda em Cruz Alta.
As relações emocionais são, portanto, superiores ao contexto cotidiano quando mergulhamos no simbolismo dessa cultura que sustenta a Semana Farroupilha. As adversidades – e sobrevivemos em uma das mais severas crises da política governamental contemporânea – não têm sido suficientes para diminuir o sentimentalismo de quem comemora o passado com os pés firmes no presente dos nossos dias. Atrapalha, sim. Com certeza. Preocupações que entram em cena, nem sempre estão providas dos melhores cuidados intencionais. Retiram-se cavalos, cancelam-se desfiles, outorgam determinações, como quem adia tarefas e atribuições menos importantes. Mas o coração segue livre sendo o potro sem dono cantado pelo Noel Guarani. Leio que o mormo como doença foi detectada pela primeira vez no Brasil em 1811. Será que esse bacilo gram-negativo não é parente daquele que motivou o incêndio do galpão crioulo do CTG da fronteira, por coincidência, na terra natal do Paixão Cortes? Embora tivesse sido cantado para amenizar as dores da saúde combalida do Homem Rural, vale citar o Cenair Maicá e a contemporaneidade da interrogação mais forte do seu verso: “De que vale tanta ciência”?
No nosso CD de Poesias Gaúchas “Paixão em Família”, respondendo em versos ao desafio do saudoso Padre Paulo Aripe (o que idealizou a Missa Crioula) para que eu fizesse a Homilia de uma das Missas de abertura da Semana Farroupilha, teci considerações através da indagação: “Que sentimentalismo encilha as nossas emoções e vem passear nos galpões na Semana Farroupilha”?  Ora, é preciso muito mais na atualidade. Para quem passa como eu transportando o filho todas as manhãs, ida e volta, em frente ao Colégio Júlio de Castilhos em Porto Alegre e vê, no centro da Avenida João Pessoa, a Chama Crioula é possível constatar que se perdeu muito da vocação tradicional de gauchismo e da altivez rio-grandense ou, como diria o Jayme Caetano Braun, do Orgulho Pátrio. Apenas nesses dias, há uma guarnição para o Fogo Simbólico que denominamos de Chama Crioula. E tem sido somente guarda militar. Onde estão os peões e prendas, como a representação do povo gaúcho? Se pensarmos que atravessando a metade da Avenida já podemos entrar no Colégio Julinho, onde estão as referências ao prédio matriz da Ronda Crioula que o Paixão Cortes e os outros alunos e alunas transformaram, por força do movimento estudantil, em Semana Farroupilha?
Basta ligar o rádio do carro para se ouvir músicas ligadas ao sentimento dessa Semana festiva?  Todos sabem que é evidente que não. Nem músicas, nem citações dos locutores e quase nem comerciais. Nosso público, também não é foco de consumo para o comércio midiático. Ao surgirem os festivais nativistas transmitiram-se noites e noites, muitas vezes, com precárias condições técnicas. A gauchada de CTGs e Piquetes cederam a base hospitaleira, iluminaram-se palcos e a maioria dos artistas de antes, agora fazem espetáculos e animam bailes a custos elevados. Muitos motivos, com certeza. Contudo, ao me pedirem para resumi-los agrupo-os em poucas justificativas: má gestão. Hoje, outras causas reproduzem situações parecidas às causas das dificuldades que provocaram e mantiveram a Revolução Farroupilha por tanto tempo. Para seguir no tema, nossa musicalidade precisa ser moldada para conseguir tímidos espaços na mídia nacional. Nem as grandes redes midiáticas alcançam condições favoráveis a essa expansão. Motivos?  Ora, basta uma rápida pesquisa e se encontrarão inúmeros estudos gastando argumentos para evidenciar caminhos, tendências e outras opções mais adequadas às que foram escolhidas. “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto” – ah, isso era Rui Barbosa falando de outro contexto.  Outro?  Esta indignação é mesmo de 1914 ?

Proseamos mais de outra feita !
Acampamento Farroupilha, quinta, 17 de setembro de 2015.

 

QUAL É A IDADE DO TROPEIRO VELHO ?

 - Dilmar Paixão -
(professor, escritor e poeta)

 

            Saudades têm marcado os dias recentes deste novo ano. Entre os participantes do universo gauchesco, muitas têm sido as perdas funerais. E, como diz o poema do Luiz Menezes, que ouvimos na voz do Darcy Fagundes repetidas vezes: “Chorar é para quem tem tempo e a morte nem sempre tem tempo...” Assim, desse dualismo entre a morte e a vida, retiro os palanques para fazer o alambrado do corredor desses dias. Velamos noites de saudade. Respeitamos e reservamos momentos para abraçar viventes que ficaram a chorar entes queridos. E como é triste perceber que a fila vai chegando para junto dos da gente. Quando não é familiar é alguém da estima, um artista, outro cantor, um mito... E vamos lotando agendas de sétimos dias. Mas, contra esse dualismo, prefiro me alinhar àqueles que valorizam e saúdam a vida. Por isso, a meu gosto, repito aos amigos que é mais fácil encontrarmo-nos por entre festas e abraços de aniversários do que nas contemplações silenciosas dos velórios.
            Pensando desse modo, há cinco anos começamos em família uma contagem regressiva e uma torcida que nos conduzisse à benção das comemorações dos 80 Anos do Seu Paixão, como ele almejava. A cada dia, a cada anoitecer, a minha lembrança cantarolava a canção do Teixeirinha na qual o seu pai, na figurativa homenagem do Tropeiro Velho, adoentava-se e entardecia a sua missão deixando os arreios e as incumbências para o filho e os descendentes. Portanto, o meu verso nasceu pronto:

Quando o tempo faz ringidos no rodado das carretas,
de pouco adiantam as caretas ou os cabelos tingidos.
Amigos são sempre amigos.
Familiares: os de sempre !
Os afagos, docemente, lotam a carreta Saudade.
Oitenta Anos, a idade.
A vida, o maior presente !

O meu pensamento ainda está voltando de Santa Maria, da Estância do Minuano, da tarde e noite de 24 de janeiro de 2015, quando o Padre Amadeu Canellas e o Arthur amadrinharam o meu pai para a chegada, sob aplausos, no início da Missa Crioula. Seguiram-se: uma exposição desse itinerário, filmes com imagens desses Oitenta Janeiros, o churrasco, o bolo com as cores do Rio Grande do Sul e os momentos artísticos, recreativos e culturais que, a pedido dele, eu, a Dinara e o Arthur organizamos. Evidente, que recebemos apoios qualificados. O Júlio Cesar Pires Pereira, no acordeon; o Júnior Benaduce nas cantigas, a Cristina, ao selecionar e expor os seus objetos mais significativos; a Cláudia, a Eloí e a Márcia nos preparos decorativos; a Fernanda e o Arthur na condução da Missa Crioula; os parentes e amigos que, a convite dele, vinham se preparando para a anunciada festa há cinco anos e quase sete meses.
Há fotos esparramadas e filmagens reportadas pelos muitos facebooks e, também, pela imprensa convencional. Voltando ao texto melodioso, se o pai do Teixeirinha morreu aos 80 Anos, eu e a Dinara temos um pai mais velho, de passos lentos, porém entrosado, atento, vigilante e com a sabedoria que Deus lhe abençoou. Portanto, permitam-me que eu lhes fale mais de alguns sentimentos que expressamos durante a parte artística da festa, parte em textos e outra em versos, no acompanhamento qualificado do Júlio e do Júnior do Raízes.
Quando soubemos dos convites que o Seu Paixão estava fazendo no próprio cartão de visitas cinco anos antes da data, minha primeira sensibilização foi para rezar a Deus determinando que o meu pai alcançasse, com saúde e vida feliz, esse marco comemorativo. Centenas de listas de pessoas foram organizadas por ele, contendo suas convivências profissionais, amigos, familiares, tradicionalistas, nativistas, escritores, pesquisadores, estudiosos e homens e mulheres que compartilham com ele o seu cotidiano em Santa Maria. O mais triste nessas ocasiões é despedir-se daqueles que ele estimava muito e que, certamente, estariam na festa, no entanto, que a vontade de Deus definiu ao contrário. E três casos quase chegaram às vésperas. O irmão dele, nosso Tio Sebastião, um dos fundamentais como liderança de modelo cultural para a família toda, partiu primeiro. Depois, dois cunhados do Faxinal, irmãos entre si - e faltando poucos dias. Houve alegrias também. A Milena, Primeira Prenda do CTG Laureano Medeiros, de Ijuí, similar a outros aniversariantes, adiantou a festa dos seus 15 Anos para participarem conosco nos 80 Anos do Seu Paixão.
A cantiga do Teixeirinha falava do seu pai. “Oitenta anos nas costas, sempre lidou com a boiada, mas, nunca em suas andanças, deixou um boi pela estrada”. Se pensarmos nesse itinerário do meu pai, Darcy Pereira da Paixão foi um desses tropeiros pela vida que, como a Dinara salientou muito bem no início da festa ao explanar sobre motivos e características do viver do nosso pai, ele sempre realizou muitas coisas em paralelo. Foi profissional, pesquisador, intelectual, tradicionalista, pai e amigo estando juntos nos momentos concomitantes e o tempo todo.
A estrofe mais marcante daquela canção me intrigava, enquanto eu preparava os versos que disse com o Arthur na festa. Diz: “Agora, não pode mais; seu corpo velho e cansado, às vezes fica caducando, começa a gritar com o gado ‘era boi, era boiada’, se acorda, recobra os sentidos e fica calado, esse velho de oitenta, muito para mim representa, escuta o meu verso rimado”. Por conseguinte, a intenção de abrir em versos a noite veio dessa provocação. Após a mensagem que o Seu Paixão gravou, saudando e agradecendo a todos, somente em versos, eu poderia dar sequência às artes comemorativas. E, “porque a vida é o maior presente”, como escrevi, fizemos as nossas preces em ação de graças. Permanecemos nessa benção. Deus tem sido abençoador dessa trajetória. Meu pai que foi vitimado de grave acidente há quinze anos, pode, como desejava, receber seus amigos e familiares para uma confraternização alegre, abençoada e gauchesca. Quem dera, nós e outros, possamos alcançar esses oitenta anos com tal vitalidade e juventude de espírito.
Enquanto elaborava um dos filmes do seu tempo antigo, deparei-me com uma fotografia de uma churrascada no Faxinal, interior de Cruz Alta. Família numerosa, os avós rodeados de filhos e netos, carne farta, espetos cortados no mato, buraco no chão para o fogo de lenha. Como muitos comentaram, essas festas não existem mais. E não é somente pela despesa. É, inclusive, pelo distanciamento entre os próprios parentes. Não se conhecem mais os filhos e filhas dos primos e seus netos e netas. Embora a tecnologia, quase ninguém faz visitas aos finais de semana. Chegar aos 80 Anos rodeado de amigos é, com certeza, um estímulo forte para viver tantos anos.
O aniversário do Seu Paixão teve muito dessa representatividade. A marca tradicional de assinalar o gado foi conduzida pela irmã Ana Maria e o irmão João, os mais jovens. Os filhos e a filha dos outros três irmãos conduziram o chapéu e o pala. O gaiteiro Lannes, o compadre Nelcy e a sobrinha Milena entregaram, na caminhada do Ofertório, a gaita mais moderna e atualizada, a cordeoninha de botão de muitos bailes e a faixa da primeira prenda do CTG. A Dinara levou o primeiro livro dele (O que é MTG: questionamentos e perspectivas) e o Presidente Adede, da Academia de Letras, os primeiros escritos do Patrono da Cadeira 14 da Associação de Letras. Duas prendas e dois peões portaram os avios de mate, a antiguidade e o cotidiano do Seu Paixão.
Tudo isso edificou uma homenagem solene e comunitária à figura do meu pai e, portanto, o nosso agradecimento aos que conviveram e convivem com ele nestas campereadas da sua vida. Eu e o Arthur em Porto Alegre. A Dinara, mesmo em Santa Maria, mas com viagens profissionais pelo mundo. Por isso, à vizinhança, às amizades, aos mais de perto, a nossa melhor gratidão.
Momentos felizes, que se tornaram inesquecíveis. Translúcido, se podia ler no semblante do Seu Paixão que “Viver valeu a pena”!  Durante a festa, via-se ele radiante e transbordando de alegrias pelo reconhecimento dos convivas que compareceram.
Se, recentemente, ele e o Arthur provocaram a criação do texto “Meu tablet não tem memória”, dá para saber que a memória desta festança existirá para sempre. Seu Paixão, meu pai, recebeu os seus amigos e amigas como pretendia. O ar condicionado natural das portas grandes da Estância do Minuano foi outra bênção especial para a data, que a presença das pessoas tornou festiva e Divina.
Como eu provoquei no título deste Chasque, sigo interrogando em qual idade se pode chamar de velho, um tropeiro da vida. Meu colega de Academia Xucra, a Estância da Poesia Crioula, foi manchete assumindo o início de mais um curso de graduação. Ibarra merece os cumprimentos pela ousadia e pelo exemplo. Quem o conhece sabe testemunhar quanta vitalidade o mantém.
Do mesmo modo que os homens, mulheres alargam esses corredores do tempo, como a outra saudade que eu destaco ao final dessa reflexão que a gentileza do Guimarães me autoriza. Vale o registro de que, após chegar aos noventa anos, no dia internacional da mulher, Inezita Barroso guardou sua viola deixando um itinerário de enormes preocupações e cuidados culturais com o Brasil da arte de terra e do povo. E tantas pessoas amigas e conhecidas se bandearam para a invernada grande como dizia o Jayme Caetano Braun. Gente nova que não se sabia doente e outros mais vividos, porém, nem sempre se aceita com naturalidade e, por isso, o registro como perdas. No íntimo, todos perdemos um pouco por não saber aprender mais com essas pessoas quando havia possibilidade de convivermos com elas em vida. A frase é gasta, mas começam aí as justificativas porque as homenagens de reconhecimento devem ser encaminhadas em vida.
Enquanto ressoam as notas da canção Tropeiro Velho, separo olhares às fotos e à filmagem da missa-festa-espetáculo-fandango e convivência celebrando os 80 Anos do meu pai. Dos setenta aos oitenta anos, sei, agora, que a vida passa muito rápida, embora se queira sorvê-la minuto a minuto. Os que têm familiares nessa faixa de idade devem percebê-los tanto quanto eu. O próprio facebook que era uma comunicação estabelecida para amizades e convivências alegres tem servido para noticiar até algumas dessas perdas surpreendentes. Que as boas lembranças possam dar consolo aos fãs e familiares sempre.
 
Proseamos mais de outra feita !

Partenon, verão de Porto Alegre, 15 de março de 2015

 

REFÉNS, HERÓIS E ÓRFÃOS DA HIPOCRISIA

                Há duas ou três dezenas de episódios que poderiam ser anotados e interpretados com a referência dessas últimas semanas. Posições e circunstâncias pessoais, familiares, da sociedade e do mundo. Quer pelo volume ou pela similaridade, prefiro agrupá-las como quem reúne uma tropa de ideias e vai repontando-a pelos corredores da vida.
                No nosso CD de poesias, denominado Paixão em Família, em que a parceria da Dinara, do Arthur e do Seu Paixão respaldaram pensares e imortalizaram lembranças boas, congregando gerações culturais, artísticas e de tecnologias, consta um poema interpretado como Uma Oração pela Paz. Nele, a contextualização de que “são três letras justapostas desde a primitividade; três letras que a humanidade aguarda como resposta; três letras que são proposta em cada negociação; sinônimo de comunhão é a paz em vez dos conflitos; a guerra, nos deixa aflitos, é o mundo dizendo não”.
                Em todas as pesquisas e estudos ampliados, avançamos afirmando que o ser humano comporta-se como doentes sem conseguir ser família; que não há vigília que contemple essa gente. Citei as “legiões de pessoas carentes, órfãos de fé e de alegria, como reféns da hipocrisia e do poder do braço forte”, enquanto são “ditadas penas de morte para impor sua soberania”. E disse mais. “Foi, bem assim, na minha terra, prepotência e preconceito”. “A lança que espeta o peito fere mais quando se enterra no inocente, que não berra, porque o orgulho lhe impede; que tomba, enquanto a guerra prossegue, sem tempos para lamentos”.  E essa estrofe é concluída com um aponte essencial: “por fim, em algum monumento, um herói - a mais - se ergue”.
“E o poeta, sem compreender, pergunta o porquê da guerra;
se o sofrimento na terra não basta para morrer.
Uma bandeira ao viver precisa ser desfraldada.
A paz deve ser hasteada nas pátrias e nos países
para que sejamos felizes e as pessoas, humanizadas” (PAIXÃO, 2006).

Reiteradas vezes ouvi o pregador Edson Silveira recordar que “o nosso Deus não é de confusão”. Um filme recém-lançado expõe dissensões entre um professor e um aluno sobre a existência de Deus, restando, ao final, a certeza de que Deus não está Morto.
A própria Semana Farroupilha, começando cercada de atitudes que em nada contribuem com os princípios que a instituíram, tem sido desviada em seu cerne por atitudes e comportamentos de pessoas de dentro e de fora do tradicionalismo que em nada contribuem, pelo contrário, desvirtuam, desagregam e problematizam o que deveriam ser, pincipalmente, uma festa, um festejar de reflexões e de ideias libertárias. Na mesma poesia do CD, as constatações mostram-se indispensáveis. “O ódio tudo incendeia. O sentimento anseia o fim desta dor atroz. Em súplica, eu ergo a voz e, pela paz, faço o pedido: queres a paz vem comigo, pois a paz começa por nós”. Por isso, não vou discorrer particularmente sobre essas duas ou três dezenas de ocorrências das últimas semanas.
Prefiro renovar a publicação dos versos do Silvio Aymone Genro cantados pelo João Chagas Leite: Seiva de Vida e Paz. De tão profunda e inspirada revelação, já bastava o início da estrofe:
“Quando nas rodas de mate, sinto a querência reunida.
Ao ver a cuia estendida num gesto amigo e simplório, neste xucro ofertório, entendo melhor a vida.
Se os senhores da guerra, mateassem ao pé do fogo, deixando o ódio para trás, antes de lavar a erva, o mundo estaria em paz”(GENRO, 1983).

Naquela primeira edição do Chimarrão da Canção, no município missioneiro de Coronel Bicaco, se percebia a importância da mensagem poética que surgia. Contudo, embora fosse elaborada para a atualidade daquela década de 80 que se iniciava, a canção agora, como se fosse uma moça adulta de trinta e três anos, desfila em busca de compreensões mais emotivas e sensibilizáveis. “Quando vires pelo pago, o ritual do chimarrão, unindo patrão e peão, reze para que a humanidade partilhe dessa igualdade em campeira comunhão”(GENRO, 1983).
Muito mais do que um ritual, o chimarrão, como roda de mate socializável, atravessou oceanos, atmosferas e chegou a outros lugares, no entanto, mesmo aqui no seu berço de nascimento, tem a resistência de algumas pessoas que, nem cenograficamente, conseguem arrematar o mate, que dirá sorvê-lo.
No livro Epopéia Farroupilha (1963, p.41), Walter Spalding cita a frase de Bento Gonçalves da Silva que bem serve como combate à hipocrisia de quem anseia pelos holofotes televisivos e outros canais de projeção midiática: “A guerra que sustentamos não é uma guerra de caprichos, mas uma guerra de princípios”.
Um professor eterno na minha vida, meu pai, sempre alertou a todos e todas que pudessem ouvi-lo: “A guerra, em minha opinião, nunca foi e nem é solução. Será, sempre, semente para uma nova guerra” (PAIXÃO, 2004).
Pensemos, portanto, que se há heroínas e heróis nestas guerras, também, elas geram órfãos e reféns, vítimas da intolerância, da charlatanice, da falsidade e da simulação. Diferente da falsa devoção de tantos e tantas que se exibem como heróis e heroínas, quem sabe saudamos a simplicidade e o reconhecimento do que está circulando nas mídias eletrônicas da internet: “A melhor rede social ainda é uma roda de mate com os amigos”.

Acampamento Farroupilha, Porto Alegre, 13 de setembro de 2014.
Dilmar Paixão                       

Um outro papo.

            Já há alguns meses, estava distanciado deste espaço, por razões que não cabem decodificar agora. Percebi que era chegado o momento de voltar a compor este chasque, que é pampeano acima de tudo. A copa das copas, alguma quota nas quotas e, enfim, uma tropilha que brota como uma frota de esperanças na coxilha... Essas rimas são para saudar passagens importantes da contemporaneidade, que o silêncio, quase obrigatório quanto estratégico, me fez guardar por esse tempo, como sentinela vigilante na guarita que nos é destinada, a cada um, quando se inscreve no pelotão da vida.
            Começo por destacar a tarde chuvosa em que tomou posse a nossa nova Diretoria da Estância da Poesia Crioula, coordenada, agora, pelo poeta, escritor, radialista e pesquisador Wilson Tubino. Substituiu o Cândido Brasil, de uma brilhante administração, que organizou outros horizontes para a Academia Xucra do Rio Grande. O Presidente Cândido chegou de mansinho, mas pronto a conquistar avanços significativos para a entidade que, por tudo o que representa de cultura, arte e história, deveria ser melhor apoiada pelos poderes públicos e organismos oficiais. Fala-se até em financiamento de campanhas políticas, não é mesmo?
            Aliás, pensar nisso, é como rever cada um dos momentos do esforço grandioso que o Paulo Guimarães tem liderado à frente do Conselho Municipal de Cultura de Porto Alegre. Luta incansável, porque faltam muito mais do que sensibilidade para alguns ocupantes de cargos e funções públicas, que deveriam estar voltadas aos interesses, bens e serviços da coletividade. E isso, evidente, não é privilégio dessa Porto Alegre, que fica Porto Triste diante dessas manobras e “jeitinhos” escusos de maneabilidade. Tanto o Guimarães quanto o Cândido são desses idealistas que, de vez em quando, aparecem como os índios guaranis das Missões Jesuíticas, lutando de peito aberto contra o arsenal de armas defensoras de outras interesses, nem sempre nítidos e éticos, alguns mais políticos do que sociais lamentavelmente.
            “Hay os que se perdem por perder raízes que não acham mais”!
            “Hay os que se encontram por voltar às fontes dos seus ancestrais”!

            Estes versos, do Cenair, do Nilo e do Valdomiro Maicá, foram imortalizados já na audição inicial e ganharam o mundo na voz de outros artistas como o destacado Pedro Ortaça. Servem para muitos desses chasques, diante dos acontecimentos que pudemos vivenciar nos últimos tempos. É verdade mesmo: “há os que se perdem por perder raízes que não acham mais”. E como têm dessas pessoas. Várias que chegam a negar os laços parentescos ou suas origens de naturalidade.
            Da minha parte, fiz questão de visitar o Acampamento Farroupilha “extraordinário” (porque fora de época mais do que pela festividade e sucesso), cumprindo a minha responsabilidade natural e honrosa de amadrinhador do meu filho Arthur, como, com a mesma missão, percorri os bretes limitadores da Fanfest, nada a ver com fanfarronada ou “fifastança”, se possível fosse mesclar Fifa e festança. Pouco se disse no noticiário oficial e na imprensa do mundo sobre as diversas culturas regionalizadas do universo sociocultural brasileiro. Que pena! Muito mais poderia ter sido apontado, desde a acanhada e quase desenraizada solenidade de abertura da Copa. Os flashes da grande mídia pareciam esforçar-se para mostrar mais da imensa massa estrangeira e menos das manifestações e peculiaridades locais.
            “Hay os que se perdem por perder raízes que não acham mais”!
            “Hay os que se encontram por voltar às fontes dos seus ancestrais”!

            Certamente, esses versos teriam sentido apropriado, se os destinarmos para analisar o futebol e o esquema tático da seleção brasileira. Aliás, via feicebuque, uma coisa é a bandeira brasileira, o país representado; outra, a empresa que comanda o time da camiseta amarela. Contudo, isso é tema para um outro chasque, quem sabe. Oh, Felipão: que tal se você mantivesse as raízes que o fizeram tão campeão? Mas não é nada, Luis Felipe: “Há os que se encontram por voltar às fontes dos seus ancestrais”!
            E, se eu recomeço neste espaço do chasque pampeano, gentilmente cedido e idealizado pelo Guimarães, por esse hino às Missões e com a mesma Gana Missioneira de sempre é porque aqueles autores, na mesma estrofe, prosseguem ensinando sobre essa mais sublime das filosofias do coração galponeiro ao cantar as Missões:
            “E as encruzilhadas parecem caminhos a se afastar, quando, na verdade, são pontos de encontro pra quem quer voltar”!

            A veracidade é de que muitos e muitas perderam raízes e não mais as acham. Como o orgulho e as demais condições são determinantes limitadores para os/as que sucumbiram ao escravismo contextualizado, resta, a todos e todas as pessoas, o reconhecimento de que “para dar volta ao caminho, muita coragem é preciso” e que isso não é prática tão frequente quanto essas expressões discursistas de outros e outras.
            Enfim, alcemos a perna no pingo para bombear com decisão e força de vontade esses pontos de encontro.

Proseamos mais de outra feita.
Partenon, em Porto Alegre, 10 de julho de 2014.

 

Fora do Ar, mas nem tanto...
Dilmar Paixão
            Foi surpresa para os mais atentos encontrarmos o chasque pampeano, como explicou o nosso companheiro Paulo Guimarães, fora do ar por uma boa quantidade de dias. Motivos alheios à vontade dele e, certamente, de todos os leitores que têm o hábito de acompanhar as notícias do tradicionalismo e da cultura rio-grandense. Coisas da tecnologia... Um “servidor” que “desserviu” nossa comunicação.
Para alguns mais antigos, terá sido coisas dessas modernidades...
O fato é que, como o silêncio de uma reflexão nos fala tão profundamente, essa lacuna expôs várias significações. Recorto algumas, como o exautivo esforço individualizado de mais um idealista das nossas informações culturais, recreativistas e associativas, que nem sempre encontra ressonância nos poderes constituídos e tão discursistas em épocas eleitorais.  
Houve quem não soubesse que isso estava acontecendo, porque, de vez que mergulhado no cotidiano, nem sempre ergue o pescoço fora d’água para respirar o mundo. Talvez, um que outro, tivesse tentado acessar e desistido com a mesma tranquilidade conformada com que assiste nossos usos e costumes sendo substituídos por elementos distantes da tradicionalidade e sem preocupações de que conservemos autênticos os aspectos culturais da nossa gente para as gerações atuais e vindouras.
Chego outro pau-de-fogo ao braseiro e, no bater da cinza, visualizo a faísca de que o esforço do Guimarães, já de algum tempo, não foi em vão e, hoje, dispomos de muitas alternativas em outros sítios informando, recreando, garantindo entretenimento e divulgando músicas, notícias, poesias e fatos do gauchismo, inclusive, por outras partes do mundo, longe do Rio Grande do Sul. Ele tem parte importante nessa mobilização diária da companheirada.
Multiplicaram-se companheiros via internet trocando mensagens de diversos motivos dentre os quais a própria saudade da convivência com os amigos mais chegados. Vão e vêm mensagens saudáveis, saudosas e outras nem tanto, mas, por certo, integrativas e integradoras.
Se de um lado temos a TV Tradição, por exemplo, projetando de modo instantâneo eventos mais representativos do Movimento Tradicionalista e se proliferam emissoras de radiodifusão segmentadas em nativismo, é importante lembrarmos que ainda há entidades tradicionalistas e clubes sociais comunicando-se somente por telefones ou via correio convencional, ou fazendo uso – ainda – dos velhos cobradores de mensalidade. Como imaginar essas instituições com sites, blogs e outras agilidades da comunicação eletrônica ? E algumas dessas entidades não tem problemas econômicos para isso.
Faltou luz, o portão eletrônico ficou manual, a internet sumiu e nem o telefone fixo “fixou” qualquer coisa... Os nove andares da garagem ao apartamento deram-me a dimensão mais real de como a vida é facilmente influenciável a partir dos “velhos” cortes momentâneos de energia elétrica. Meu velho pai, o Seu Paixão, já escreveu - e fez sucesso – sobre isso. Hoje, basta um relâmpago mais forte ou um vento mais assanhado e lá se vai, por um bom tempo, a tal comunicação entre internautas... Poder-se-ia imaginar isso há alguns anos ?
Por isso, também, é que eu ainda conservo o bom e “surrado”, pelo uso, rádio de pilha. Fora do Ar, mas nem tanto... Bastaram poucos instantes e tudo se recompõe e, com a agilidade de um piazito ou uma menininha digitando o teclado ou a tela touch screen, o mundo voltando a desfilar com notícias de tudo e de todos.
Portanto, quero fazer desse comentário uma mensagem afetuosa de um abraço sincero ao ativista cultural – e atualizadíssimo sempre - Paulo Guimarães. É, mas a tropa é grande e os tropeiros, por mais que tentemos, continuam ficando escassos.
Nesta Semana Farroupilha 2012, no Acampamento montado em Porto Alegre, dois momentos me marcaram na paleta para não esquecer jamais: a minha irmã Dinara, entre outras personalidades como a Patroa do 35 CTG e a dona Nilza Lessa, esposa do Barbosa Lessa e Patrona dos Festejos deste ano,  foi, mais uma vez, reconhecida (já tem se constituído em hábito...) e homenageada pelo seu esforço idealista em prol da cultura do povo rio-grandense. O Governo do Estado e a Secretaria das Políticas para as Mulheres bancaram um bonito troféu que está na galeria da nossa família na cidade coração do Rio Grande do Sul.
O outro momento, mais introspectivo, reuniu organizadores, autoridades, autores e artistas no lançamento da XV Tertúlia Musical Nativista. Pudemos recordar das primeiras edições na Associação Tradicionalista Estância do Minuano. Depois no cinema. Mais tarde, no ginásio e, na 8ª edição, sob o comando do Mucha, no palco do cinema e no ginásio de modo articulado, numa das mais memoráveis iniciativas de popularizar o evento.
Lembrei-me da minha transferência de Cachoeira do Sul, por intervenção do Pe. Paulo Aripe para que montássemos a primeira equipe de transmissão de festivais nativistas do rádio em Santa Maria. Bons tempos, grandes recordações, muitos quilômetros de poeira, sol, chuva e estrada. Horas e horas de locução ininterrupta, informando o máximo de tudo o que acontecia ao nosso redor nos festivais nativistas desde os acordes iniciais, por muitos anos. Entrevistei nomes de expressão mundial como Mercedes Sosa, que, embora não fosse muito afeita a entrevistas, aceitou conversar animadamente conosco e consentiu que eu fizesse o registro das suas palavras num “gasto” gravador de pilha e fita cassete. Tantas preciosidades recolhidas na convivência dos festivais.
Pois, a Tertúlia está de volta, lançada no Acampamento Farroupilha deste ano. A Oristela Alves, empurrou, por momentos, os compromissos documentais, para cantar. O Jonessy Nunes mostrando que mais do que desenhar, quem tem talendo, toca violão, canta e encanta, como diz o jargão. Enfim, uma delegação motivada e alegre que não se intimidou com a chuva torrencial no acampamento e veio garantir “oxigênio” da Tertúlia revigorada.
Fica o registro saudoso do desaparecimento da irmã do Jayme, a Zélia Braun, que deixou a Rádio Aliança e se foi para “Chimarrear com Deus”. Vez por outra, essas notícias acontecem...
Em frente Guimarães, prossiga Chasque Pampeano. Um que outro pealo de cucharra, não é nada p´ra quem sabe da lida.
E, para não parecer que nós gauchescos estamos “fora do ar”, reponto que, enquanto alguns fazem “planking” (“um tipo de meme que rola na internet”), eu e outros fazemos “owling”, que ganha força pelas redes sociais.

Até uma próxima prosa.     

Partenon, Porto Alegre, 18 de outubro de 2012.
Dilmar Paixão          

A Utilidade das coisas simples do cotidiano...

                O Gaúcho da Fronteira, renomado e genial expoente da regionalidade artística gauchesca, entre as letras e melodias do seu repertório, tem uma composição simplificada e popular denominada A utilidade do dedo. Mais do que o aspecto espirituoso e burlesco, a letra nos propõe pensar sobre, como ele mesmo diz, “as tantas utilidades que, na vida, têm os dedos”. Bueno, “no escuro, primeiro se leva o dedo para procurar claridade”; “...p´ra tocar violão e gaita...”, além de outras lembranças oportunas do Gaúcho, mas nem sempre contempladas pelo pensamento contextual e globalizado. Escaparam – e não seria diferente - abordagens como a datilografia e a digitação ou as modernas telas tecnológicas da sensação tátil, tipo IPOD e IPAD, que nem existiam na época da gravação daquele seu sucesso musical.
                Uma antiga fita cassette, fita magnética para gravar áudio inventada na década de 60, que eu encontrei por acaso numa dessas reviradas de gaveta no final de semana, fez-me recordar da participação juventudista e o próprio uso e desuso de imposição indefesa ante a modernidade. Aquela fita cassette, com seus dois carretéis, também foi vitimada por isso.
A questão essencial desta recorrida é a de que, não apenas objetos como esses, ficaram ultrapassados pela ansiedade evolutiva. Como se permitisse dizer, as pessoas foram praticamente objetificadas e, decorrentes disso, receberam a classificação de obsoletas. No CD Paixão em Família, há um poema em que eu abordo um pouco disso: Uma Oração pela Paz. Se quisermos ir logo adiante podemos, sem grandes esforços, identificar que até algumas instituições mais tradicionais igualmente vem sendo atacadas, desmontadas, destroçadas e forçadas a se tornarem objetos, quem sabe no intuito de serem descartadas e desprezadas por desuso ou estarem obsoletas.
É o ser humano doente, sem conseguir ser família. Pela paz não há vigília que acorde essa gente. Legiões de pessoas carentes, órfãos de fé e de alegria são reféns da hipocrisia, do poder do braço forte, ditando penas de morte para impor sua soberania. Estes versos, que tiveram o acompanhamento musical do Arthur Bonilha e a produção artística do Beto Caetano no CD que eu referi e que me é muito afetivo pela participação da família de hoje, quer remeter ao compromisso - que é de todos - e que precisa ser mais bem compreendido pelo universo dito tradicionalista, diante de tantos gaúchos de nascimento ou adoção esparramados pelo mundo.
Se o tradicionalismo é a tradição em movimento, como se aprende em vários escritos disponíveis na literatura regionalista gaúcha, inclusive no livro do Seu Paixão “O que é MTG: questionamentos e perspectivas”(2004), precisamos examinar com critérios mais específicos e criteriosos o que deve mesmo ser descartado e rotulado de não ter mais utilidade. Este mesmo livro já alertava de que “o inimigo de hoje não grita mais na coxilha, mas está junto de nós para destruir nossos valores...”(PAIXÃO, O que é MTG, 2004). Podemos ir a 1912 e aprender com Cezimbra Jacques: “Abraçar sem reservas, imprudentemente, sem meditação, o que nos vem de fora, além de sermos qualificados de volúveis, estamos cavando a nossa própria ruína” (JACQUES, 1912).
“O velho – no dizer de Paulo Freire – que preserva sua validade ou que encarna uma tradição, marca uma presença no tempo e continua novo”(FREIRE, 1998). Por isso, vou de volta ao encontro do Seu Paixão: “Alerta companheiro! A propaganda, os falsos valores, os maus comunicadores e os modismos não podem esmagar a cultura espontânea que brota do seio deste povo. Coerência e gauchismo são predicados que combinam”.(PAIXÃO, O que é MTG, 2004, p.34)
Resta citar a esperança e a confiança no porvindouro, apostas da visão prospectiva do educador, ambientalista e pesquisador francês Jean-Michel Cousteau: “Os melhores investimentos que podemos fazer hoje são nos jovens, eles são como esponjas e são os futuros tomadores de decisão, e farão melhores escolhas do que nós fizemos”(COUSTEAU, Bens & Serviços, 2010, p.20).
Recorro, por derradeiro, ao examinar cuidadoso que aponta: “O carrapato no lombo do boi, o pernilongo sugando o homem e este matando a natureza. A vaidade e o personalismo precisam ser tocados com rédea curta e mantidos na ponta da picana do carreteiro. Todo o cuidado é pouco. O bom senso é recomendável !”(PAIXÃO, O que é MTG, 2004, p.25). Diante dos desafios do mundo, como eu disse na apresentação deste livro do Seu Paixão, a Dinara e eu fomos educados no amor, no respeito e na arte de conviver com liberdade e inteligência. Pudemos aumentar o alcance das intenções do pai, professor e amigo; agora, o avô do Arthur.
Pensemos bem, portanto, nas adversidades, na maturação dos sotaques e no que se pretende descartar. Quem sabe se ouve e se pensa um pouco na utilidade de coisas simples do nosso cotidiano, como os próprios dedos, proposta na composição indicada no início desta prosa.
Até outra oportunidade nesse espaço da generosidade do Paulo Guimarães; querendo Deus.

Partenon, Porto Alegre, 04 de maio de 2012.

Dilmar Paixão                  

 

Ah, palavra empenhada...
Dilmar Paixão
            Retorno mais uma vez – e pilchado com a alegria – a compartilhar ideias neste chasque pampeano que, como fazemos eco desde o início, tem muito da gentileza do Paulo Guimarães a este peão do Rio Grande.
Nestas andanças pelos campos do cotidiano nem tudo foi planície e campo largo; teve muito de potreiro, mangueira, rodeios e campereadas que, voluntária e involuntariamente, atropelamos pela vida a cada dia, numa gineteada capaz de desgastar esforços e aniquilar estímulos, mas sob a proteção do Patrão do Universo e a herança do que aprendemos a cultuar.
Aproveito o final de semana da Festa Campeira do Rio Grande do Sul, em Canoas, para propor o pensamento sobre a imensidão dos costumes e dos valores tradicionais da alma rio-grandense, muitos dos quais, são esquecidos e desprezados, com as mais variadas desculpas, tão esfarrapadas quanto foram as vestes dos nossos farrapos de antigamente.
Se antes bastava o acordo e a palavra empenhada como a um fio de bigode, a modernidade nos trouxe outro efeito pouco recomendável: nem mesmos os compromissos, os contratos escritos e as relações legitimadas merecem a consideração e o respeito de antigamente. A novela da assinatura para construção de um novo estágio de futebol do Internacional ultrapassou todos os tempos previstos e os anúncios confirmados pelas lideranças envolvidas e serve de exemplo.
Nem mesmo a participação de autoridades constituídas foi capaz de garantir e agilizar o que precisava ser acertado. Isso que há dois Centros de Tradições diretamente implicados nos dois maiores clubes futebolísticos do nosso Estado, merecidos Campeões Mundiais: o Lenço Colorado e o Tricolor dos Pampas. E há quem lembre que os principais contatos representativos entre gaúchos e os visitantes, ao melhor estilo da hospitalidade gauchesca, é em torno de um suculento churrasco e com a oferta do chimarrão.
Se até há pouco, era possível reclamar-se da falta de cumprimento à palavra empenhada e dos contratos formalizados, podemos reconhecer com tristeza que há pessoas interessadas em que se exclua também o exercício e o emprego da palavra. Assim, não é suave o balanço das relações sociais e nem há remanso na solidão daqueles que compreendem os passos a serem dados para a sequência dos dias. E houve um tempo em que se reconhecia a origem das sociedades a partir das famílias.
Neste sábado, 17 de março, a sede da Estância da Poesia Crioula lotou pela existência de mais um Encontro Cultural sob a coordenação do Presidente ágil e atuante Cândido Brasil. A pesquisadora e escritora Elma Santana teceu considerações e falou das suas experiências entrevistando parteiras e benzedeiras em um trabalho que contou com o apoio e patrocínio do Sindicato Médico. Os associados da Estância da Poesia Crioula celebraram suas homenagens ao dia internacional da mulher.
Manifestações de muitos vates e seus convidados comentaram o valor cultural agregado à socialização da roda de chimarrão, dos galpões às salas dos apartamentos e outros ambientes de convivência. O Leal, o Tubino, o Portalete, poetisas e poetas ressaltaram esse hábito de chimarrear, visitando, desde os primórdios da relação indígena e jesuíta aos nossos dias e às infâncias e ao crescimento de todos independente dos sonhos e realizações profissionais e familiares daqueles convivas.
A exigência ritualística e de tempo para a confecção do chimarrão e o princípio de que não se mateia sozinho, que é preciso companhia, somam-se como alternativa importante para esses casos onde tanto o diálogo quanto a palavra empenhada vêm sendo sistematicamente abandonados e desfeitos em troca de interesse nem sempre os mais legítimos.
Plantas e colheitas deram safras novas de contextos multifacetados que, se de um lado nos apontam avanços, por outra margem precisam favorecer o pensamento se é preciso somente olhar para a frente, sem rever idéias, ideais, costumes e valores humanos e sociais que, por essa tradicionalidade, nos trouxeram até aqui.
Para os que conseguem parar a escutar nossos poetas mais significativos, sugiro Fio de Bigode, do Antônio Augusto Ferreira e do Canário. No Encontro mesmo, foram citados versos da Seiva de Vida e Paz, do Silvio Aymone Genro e do João Chagas Leite, poema que já citamos num outro chasque neste mesmo espaço do sitio eletrônico.
Se as folhas ficaram secas pelo calor fatigante ou pelo outono dos dias, resta a todos os tradicionalistas e aos ligantes da sensibilidade com a cultura, um pensar reflexivo urgente para que se possam recuperar no seio da sociedade e das instituições e nas decisões das autoridades, os valores, os princípios, as diretrizes como a dignidade, a virtude, a honradez e, porque não, o respeito à palavra empenhada e às combinações feitas. Afinal, se a pronúncia pode confundir, a escrita difere muito mais do que uma letra: a palavra empenhada não é sinônima de palavra emprenhada. Saibamos estar alertas. De há muito se tem dito que o inimigo de hoje não grita mais na coxilha e está sempre por perto – até junto de nós, aproximados pelas fraquezas muitas vezes – para esvaziar açudes, poluir nossos rios e destruir nossos sonhos, planos e atividades, como a matar a vida e exterminar a natureza dos seres vivos.  
Valorizemos mais, as manifestações culturais e as nascentes constitutivas da nossa sociedade. Símbolos, costumes e tradições não podem ser desprezados, num repente, pela vontade extemporânea individual ou de uma minoria barulhenta por cima das intenções dos coletivos. Ah, palavra empenhada... Se tu pudesses voltar como hábito e costume do nosso povo, estaríamos muito modernos, porque os próprios apelos conservacionistas da natureza recomendam que se imprimam papéis somente se houver necessidade e daí teríamos uma grande economia. Isso, se fosse possível que as pessoas respeitassem a palavra empenhada...
Proseamos mais de outra feita.
Partenon, em Porto Alegre, 17 de março de 2012.

Dilmar Paixão

A MORTE NÃO MARCA HORA...


Dilmar Paixão*
                Agora foi a vez do José Cláudio Machado. Eu soube do lamentável ocorrido de hoje já noite alta através da informação divulgada pelo Hilton Araldi, o Paulo Guimarães e o Léo Ribeiro. Aos poucos, outros companheiros foram acumulando manifestações sobre essa tristeza de todos. Se “a morte não marca hora” como dizia o compositor, pelos versos de outro poeta se declamava que “...amanhã será um de nós”. E é e continuará sendo assim: “a morte vive a pealar gente buena”.
                Se existisse consolo, restaria lembrarmos que essas personagens não morrem jamais, porque em tempos bravos se inscreveram entre a intelectualidade simples dos nossos cancioneiros, pela pureza dos temas inspirados e através da convicção tão gauchesca quanto vigorosa de defender suas idéias. Li no texto do Guimarães que “nem bem o Rio Grande se despediu de Rui Biriva e já tem a dor do luto pelo Zé Cláudio”. Prefiro estender o poncho da reflexão para saudar a obra artístico-cultural de ambos.
                Houve um tempo em que andar pilchado era grossura e que os jovens modernos jamais tomariam chimarrão para não serem taxados de cafona e fora de moda. E muitas exclusões e segregações foram feitas com esse tipo de discurso evolucionista. Muitos tradicionalistas eram contagiados por essa “modernidade” oportunista a ponto de, alguns, recusarem as próprias origens na campanha, na serra ou na fronteira, no mundo campeiro do interior rio-grandense.
                Tanto o Rui, quanto o Zé Cláudio e muitos dessa estirpe foram contribuintes diretos para essa mudança. Das rodas de mate e tertúlias ao redor do fogo dos galpões aos palcos dos festivais, uma nova forma de cantar a querência e o amor gauchesco em sua plenitude enriqueceu o nosso cancioneiro. Imortalizaram-se milongas, toadas, canções de projeção folclórica e manifestação rio-grandense, mas, ao lado, estava a música campeira com bugios, chotes, vaneiras, vaneirões e rancheiras firmadas pelo compassar dessa convivência artística com os nossos países vizinhos mais próximos.
                O cuidado melódico, a rima rica, o tema pesquisado, a interpretação criteriosa e a vivência pura do amor à esta terra ergueram novas bandeiras de irmandades e culturas. Vez por outra, o humor e a sátira faziam parte dessa orquestração. Foi assim que eu viajei todos os fins de semana por muitos anos na cobertura dos festivais nativistas; um e até mais de um em algumas semanas. A Califórnia da Canção Nativa inaugurou com destaque esse novo tempo. Depois, a Tertúlia Musical Nativista, a Coxilha Nativista, a Seara, o Carijo, o Chimarrão e se foram muitos LPs que enfeitam nossas discotecas. Foi uma festa quando chegou o CD. E o DVD, então, ainda causa fascínio entre artistas e público consumidor.
                Mas, o mesmo tempo que consumiu muitos dos nossos festivais, hoje, tem levado alguns desses artistas mais famosos... e mais do que um. Numa brincadeira, que já recebo com mais freqüência, ouço que é o DNA, como referência à data de nascimento antiga. Vou procurar ficar aliado àqueles que argumentam outra justificativa: nomes como esses, do Zé Cláudio e do Biriva, não morrem; permanecem imortalizados pela lembrança de quem os conheceu e aplaudiu em espetáculos ao vivo, ouvindo e cantando junto nos LPs, nos CDs, nos DVDs e nas múltiplas mídias eletrônicas que forem inventadas daqui p´ra frente. “Vai o homem, fica o nome”, diz o ditado popular. Prefiramos, portanto, imaginar que seguem entre nós e que fizeram uma passagem de cancela ou cruzaram um rio a nado, porque, além do mais, ora, se a morte não marca hora, podemos optar por não recebê-la. 

Que, com menos dores, possamos prosear mais num próximo Chasque.
Partenon, Porto Alegre, 12 de dezembro de 2011

 


Dilmar Paixão  -  Escritor, Poeta e Professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul-UFRGS; Membro da Estância da Poesia Crioula, da Associação dos Amigos da Tradição e Folclore e da Sociedade Partenon Literário.  

 

O dono do pingo

Dilmar Paixão

 

“Em cada ronda da vida, eu tive um pingo de lei...”

 

A construção intencional deste poema sempre me causou espécie, quer por sua natureza, quer pela qualidade dos versos elaborados cuidadosamente por seu autor. Eu era piazote, quando aquele senhor de certa idade entregou-me um livreto publicado pela Assembléia Legislativa com a poesia “Gesta de um Clarim”. Num encontro seguinte, ele veio conversar comigo e, como eu já havia lido e comentado sobre o gosto dos versos, recebi a cópia de um outro poema denominado “Pingos”.

 

“Montado sou como um rei, pelo garbo e o entono.

Cavalo pra mim é um trono: e neste trono me criei...”

 

Mesmo que eu não tivesse tornado meu poema favorito para os troféus que obtive nos concursos de declamação, volta e meia, pegava-me recitando-o e imaginando como seria a minha trajetória de vida se fosse ligada ao pingo como naquela poesia. Redações no colégio, provas nas faculdades, algumas oratórias e lá estavam as mensagens espargidas pelo poeta Guilherme Schultz Filho. A cada novo encontro com o autor, eu recitava pelo menos o início do poema.

 

Mais tarde, os amores e o mundo dos adultos:

“Já mocito, o meu cavalo era um ruano, ouro nas crinas,

festejado pelas chinas que o chamavam “Sedutor”!

 

Com a evolução dos dias, o casamento, a família e o filho:

“O cavalo que encilho nesta quadra da existência,

dei-lhe o nome de Experiência...”

 

O tempo, a idade, as pessoas, o mundo, as experiências e, finalmente, um novo encontro para o qual fui pego de jeito, desses pialos que não tive como escapar. Primeiro, porque era a edição inicial de um concurso literário, combinado com a inauguração de um museu e da biblioteca; depois, porque entre os organizadores estava o Fraga Cirne, competente, idealizador, mas, sobretudo, coerente na escolha dos jurados, para que estivessem habilitados - cultural e sensivelmente - no julgamento dos dezoito concorrentes.
Há, no entanto, duas razões inerentes e que saltaram à frente como principais: o Arthur trouxe-me a correspondência já aberta e com o incentivo para que eu participasse, porque, da vez anterior, havia vencido o Rodeio de Poetas da Estância da Poesia Crioula, nossa conceituada Academia Xucra do Rio Grande do Sul. Como já estava preparando aulas no computador, foi ler, abrir um novo arquivo e redigir o poema - que veio pronto.
Todavia, as coisas não são de todo fáceis. Num ato abrupto, injusto, irresponsável e surpreendente, com características plenas da época das piores ditaduras e de intervenção, afastaram-me do que eu mais queria e gostava, tornando inacessível a retomada do arquivo com o poema. Foi quando, a juventude combinou-se com a inteligência e a esperteza, fazendo com que chegasse ao meu email os rascunhos originais do poema. Quem ? Ora, um Paixão mais novo, o mais novo deles segundo o próprio Paixão Cortes e, por isso, merecidamente, o herdeiro verdadeiro do Troféu de 1º Lugar.
Na noite de premiação, entreguei ao Arthur Xavier da Paixão, o Troféu Guilherme Schultz Filho, que ficará para que, um dia compartilhe essas lembranças com nossos descendentes que hão de saber valorizar cultura, arte e sensibilidade, talvez mais do que muitos consórcios de hoje, travestidos de inteligentes.
Agradecendo os cumprimentos recebidos dos amigos e companheiros de causa e vivência, com o pedido de perdão por essa derrapada custada pela intimidade e a recomendação para que leiam “Pingos” e sintam a beleza do poema do homenageado facilitando a compreensão do nosso trabalho “O Pingo e o Dono”, cerro as varas da porteira com um dos principais consolos que me restam junto com a companhia do Arthur-piá e dos meus entes mais queridos da família: o verso e o mate.

 

Na, Crioula, Academia

inspirava o verso e o vate,

que, enquanto sorvia o mate,

trançava nova poesia,

dessas que a alma bravia

pesa feliz por quilates.

 

 

Proseamos mais, querendo Deus, num próximo Chasque desses que a gentileza do Guimarães nos proporciona.

 

 

Atlântida, 05 de maio de 2011

 

“Um sonho se realiza se, com fé, a gente o deseja...”

Dilmar Paixão

As Nações Unidas designaram 2011 como o Ano Internacional das Florestas e o Ano Internacional da Química. Inicia o mandato de Dilma Rousseff como Presidenta da República Federativa do Brasil, a 36ª pessoa a ocupar o cargo e a 1ª vez que uma mulher assume tal incumbência.

Entre os megaeventos, de 23 de setembro a 02 de outubro, ocorre o Rock in Rio IV no Brasil. Das promessas do mundo, a Califórnia promete abrir a maior fábrica de energia solar do mundo; são esperados vários veículos elétricos para entrar no mercado dos automóveis e, durante a 24ª Conferência Geral de Pesos e Medidas, há a probabilidade de anúncio de uma nova definição do quilograma, baseada em constantes universais.

Podería-se comentar que as tropas dos Estados Unidos estão previstas para sairem do Iraque, porém, somente no último dia do ano, a 31 de dezembro. E a ciência não pára: o Paquistão lançará seu primeiro satélite; haverá conjunção entre Júpiter e Urano já a 2 de janeiro; eclipse solar parcial visível na Península Arábica, Norte da África e Ásia ocidental no dia 4; eclipse solar no Ártico a 1º de junho e, no dia 15 de junho, eclipse lunar total visível na África, Índia e Oriente Médio. A 1º de julho e 25 de novembro tem eclipse solar parcial na costa da Antártida e dia 10 de dezembro, a eclipse lunar total visível na Ásia, Austrália e Alasca. A data de 18 de março, então, tem grandes prognósticos: a sonda Messenger chegando na órbita de Mercúrio e a sonda New Horizons cruzando a órbita de Urano, depois de uma viagem de cinco anos, com o marco de ser a chegada mais rápida ao planeta já que a Voyager 2 levou 8 anos.

Quem sabe se comenta que 2011 marca dez anos dos ataques de 11 de setembro/2001 ao World Trade Center; que a XXVI Jornada Mundial da Juventude acontecerá de 15 a 21 de agosto em Madri, na Espanha; o Carnaval a 08 de março ou, ainda, a realização no Brasil, em São Paulo , dia 12 de setembro, do concurso Miss Universo 2011...

Enfim, este MMIX do calendário gregoriano, não bissexto, é mais um ano novo e, desde guri, nesta época, aprendi a repensar o tempo que se vai e a saudar esperançoso o que chega. Piá taludo, li e ouvi Jayme Caetano Braun, que, em 1995, nos presenteou com a Payada do Ano Novo.

Percebam que não há muita coisa diferente a se acrescentar nesta época. É a mesma dificuldade para os textos nos cartões de boas festas:

Feliz Ano Novo – indiada !
Feliz Ano Novo – gente !
É a maneira reverente
De iniciar esta payada,
Nesta hora iluminada
De pátria e de melodia.
E o payador se arrepia
De tradição campesina
Na primeira sabatina
Do ano que principia!

Esta sabatina é a referência ao Programa Brasil Grande do Sul na rádio Guaíba, aos sábados, e aos desafios de comentar o cotidiano em versos.

E prosseguiu o nosso maior Payador com a mais pura das verdades, de que ele não precisava e não usava de cerimônia:

Cerimonia não preciso
Para cantar - quando falo,
Porque nasci de a cavalo
No lombo de um improviso.
Canto até o dia do juízo
No estilo missioneiro
E o meu verso galponeiro
Dispensa qualquer prefácio,
Tanto entra num palácio
Como num rancho posteiro!

O Ano Novo - parido,
Anda aí - fazendo as suas,
Pelos campos - pelas ruas,
Potrilho recém lambido,
Inda não tem apelido,
Porque é meio bagualão,
Difícil de dar a mão
E bombeando desconfiado
Como china de soldado
Em tempo de "prontidão"!

Os homens do mundo inteiro
Fizeram ajuntamento
Pra assistir o nascimento
Desse piazito janeiro
E, aqui no pago campeiro,
Toda a indiada se reuniu
E - reverente - assistiu,
Com ternura - com afinco,
Pra ver o "noventa e cinco"
Que a noite grande pariu!

 

A tradicionalidade, que tanto caracterizou a obra do Payador, sempre fez fiel os aspectos comparativos da atualidade com o passado e dos costumes campesinos com a vida na cidade.

Aqui no povo - as famílias,
Fazem o tal "reveillon",
Mas lá no campo - onde o som
É o do vento nas flexilhas,
Nós só fazemos vigílias
Quando se reúne a pionada,
Na volta da madrugada
Ouviu-se um berro de touro,
O ano macho - em vez de choro,
Já nasceu dando risada!

Sendo macho - é sempre assim,
Já nasce enrugando a testa,
Porque não vem pra festa
"De circo de borlantim";
- Esse vai ser de cupim,
Gritava um índio de lá,
Vai ser "buerana" esse piá,
Se não der urucubaca,
Umbigo cortado a faca
E enleado num xiripá!

Eu ia bombeando o céu
Na hora do nascimento
E ouvindo o choro do vento
Num barbaresco te-déum,
Depois - tapiei o chapéu,
Meio pra espantar o sono,
Memoriando - com entono,
Do índio da timbaúva
Que Ano Novo é como chuva,
Não tem patrão e nem dono!

Entre um trago e um amargo,
Recostado num esteio,
Bombeava o piazito feio,
Mas taluda - sem embargo,
Sentindo no campo largo
Cheiro de pasto e incenso
Naquele desejo imenso
De que este ano que nasce
Faça que o homem se abrace
No amor da paz e o bom-senso!

O sonho e o apelo pela paz e o bom senso para contagiarem de humanismo as pessoas do mundo inteiro são uma das lembranças – talvez – das mais cantadas pelos poetas. Essa mensagem atualíssima motiva, nessa época, as viagens de reencontro, ora do próprio passado, ora dos familiares distantes. Grifo dois dos seus principais versos nesta Payada: “ Mas um sonho se realiza se - com fé - a gente o deseja... ”

Isso é um sonho, talvez seja,
Do payador que improvisa,
Mas um sonho se realiza
Se - com fé - a gente o deseja,
Mas - pra mim - que tenho a igreja,
No altar da geografia,
Guardo essa filosofia
De cruzador sem parança:
Se não houvesse esperança
Tudo que é pobre morria !

Mas vou dar uma cruzada
Lá pras bandas de São Luiz,
Onde deixei a raiz
Pra todo o sempre encravada,
Terra santa - colorada,
De sangue guasca tingida,
Terra mil vezes querida
Morada de São Sepé,
Ali onde a indiada de fé
Nasce com a alma encardida!

Cruzando o Piratiny
Vou ver as pedras no fundo,
Santo pedaço de mundo
Que deixei - mas não perdi.
Voltar, de novo, a guri,
À infância e adolescência,
Rever, de novo, a querência,
Num verdejo espiritual,
Meu velho pago natal
Onde mamei inocência!

Depois - seguir olfateando
Os recuerdos de criança,
Procurando a sombra mansa
Onde me criei tropeando
E - logo adiante - cruzando
No Passo da Laranjeira,
Lá onde uma bugra parteira,
Segundo o ritual antigo,
Fez enterrar meu umbigo
Na raiz duma figueira!

Depois - matar a saudade,
Se é que a saudade se mata,
Bombeando a lua de prata
Tropeando na imensidade,
A infância e a mocidade
E as ânsias deste índio cuera
E as flores da primavera
Que - sem querer - esmaguei
E os sonhos que não domei
Lá no "rincão da tapera"!

Mas paro - porque a emoção
Já me fez perder a calma,
Tenho urumbevas na alma
E um cerro no coração,
Há um chamado de amplidão
Que para longe me toca,
Atração que convoca
De acordo com as velhas leis
Vou dançar ternos de reis
Nos ranchos da bossoroca!

 

Se me reportei ao saudado e reconhecido payador e poeta Jayme Caetano Braun foi com a intenção de associar memórias e notícias da contemporaneidade. Comecei este texto chimarreando no domingo e ouvindo o rádio pela internet. Quem imaginava o rádio via computador, que isso seria possível um dia ? Bueno, parei o texto indignado com a informação e a reclamação – corretíssima – do Paixão Cortes, ao vivo, no programa do Dorotéo pelo canhão midiático da Rádio Gaúcha. Informou a maior referência tradicionalista em pesquisa, recém Patrono da Feira do Livro: “Embora todo o conhecimento disponível, a imprensa oficial do MTG está usando símbolos natalinos nada representativos do natal gaúcho, o que é um desconhecimento inaceitável e absurdo!”
Fica apenas o registro, concordando e aplaudindo a coragem do mestre Paixão Cortes, posto que tenha me distanciado desse setor, de algum tempo, e fiz isso por discordância com os rumos seguidos e em reunião do Conselho Diretor do MTG, no que tive o apoio e a companhia de outros comunicadores da cultura gaúcha.
Retomando a prosa, se hoje temos designado que o ano de MMXI será destinado às reflexões, campanhas e discussões pelas florestas e a química, com tantos avanços evolucionistas, embora tudo isso, ainda precisamos ressaltar os sonhos de esperança, de paz e de bom senso.
Nossos valores mais autênticos e mais sublimes podem servir de esteios ao conjunto da sociedade humana, no entanto, necessita-se que a sensibilidade faça parte mais presente na vida das pessoas. Independente do nível de escolaridade, livre de formulismos e convenções de cartas marcadas ou exigências regulamentares, aproveitando a simbologia que o novo ano representa “MMIX”, vale propor que façamos um M MIX de combinações mais sensíveis e humanas. Afinal, como cantou o poeta maior do gauchismo: “... um sonho se realiza, se - com fé - a gente o deseja ”.
Da minha parte, agradecendo este espaço cedido pelo Paulo Guimarães para o nosso Chasque, repito os votos tradicionais às prendas, aos peões e às patronagens:

Feliz Ano Novo – indiada !

Feliz Ano Novo – gente !

 

 

Gravataí, Verdes Campos, 27 de dezembro de 2010.

Dilmar Paixão

ELEGIA AO JAYME CAETANO BRAUN

Neste dia 10 de outubro, por lembrança do comunicador Hilton Luiz Araldi, amigo que conheci através do companheiro de gauchismo Paulo Guimarães, celebra-se o primeiro aniversário da Estátua em homenagem Jayme Caetano Braun, na sua terra, São Luiz Gonzaga.

Em vista disso publicamos os versos a seguir, que constarão do meu novo livro a ser publicado em breve.

Lembrando Jayme Caetano,

aqui estamos companheiros.

Do improviso galponeiro

aos livros de sobreano.

Sempre ele, o ser humano

espontâneo, verso pronto.

O Jayme que eu encontro

tinha livro publicado,

era o poeta consagrado

das tertúlias, dos galpões

e do rádio, das missões,

conhecido em todo o Estado.

 

Eu era um piá declamando

versos dele nos programas.

Se o sentimento irmana

fomos nos aproximando.

Ele, o verso reafirmando

amor ao pago que afaga

e à sua São Luiz Gonzaga

“- a catedral das missões”.

O Jayme nos corações

é tento firmando a história,

raça, sangue e memória

pondo em pé as reduções.

 

Quem hoje pára e o relembra,

reencontra-o, poeta nato.

Até o mundo literato

se une ao peão e à prenda

porque o Jayme, esta legenda,

cantou os fatos da vida,

o rigor da dura lida,

rotina do homem do campo,

que o Jayme conheceu tanto,

tento por tento, a trançá-lo,

peleias, rodadas, pialos,

cenários cheio de encantos.

 

Trocou de pago e querência

como o destino assim quis.

Mas ele soube ser feliz

acumulando experiência.

Sobrou cavalo e consciência,

porque mesmo autodidata,

o Jayme foi o diplomata,

verdadeiro embaixador.

Não precisou ser doutor,

pois a sua faculdade,

fez rima com a qualidade,

Pós-graduado: Payador.

 

Bastou que novos chegassem

versejando estilos outros

para que o domador de potros,

xucros versos, preparasse

e logo se consagrasse

payador de pampa e arte.

Sucesso em toda a parte.

Brasil cruzando a fronteira...

Ante a payada estrangeira,

cresceu, debrau por degrau,

firmou-se Jayme Caetano Braun:

a payada verdadeira .

 

Não há quem lhe negue a cultura

e o seu nome por divisa.

O Jayme, que fez pesquisa,

retratou a criatura,

criticou a conjuntura,

do mundo e dos seus problemas,

denunciou até o sistema

escravizando os viventes;

defendeu os inocentes,

sempre à margem dos direitos;

combateu os preconceitos;

foi valente, entre os valentes.

 

O menino de São Luiz

jogou bola em Passo Fundo.

E depois ganhou o mundo

na capital. É o que se diz.

Ele soube ser feliz

do seu jeito, ao seu valor,

alargou o corredor,

se foi do galpão às casas

e hoje vem soprar as brasas

ao melhor estilo do vate.

Manter quente, a água do mate,

é homenagear o payador.

 

O galpão se faz igreja

da devoção nativista.

Oh! Jayme tradicionalista:

- sua benção, assim seja...

Volte à querência e reveja

aquilo tudo que amou.

O gaúcho te homenageou

guasqueando um verso astuto.

És rua, és praça, és viaduto,

paradouro, monumento,

és CTG e documento,

e o galpão do Instituto.

 

No centro da capital,

no salão nobre da Estância

da Poesia, é uma constância,

a saudade, é natural.

Estás jovem, ancestral,

pose de quem acredita.

Permita, pois, que eu repita

sua oração-galeria,

de que “a vida com poesia

fica muito mais bonita”!

 

 

Contudo ainda faltava

uma atitude genial

na sua terra natal

que ele cantou aos quatro cantos.

Foi erigido um recanto,

a partir da estátua enorme,

porque, embora não conforme,

os amigos, tanta ausência;

quando se volta à querência

e te vê imortalizado,

volta em versos, o passado,

como se tu, improvisando,

saudasse quem está chegando

com um chimarrão bem cevado.

 

 

Dilmar Paixão

Escritor, Poeta e Professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul-UFRGS; Membro da Estância da Poesia Crioula, da Associação dos Amigos da Tradição e Folclore e da Sociedade Partenon Literário.

 

 

A manipulação de agrotóxico e a saúde do trabalhador rural

 

Agrotóxico ou o praguicida foi a temática central de um trabalho de conclusão do curso de especialização em saúde do trabalhador da UFRGS, do qual fui honrado pelo convite para ser um dos professores da banca examinadora. Nota dez.
O trabalho em si e o seu conteúdo elogiável poderão ser conhecidos em breve pela busca no sistema eletrônico de bibliotecas da UFRGS, sob o título “Danos biopsicosociais no trabalhador rural: ação dos agrotóxicos”, da agora Especialista em Enfermagem do Trabalho Ana Carolina Kraemer.
A motivação para o seu estudo é o fator que pretendo compartilhar neste espaço cedido pela gentileza e amizade que sempre agradeço do Paulo Guimarães, diretor e editor chefe do Chasque Pampeano. Diz a autora: “por ter nascido no interior do RS e ter convivido num estabelecimento comercial que comercializava agrotóxicos, principalmente para a lavoura de soja, no qual o meu pai era proprietário”.
Faço esse destaque, por não ser alguém externo a essa realidade, e sim, uma pessoa convivente direta e intrinsicamente relacionada ao processo e que, como ela mesma cita, “observava que a maioria dos trabalhadores rurais que pulverizavam as lavouras, usando esses produtos, não utilizavam qualquer tipo de equipamento de proteção individual e desconheciam os efeitos nocivos causados pelos defensivos agrícolas em seu organismo”.
A pesquisa salienta que os agrotóxicos começaram a ser usados em escala mundial após a segunda guerra, quando África, Ásia e América Latina, países que tinham a agricultura como base de sustentação econômica sofreram fortes pressões dos organismos financeiros internacionais para adquirirem essas substâncias químicas, sobre a alegação de que esses produtos iriam garantir a produção de alimentos para o controle da fome.
A cultura de utilização intensiva de agrotóxicos no Brasil surgiu a partir do Plano Nacional de Desenvolvimento em 1975. Este plano “forçava” os agricultores a comprarem os agrotóxicos, através do crédito rural, na medida em que se instituía a inclusão de uma cota de agrotóxico para cada financiamento agrícola. Os pesticidas foram incluídos compulsoriamente junto com adubos e fertilizantes químicos nos financiamentos agrícolas.
No trabalho há citações de mudanças no ambiente e contaminação das comunidades de seres vivos no biótico e abiótico dos ecossistemas, com um levantamento pormenorizado de todos os aspectos ligados ao tema.
O que pretendo sublinhar neste espaço é a importância que as pessoas, as lideranças, suas representações, as instituições ditas sociocomunitárias e os responsáveis pelo poder gestor em todos os níveis de governo possam examinar suas decisões e as conseqüências dos seus atos com mais seriedade, autoconsciência e compromisso.
Não é possível que, com o nível de inteligência e sabedoria que a ciência contemporânea nos alcança, ainda sigamos aceitando regras, determinações e imposições externas. Lembro o Cezimbra Jacques, patrono do tradicionalismo, citado pelo Darcy Paixão, no livro O que é MTG: “abraçar sem reserva, imprudentemente, o que nos vêm de fora (...), além de sermos classificados de volúveis, estamos cavando a nossa própria ruína”. E esta afirmativa data dos idos de 1912.
Por isso, é tão importante analisarmos melhor nossas escolhas, nossos votos, a autorização que fornecemos àqueles escolhidos para nos representarem nos segmentos da democracia, da associação de moradores ao centro de tradições, do clube esportivo à comunidade escolar, da representação política eleitoral à procuração para que nos representem como indivíduo e coletividade.
Problemas como estes da abordagem que faço têm efeitos devastadores, agudos e crônicos, a maioria irreversíveis. É preciso, portanto, uma maior atenção, estudos mais aprofundados, avaliação criteriosa, análise dos textos e contextos, novos estudos e reflexões, para que se possa estar ciente dos riscos a serem impedidos.
Recolho, porém, um último reponte. Assim como fez a Ana Carolina, revisando e resgatando um pouco de sua trajetória pessoal e familiar, inclusive com seu pai já falecido. É importante recomendar que nossos jovens estudantes, peões e prendas das entidades tradicionalistas, filhos e filhas de pessoas simpatizantes do gauchismo, inclinem-se a estudar conjunturas vividas por si e pelos seus antepassados. Usos, costumes, hábitos, práticas antigas do exercício humano, escritos e saberes populares, de algum modo podem ser úteis no nosso cotidiano, desde que possamos estudá-los com o método científico disponível e com o interesse de quem quer saber mais para viver melhor.
Muito há o que precisamos examinar. Momentos podem ser criados para além da própria Semana Farroupilha, como fez o Guimarães nesse site de convivência com a cultura, a arte e os acontecimentos. Proponho seguir em outros momentos. Retorno, agora, à mangueira da práxis diária em atenção aos outros compromissos profissionais. Recomendo, por fim, um pensamento demorado sobre o que cantou o Cenair Maicá, num dos seus sucessos que, mais do que aplausos, precisaria ter desencadeado consciências e resolutividades para o sistema que, antes de ser de saúde, é de doença, porque, assim, historicamente foi concebido e pouco faz as autoridades públicas para torná-lo real em benefício da saúde e da qualidade de vida das pessoas.

“De que vale tanta ciência para o pobre agricultor, quando a própria previdência o esqueceu no corredor ? ” – interrogava o Cenair.

Cabe perguntarmos:

- resolveram-se os problemas ?

- Não. Claro que não.

Proseamos mais, pensando alto, numa nova oportunidade.

Até lá !

 

Gravataí, 19 de março de 2010

4

 

QUALIDADE, VERSATILIDADE E NOVOS MOTIVOS

 

Fui um dos privilegiados pelo convite para participar do coquetel de lançamento do Programa SOM BRASILEIRO, na Ulbra TV. Mais: recebi a honraria de manifestar os cumprimentos à emissora pela iniciativa do programa e pela aquisição do trabalho competente do Beto Caetano, o apresentador. Disse, além disso, da nossa alegria como admiradores da carreira artística do Beto por vê-lo completar esse seu desempenho no veículo de comunicação de massa que faltava, a televisão aberta, popular e coletiva.
Com os amigos do Beto, sua esposa, sua filha, seu neto, o filho e a noiva, a Direção da TV na pessoa de Ronaldo Lopes, e os produtores do programa, acompanhamos a estréia do primeiro programa que foi ao ar. O Guri de Uruguaiana, descontraído e inteligente como é de costume, provou o acerto da escolha do primeiro participante, para abrir o programa de estréia. O Grupo Trancaço, conjunto musical que surge de Gravataí para o sucesso, apresentou a autenticidade artística do nosso cancioneiro. Faço esses destaques para salientar a versatilidade que vem ser o pano de fundo dessas apresentações que ocorrem, tradicionalmente, aos sábados , às 14 horas, na Ulbra TV.
Num dos primeiros momentos foi possível perceber que o programa pretende ser fiel a uma das características mais importantes da arte, da cultura, da poesia e da musicalidade: a capacidade de ser livre, desde a criação ao contexto final. Esta liberdade se insere numa das peculiaridades mais marcante do Beto Caetano que é a sua condição de poder transitar por vários estilos diferentes da arte musical. Dentro da própria emissora e no segmento televisivo nacional existem pensamentos separatistas que procuram destinar um ou outro estilo para esse ou aquele programa. A proposta que já vem acontecendo neste Programa Som Brasileiro mostra que veio para ser diferente, alternativo, contudo oferecendo qualidade no desempenho dos seus participantes. Os telespectadores têm novos motivos para o horário vespertino do sábado: acompanhar o Som Brasileiro.
Ao ser cumprimentado pelo Beto, pude exercer a curiosidade jornalística e perguntá-lo como se sentia, depois dessa sua experiente carreira, na estréia como apresentador de televisão. A resposta não poderia ter sido melhor. Quem conhece e, particularmente, convive com ele sabe dessa sua espontaneidade. Ele me disse: “...me sinto um guri !”
Se lembrarmos que ele era um piazinho lá no interior de Unistalda quando começou, sozinho, a tirar os primeiros sons de uma gaitinha de botão emprestada e que, pouco mais tarde, foi se tornar o guri revelação de Santiago; depois, o gaiteiro do Conjunto Os Guapos, do Som Campeiro, do Trio de Ouro, passando por gaiteiro de programas de rádio e da televisão, logo no início desses programas gauchescos, e que, hoje, acompanha renomados artistas em seus espetáculos, como é o caso do José Cláudio Machado, do Teixeirinha Filho, do José Mendes Filho e do João de Almeida Neto, entre outros, reencontramos o Beto Caetano guri, renomado e renovado.
O Beto guri é a principal novidade, posto que, aprendi observando meu pai, que o neto é uma espécie renovadora de emoções ao avô. E o Beto já tem essa prerrogativa. Todavia, essa oportunidade que a Ulbra TV abona e recebe, como falei a um dos seus diretores naquela noite, traz a todos nós, seus amigos e admiradores, um novo Beto, um conceituado artista em um momento privilegiado da sua carreira, através da renovação inspirativa da qualidade de ser humano e de artista que ele é desde guri.
Unir essa versatilidade do Beto Caetano com a sua qualificação de músico, de compositor consagrado e de produtor de arte e cultura foi o grande mérito dos que pensaram e lhe apresentaram esse desafio do convite. A nós, resta aplaudi-lo mais uma vez, porque, a ele, nada mais falta, pela nova motivação que o Programa acrescentou à sua vida. Sorte sempre, porque o sucesso já o acompanha de há muito tempo.

Noutra feita, proseamos mais, pela gentileza que nos alcança o Guimarães, neste Chasque Pampeano.

 

 

Atlântida, 14 de fevereiro de 2010

Dilmar Paixão

 

AS SURPRESAS NADA SURPREENDENTES

 

Antigamente, há uns quarenta e poucos anos, ainda se participava das surpresas . Era um evento, um acontecimento especial, onde alguém que estivesse de aniversário era “pego de surpresa”, sem ser avisado. Os amigos combinavam-se e tudo era organizado para a alegria geral dos participantes. Tinha quem “furasse a surpresa”. Lembro de uma feita na qual, quando os “surpresistas” efetuaram os primeiros disparos, o dono da propriedade respondeu com tiros. Havia vazado a informação ou o aniversariante suspeitou corretamente de quando seria a surpresa.
Estou comentando isso como uma das tantas informações esquecidas e não conhecidas entre muitos dos meus amigos e companheiros de atividades cotidianas. Faço isso, porém, num outro intuito. De indicar que as pessoas mais atentas podem evitar certas surpresas.
O que assistimos no período recente do natal ao primeiro mês do ano novo não poderia ser considerado surpresa nem pelas pessoas comuns da sociedade quanto mais por aqueles que, na condição de gestores ou gerentes, tinham a responsabilidade de “furar as surpresas”. Estarem prevenidos, prontos para não serem surpreendidos ou, ao menos para defender-se e socorrer os menos favorecidos, era exigência mínima que, no entanto, foi adjetivada como surpreendente, tragédia, imprevisível e outros termos que lotaram as páginas dos jornais e os espaços de rádio e televisão. Até o comentário popular foi contaminado.
Proponho, portanto, um repensar: de tudo isso, nada poderia ter sido evitado ? Não há meios para treinar pessoas para se socorrerem ? Equipes foram pegas de surpresa ? Autoridades nunca fizeram planos para situações de urgência e emergência ? E as teorias de prevenção ? Treinamentos, capacitações, simulações não oferecem mais qualidade no atendimento das dificuldades ?
Agora que a poeira baixou e quase não se tem outras notícias das tragédias pelo mundo confio que alguns desses gestores públicos possam ter aprendido com os ensinamentos da natureza e do tempo. A se lamentar, as mortes, destruições, perdas irreparáveis e, principalmente, injustificáveis, por mais discursos e desculpas que sejam apresentados. Alguns tentam ser mais brilhantes e trazer a si holofotes e microfones num aproveitamento do espaço que deveria ter sido ocupado bem antes, na promoção de melhoria, no controle dos riscos e na prevenção dos danos.
Qualquer música dos festivais nativistas voltada à ecologia, muitos dos cantores do regionalismo gaúcho, outros autores da musicalidade brasileira, todos, de algum modo, salientavam como o canto do Honeyde Bertussi: “...a natureza não vai resistir !” Inúmeros poetas firmaram posições de alerta, sendo dispensável listá-los, pela oportunidade de acesso das pessoas internautas a esse tipo de informação.
Não disseram nossos poetas, porém, que, além da natureza, o ser humano também era frágil para resistir. Os exemplos são incontáveis. A debilidade da idéia da autoridade e seus assessores em cima da ponte que ruiu e o afogou na história. A busca da opinião dos técnicos, falando sobre as cabeceiras das pontes, os desmoronamentos, terremotos, o desgelo nada poético, tudo isso, pós-tragédias. Para uma opinião mais específica, a ponte de Agudo sobre o rio Jacuí tinha 134 metros e a sua reconstrução atingirá o dobro desse comprimento para uma travessia garantida. Meu pai, o Seu Paixão dos livros, “careca de tanto ler”, mostrou-me, naqueles dias, que historiadores desses livros que nem os sebos têm mais escreviam sobre a correnteza do rio Jacuí. Além da leitura faltou competência e visão a muitas dessas autoridades técnicas e políticas. O resultado, todos sabemos amplamente.
Faço esse registro, porque se somos saudosistas devemos sê-lo igualmente das coisas boas. Se antigamente as “surpresas” podiam ser “furadas” e a alegria reinava entre as pessoas, com tarefas distribuídas, organizadas, num mutirão de solidariedade, quem sabe possam ser mais bem ouvidas e analisadas letras como do Telmo de Lima Freitas quando escreveu “Surpresa”, muitos dos poemas do Jayme Caetano Braun (cuja data foi menos lembrada neste último 30 de janeiro de 2010) ou de tantos dos nossos textos e poemas do cancioneiro brasileiro, sulamericano ou mundial, como o Aparício Silva Rillo, o Vargas Neto, o José Hilário Retamozzo, o Antônio Augusto Ferreira, p´ra citar a gauchada.
Permitam-me que o meu orgulho filial cumprimente dois inspiradores do meu próximo livro: “De Pai p´ra Filho”. O Seu Paixão e o Arthur comemoram tempo neste encontro do mês de janeiro(24) com fevereiro(11), o que a Dinara tinha conquistado um pouco antes no dia 14 e o meu compadre Claudemir no dia 13.
Feitos os registros, tomara que pela previdência do povo e dos governantes possamos ser “surpreendidos” somente por coisas boas daqui para a frente.

 

 

Gravataí, 08 de fevereiro de 2010

Dilmar Paixão

 

 

 

Três anos de uma existência vigorosa em meio a muitas lembranças

   

Muitas comemorações e eventos especiais poderiam ser lembrados nesta janela que a tecnologia internauta proporciona a todos quanto se sintonizam nesta forma privilegiada de comunicação trazida pela modernidade. Neste mês, por exemplo, temos a lembrança de que Barbosa Lessa estaria completando 80 anos. Luiz Carlos Barbosa Lessa nasceu a 13 de dezembro de 1929, na cidade de Piratini, e morreu em Camaquã, a 11 de março de 2002. Folclorista, escritor, músico, advogado, historiador e tudo mais que a cultura rio-grandense não deixa esquecer. Esteve com Paixão Cortes nos primórdios da criação e, principalmente, da difusão que deu o impulso central a essa explosão geográfica do tradicionalismo pelo mundo.

Poderia citar como aplauso, a iniciativa do Programa Galpão Crioulo que reuniu Nico Fagundes e Paixão Cortes nas lembranças das primeiras escaramuças da turma do Colégio Julinho e da excursão à Europa. Pena que a madrugada do horário não contemple a mesma possibilidade de acesso a todos e o esforço do despertador elimine a audiência de tantos que gostariam de saber dessas iniciativas.

Uma lembrança saudosa a se fazer pode ser a de Sônia Abreu, professora, advogada, patroa do CTG Júlio de Castilhos, entusiasta do tradicionalismo cultural, a dona Sônia de tanto incentivo aos jovens e orientadora das campereadas gaúchas pela arte, pela cultura e pelo conhecimento. Tive a coincidência de estar, com a minha irmã e meu pai, a caminho do cemitério de Faxinal no interior de Cruz Alta, hoje Boa Vista do Cadeado, na manhã daquele dois de novembro, o dia dos finados.

Fui incumbido de falar em nome dos segmentos culturais, enquanto o Dr Romeu Ribeiro, tradicionalista, amigo e um representativo prefeitos daquele município, citou a trajetória e a vida dedicada por ela à comunidade castilhense e gaúcha. Naquela despedida, falei dos méritos das pessoas que se esforçam para que o mundo seja melhor e da lembrança que fica quando esse trabalho ativo, como foi o da Dra Sônia Abreu, tem o reconhecimento das pessoas beneficiadas e da população que usufrui desses conhecimentos, esforços e serviços, mesmo que muitos anos depois.

Poderia distinguir, o êxito do companheiro de ativismo cultural Paulo Guimarães à frente do Conselho Municipal de Cultura de Porto Alegre. Talvez, muitos não dimensionem a significância desse posicionamento conquistado pelo Guimarães, neste momento de importantes disputas por espaços sociais mais representativos.

A lembrança que faço neste chasque é simples, sincera e festiva. Nós que tivemos o privilégio de acompanhar a condição evolutiva das comunicações, jamais imaginaríamos que se pudesse chegar tão rapidamente às novidades disponíveis e que, cada vez, pretende-se sejam democratizáveis sempre a um grupo maior de pessoas. Quando, ainda no 2º Encontro de Comunicadores da Cultura Gaúcha, em Santa Rosa , nos anos 90, o companheiro de rádio e amigo, Engenheiro Otacílio Rodrigues dos Santos mostrava o velho CP 30 dizendo que o celular seria a revolução para os repórteres, dispensando as transmissões que precisavam ligar fios e desmontar o bocal dos telefones fixos (muitos entrevistados chateavam-se com isso!), a interrogação passeava na mente dos ouvintes e os mais crédulos imaginavam que o engenheiro estava sendo otimista demais.

O que temos atualmente comprova que não há mais limites para essa evolução midiática e que a comunicação está mais aparelhada para ligar pessoas e idéias (insisto no acento, valendo da autorização para seu uso por mais alguns anos). Por isso, prefiro fazer desse retorno ao gentil espaço que me é oferecido, a lembrança de uma outra forma de ser pioneiro e de se preocupar em tornar acessível o conhecimento, a luta pela identidade cultural rio-grandense e a defesa do gauchismo autêntico e tradicional para que possa chegar às gerações futuras o mais próximo dos costumes avoengos, registrando, promovendo e difundindo o que é tradicionalismo, como a real transmissão de geração à geração. Falo deste sítio ou saite para os mais “chiques”. O www.chasquepampeano.com.br tem neste mês de dezembro, dia 06 mais propriamente, sua data mais representativa desse esforço, onde o Guimarães, a esposa e filho põem em contato pessoas que não se conhecem pessoalmente, mas que convivem dia a dia através da internet.

Faço esse destaque, com a mesma intensidade que poderia registrar o lançamento do livro “Poesia em Prosa e Poema”, volume 1, que o Paulo Mendonça, outro expoente da cultura gaúcha, organizou como forma de comemorar os 22 anos do Jornal do Nativismo. Publiquei “Poncho de Penas”, a poesia que me deu um dos meus mais importantes troféus na poesia, posto que foi o poema vencedor do Rodeio de Poetas da Estância da Poesia Crioula deste ano de 2009.

O livro do Partenon Literário, lançado na Feira do Livro de Porto Alegre, foi outra satisfação que me rodeou de emoções neste ano, da mesma forma que o convite para fazer a palestra na inauguração da Estátua de Jayme Caetano Braun. “À Moda Campeira” é uma milonga que escrevi e encontrou ressonância na inspiração e competência do Beto Caetano e do Everton Garcia ( www.chegouotrancaco.com.br ) no lançamento do CD do Grupo Trancaço, hoje sucesso onde se apresenta, animando fandangos nos moldes mais tradicionais do gauchismo.

Enfim, recorto esta saudação ao acesso de tantos a esses sítios e sites que nos alcançam poesias, músicas e sucessos de ontem e de agora, informações, literatura e o exercício do melhor fenômeno humano depois da fisiologia do organismo biológico, que é a comunicação. Parabéns ao Guimarães, editor e idealizador deste Chasque Pampeano. Parabéns aos companheiros de leitura e de convivência neste espaço internáutico que nos inunda de informações quase instantâneas e, acima de tudo, úteis para o nosso cotidiano de gaúchos, brasileiros e viventes.

 

Gravataí, 09 de dezembro de 2009

Dilmar Paixão

 

 

CRISE ?

 

De quem é a crise ou de que crise estamos falando? Essas interrogações que margeiam escândalos em muitos dos campos da convivência social, econômica e política no Brasil e no mundo. Todos, de alguma forma, somos atingidos, mesmo que tentemos ficar distantes desses processos. Tive oportunidade de repetir, nesta segunda edição do Curso de Cultura Gaúcha recentemente, honrado pelo convite dos organizadores, de que o pronunciamento de Rui Barbosa nunca foi tão atual: “de tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça; de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus; o homem chega a  desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto”.  

Mais: há três dias foi proclamado em Ekaterimburgo, Rússia, que “Um bebê acaba de nascer, mas ainda está no berço”. A frase do Vice-Ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergei Ryabcov, foi proferida quando líderes de gigantes emergentes como o Brasil, a Rússia, a Índia e a China fizeram a primeira reunião de cúpula do BRIC, que pretende atuar de forma coordenada na reforma do sistema financeiro internacional. Bric em linguagem usual tem significância direta para nós brasileiros.
Mais do que a diversificação do sistema mundial de divisas estamos vivendo, sim, uma nova fase no mundo. De novo se vai à lua. Nunca a palavra explorar esteve tão em moda como nesses tempos ultramodernos. Sancionam-se promessas e decisões emergenciais que, quase sempre, causam efeitos fugazes e inconsequentes.
Avançam as informações mensageiras em espaços de divulgação que nem sempre são usados na intenção do bem comum, dos hábitos, da cultura e dos costumes dos povos. As fronteiras são ultrapassadas com um clique eletrônico de imagem e som. A compreensão resta a um número menor, como alertava o Barbosa Lessa, porque muitos, sem compreender o significado dessa crise dos novos tempos, seguem conduzidos e, em decorrência, alienados pela avalanche de propósitos e desígnios nem sempre apariscentes.
No nosso campo das gauchadas, se de um lado se critica a profissionalização de atividades artísticas e culturais, embora a propositura discursista por formatos mais evoluídos, o disparate fica clarificado ao pequenino exame da prática por essas mesmas pessoas. O pouco valor desse tipo de posicionamento, por sua fraqueza intrínseca, nos remete à fala antes comentada de que “De tanto ver triunfar as nulidades...”
Prefiro, destarte, lembrar que neste dia 18 de junho é estação para lembrar os integrantes da primeira fase da Sociedade Parthenon Litterário, de 1868 a 1885, que, além de divulgarem suas obras culturais, entregavam-se a defender a liberta ç ão dos escravos, a implanta ç ão da Rep ú blica e à valoriza ç ão social da mulher. Para consecu ç ão dos seus prop ó sitos promoviam aulas noturnas gratuitas, concorridos saraus po é ticos e musicais, publicavam revista cultural e art í stica, criaram uma biblioteca volumosa e um museu. Desde 1997, revigorou-se um novo período do Partenon, que participamos com o Serafim, o Cláudio Sá, o seu Paixão, a Dinara, o Benedito, o Nadir e tantos outros companheiros da arte escrita. Há uma exposição na Câmara de Vereadores de Porto Alegre lembrando este novo momento cultural.
Destaco, com igual intensidade, o Rodeio dos Poetas da Estância da Poesia Crioula no final deste mês de junho, do qual falo mais num próximo chasque, tão pampeano quanto a hospitalidade, a cortesia e o cuidado com a cultura rio-grandense e os organismos culturais e literários, responsabilidades assumidas e mantidas pelo elogiável esforço pessoal do Guimarães.
Noutra feita, proseamos mais.
Gravataí, RS, 18 de junho de 2009

 

MEIA PALAVRA BASTA !

Refugiei-me dos atropelos do cotidiano, por alguns poucos dias, salgando o corpo - como diz o gaúcho - pelo estágio mais comum entre os metropolitanos nesta época de início do calendário. Entre um e outro mergulho, o refresco de observar o colorido da paisagem circundante. Das caminhadas ao churrasco sobrou, nesses dias, o convívio mais ameno com uma rotina modificada pelo ambiente, pelas pessoas e pelos acontecimentos.
Das muitas leituras, deparei-me com uma terminologia que vem ganhando força nas capitais a partir de uma notícia mineira: “a gentileza urbana”. O termo era usado mais focado no trânsito, porém gostei tanto a ponto de concebê-lo em um certo número de generalidades da vida diária. Lembrei-me de um dos meus principais mestres na comunicação e no jornalismo: o padre Paulo Aripe.
O potrilho-poeta descreveu, no começo da década de 80, o contexto controverso de um índio grosso na sua primeira viagem de trem, de Alegrete a Porto Alegre, deparando-se contra os comparativos inevitáveis com os transeuntes metropolitanos. Constatava o poeta: “...o homem da capital, sempre sério e preocupado, mecânico e artificial, escravo do ganha pão, num atropelo brutal...”
Devidamente dimensionadas as circunstâncias do poema e o tempo passado das percepções por ele evidenciadas há indícios de hipóteses bem fundamentadas de que esses atropelos do cotidiano eram prerrogativas de algumas pessoas somente, porque a imensa maioria mantinha-se imunizada. Mas, a epidemia se pronunciou e os atropelos tornaram-se endêmicos e bem mais resistentes a qualquer tipo de “antibioticoterapia”. Se assim tem sido, como cometer a gentileza urbana ?
A cada ano é a generosidade quem mais dá as boas vindas. Por isso, se pensarmos que atropelo pode significar anarquia, bagunça e/ou desorganização, assentar-se-á outra confusão: confundimo-nos com frenético, impaciente, inquieto, pressuroso e irrequieto. Mesmo assim, nos entendemos certamente, a ponto de compreendermos que nunca foi tão necessária essa mudança da pressa e do atropelo pelos sentimentos urbanizáveis da gentileza, da paz e da generosidade.
Se esta intenção midiática é reforçada a todo natal, nas festividades de ano novo e praticamente em todas as manifestações humanas que se seguem como a campanha da fraternidade, por outro lado, se observa facilmente que a gentileza ocorre mais nos momentos nos quais não há pressa, azáfama ou açodamento. Nem atropelo. Talvez pela amabilidade. Quem sabe pela elegância que a gentileza pressupõe !
A conjetura implica que não há período de maior prática da gentileza do que da proximidade do natal à festa de reis. E nós dissemos: boas festas . Ora, se essas são somente boas , pode-se imaginar como poderiam ser melhores os exercícios e augúrios dos desejos de todos.
O vocábulo gentileza adjetivado de urbana pode deixar pensar que existe suficiência no meio rural, todavia não pretendo investir por esses caminhos da análise e da interpretação dos termos, postergando-a para uma ocasião mais oportuna. Ressalto apenas que há sim – e muita – necessidade de gentileza urbana na convivência cotidiana deste século XXI. Pessoas esquecidas de regras simples e elementares, lideranças perdidas e divorciadas do sentido ético e alguns inventando direções outras para a cidadania sem se importar com as razões simples da vida, da convivência e da urbanidade acrescentam valores assombrosos nessa dívida com a civilidade.
A gentileza há de ser mais presente no trânsito, no trabalho, na cultura, na recreação e na vida social. Que ela sobreviva aos atropelos do cotidiano são os meus mais sinceros votos para 2009. Quem sabe, assim, se possa ter nas instituições e nos demais segmentos do tecido social bem menos broncas, escândalos e disputas sórdidas pelo poder. O atropelo não é e nem pode continuar a ser desculpa e justificativa para esses atos nada gentis e menos urbanos – que dirá humanos. Pena que os presságios sejam mais influenciáveis pelas conseqüências dos comportamentos e atos decisórios de pseudolideranças do que pelos discursos artificiais que proferem, mesmo que, algum tempo depois, se revistam de gentileza.
Sigo confiando no ensinamento do ditado popular de que “para um bom entendedor, meia palavra basta ! ”

Atlântida, 10 de fevereiro de 2009.

Dilmar Paixão

 

Decisões, eleições, paixões e as convergências do cotidiano...

 

Apeamos de uma semana farroupilha alargada por comemorações que duram praticamente mais de um mês, se contarmos os preparativos e a recolhida dos acampamentos. Para uns são a lembrança de antepassados, da infância ou da vida na campanha, tomada aqui não como uma região delimitada pela geografia, mas a referência ao viver interiorano de tantos de nós. Para outros, os festejos farroupilhas (re)visitam amizades, recontam causos, ampliam a roda de chimarrão, tornam os assados mais comunitários e os galpões abertos permanentemente à acolher visitantes. Até o sofrimento pela infra-estrutura aquém da merecida (prometida por muitos) se dilui ao som de poesias, músicas, trovas, canções e gargalhadas. Há quem veja nesses acampamentos da semana farroupilha, uma oportunidade cultural em meio à avalanche recreacionista do campeirismo.
Indiscutível e indispensável percebê-la como um fenômeno social de aproximação com um outro mundo rio-grandense que, mesmo os questionadores e os transeuntes muitas vezes desinformados, reconhecem como movimentação diferente, sentimental e contagiante.
No Parque da Harmonia ou por onde quer que se tenha andado, sempre, encontrou-se gente amiga e hospitaleira, recebendo com fidalguia, e as pessoas dispostas a parar seus cotidianos para ouvir opiniões de palestrantes convidados. Nesta condição fui honrado por amigos e companheiros, prendas e patronagens em vários locais da querência brasileira. No deslocamento de um recanto para outro pude compreender que, mesmo pessoas que desconhecem detalhes mais efetivos da nossa prática tradicionalista, sabem incluir tradição, cultura e sentimentalismo como esteios desse mesmo orgulho de ser gaúcho, embora nem sempre nascidos no Rio Grande do Sul.
Meus vizinhos ergueram um galpão crioulo em poucos dias, substituindo a barraca grande dos anos anteriores. Gaúchos e não-gaúchos agaucharam-se ao redor do fogo, sob a fumaça da churrasqueira, ao som da gaita e do violão, dos bons cantores que se revezaram no palco entre educados aplausos. A chama crioula foi acolhida e permaneceu acesa iluminando os reencontros dos finais de tarde, mesmo com a roupa do serviço, sem o rigorismo dos que não conseguem ver conhecimento, sensibilidade e cultura para além da indumentária.
Numa dessas palestras revi amigos que me honraram com o convite para falar no acampamento do CTG Raízes do Sul. O patrão, a patronagem, o Guimarães e companheiros que, comigo, aplaudiram jovens personagens manifestando-se sobre os símbolos rio-grandenses. Nas entrevistas pelas emissoras de rádio e na Ulbra TV dialogamos em prol de uma ação comunicativa que possa mobilizar os gaúchos a partir da própria evolução dos veículos de comunicação de massa, desde os mensageiros e chasques à internet. Via de regra, quando o ouvinte, leitor ou telespectador seleciona um canal está fazendo um processo de escolha, uma eleição. Falando nisso, quero agradecer àqueles que tem recomendado o CD Paixão em Família e feito dele um presente a seus amigos radicados pelos CTGs do mundo, usando, precisamente, a internet como nos noticiam as livrarias.
Por fim, fico a pensar nas muitas convergências que devem incidir para que os acontecimentos tenham vazão. Paixões e decisões se aproximam através de outros mecanismos e ferramentas como a racionalidade, a inteligência e a sensatez. Para isso não se pode ter faltado às aulas de interpretação de textos ou de redação, nem trocar a ausência dos bancos escolares por meras suposições oportunistas ou revanchistas. Assim, ocorre com o processo eleitoral que tem seu grande momento municipalizado neste final de semana e, em raras situações, daqui a alguns dias.
As eleições são paixões decisivas, pena que a obrigatoriedade ainda seja a regra e a imagem do voto popular, para alguns, siga a paisagem da pseudocidadania, de considerar as pessoas votantes como massa de manobra. Cheguei a ponderar pela validade das votações em blocos de interesses culturais, no entanto, o cotidiano tem me acautelado, porque há mostras bem contemporâneas de tentativas e de riscos comandatários, que ainda persistem. 

Noutra feita, proseamos mais, no Chasque Pampeano. 

 

Gravataí, 04 de outubro de 2008.

Dilmar Paixão              

 

O SIMBOLISMO DA CHAMA

Que simbolismo encilha as nossas emoções

e vem passear nos galpões na Semana Farroupilha ?

 

 

Acendi rimas e versos no fogo de chão dolente.

A Chama Crioula, ao presente, traz conteúdo profundo.

Enquanto parte do mundo vive em guerra e se destrilha,

o Rio Grande une as famílias, aquecendo-se no amor,

para cultuar com louvor a Semana Farroupilha.


A Chama é uma só,

em centelhas, distribuída.

É a mesma chama acendida no coração de todos nós,

dando vibração à voz e à razão que nos conduz.

É o amor irradiando luz em busca de Eternidade,

conclamando humanidade junto ao altar de Jesus.

 

 

Esta chama de amor é a fortaleza da fé.

É o lunar do Índio Sepé aquecendo o amor nativo.

É o gauchismo, sempre vivo, transmitido por herança.

É a inocência da criança. É a linda prenda e seu sorriso.

É sentir o paraíso, quando olhamos a Querência.

 

 

No firmamento, os astros são centelhas farroupilhas.

E, cada estrela que brilha, é um herói que desponta.

Nossa história, de ponta a ponta, é compilada nesta Chama,

pois ela é amor – e o bom gaúcho ama.

A ma a Deus e ama ao pago,

ama sua família e, entusiasmado, ama à sociedade humana.

 

 

Quanto ensinamento, a Chama, nos dá com sensibilidade ?

Vejam a luz da Verdade brilhando como um sinal,

mostrando que é tão igual a luz do lampião, singela,

com a outra, mais fina e bela, decorando grande festa,

pois, um dia, tudo resta numa humilde luz de vela.

 

 

O meu verso é centelha modesta, mas uma relíquia para mim,

voz inquieta, qual clarim, defendendo minhas idéias.

Embora a rude epopéia dessas rimas feito tropilha,

que o sentimento encilha para galopear emoções,

veio passear nos galpões na Semana Farroupilha !

__________________________________________________

De colega para colega: carta aberta aos professores

“Provas-não na Semana Farroupilha !”  

            Trago da minha vida acadêmica para a prática profissional docente, o aprendizado permanente do nosso eterno educador Paulo Freire numa frase síntese do recado de um grande mestre: ser professor é decidir ser aluno para sempre. Cito essa referência por ter ouvido com muita prudência a voz de uma professora do interior do Rio Grande do Sul que, de modo despretensioso, reivindicava apoio para a iniciativa de pedir ao sistema público e privado do ensino em todos os níveis, do jardim de infância à universidade, que não programem provas (via de regra cumulativas e bimestrais) nos dias da Semana Farroupilha e próximos a eles, em razão dos festejos tão tradicionais no nosso Estado.
            Por incrível que possa parecer, essa observação não me era presente, posto que, tanto para alunos quanto professores, possa ser um detalhe somente. Todavia, a professora Ana Lúcia Estima Martins manifestou a sua preocupação, como – talvez - tenha feito em seu segmento de atuação, numa proposta para o Congresso do Movimento Tradicionalista acontecido em janeiro no município de Santana do Livramento.
Eu não soube mais notícia da ressonância daquela súplica aos setores culturais ou de que tenha obtido algum alcance no seu intento. Destarte, por acreditar serem cabíveis novas investidas contaminadoras, sobrevôo o oceano com a minha gota d'água. Peço aos professores, por ter apreendido que não é por acaso que famílias inteiras transferem suas vidas para o acampamento do Parque Harmonia ou para os galpões e praças do interior gaúcho, que façam o mesmo na medida do seu domínio. Será compreensão, respeito, reconhecimento, conveniência e aprendizado sintonizando conhecimentos, habilidades e atitudes da ciência com aspectos essenciais da cultura do povo rio-grandense, representada em seus usos e costumes tradicionais.
A programação de atividades didáticas, eu reservo à confiança no bom senso e na qualidade tão desejáveis aos educadores do ensino formal. Sei que, maiores faculdades definidoras têm os dirigentes institucionais a quem reedito idêntica sugestão. Por derradeiro, a convicção de que, de alguma forma, todos contêm, se assim desejarem, probabilidades favoráveis à mudança. As comunidades escolares igualmente podem e precisam participar. Acesa a chama crioula no último sábado em São Leopoldo, viajando à cavalo aos mais distantes rincões rio-grandenses, quem sabe uma outra centelha não inflama e esbraseia os bons pensamentos. Provas-não na Semana Farroupilha !

Gravataí, 17 de agosto de 2008                   

Dilmar Xavier da Paixão -  Professor Universitário      

 

Pressões, imprecisões e impressões anotadas pelo caminho...

 

Volto de Brasília com mais algumas convicções profissionais. Pude conviver uma semana diferente com a cidade e com as pessoas do Brasil inteiro. Encontrei um número maior de brasilienses, porque há anos me era apresentada uma Brasília de candangos e, agora, uma nova geração tem assumido os serviços coletivos daquela sua terra. Convivi com vínculos afetivos, formei laços e alinhei idéias processando novidades que me oportunizaram outros espaços antes não disponíveis. Contudo anoto, por verdadeiro, aos apreciadores da cultura, um dos focos básicos deste chasque pampeano, que nada substitui a hospitalidade de acolher e bem receber as pessoas, independente dos seus “credos, cores, opiniões ou religiões”.
Muitos não compreendem, talvez pela cegueira da ânsia de ser o primeiro e estar na frente, que é desaconselhável atropelar-se as boas regras de convivência e a intencionalidade do companheirismo coletivo em prol do bem comum. Foi assim que percebi atitudes episódicas pouco recomendáveis a amigos dirigentes, para as quais apenas lamento pela imprecisão e equívoco. Recolho as flores e o perfume mais do que os espinhos, até porque parte dessas dores é passageira e imerecida. Por isso, volto-me à citação do companheiro Albino Becker dos Santos, que conheci em Santa Maria , hoje um bem sucedido líder empresarial e respeitado participante do tradicionalismo gaúcho sediado no planalto central do país.
O Becker e sua família propiciaram-me momentos agradabilíssimos de convivência e recordações. Pela condução deles visitei o Centro de Tradições Gaúchas Jayme Caetano Braun do patrão Itur Ivo Bartz e sua companheirada. Entendi um pouco mais os versos do Jayme no poema Hospitalidade...
Quero neste espaço, todavia, sublinhar o conteúdo de uma placa elaborada com muita qualidade artística e de sinceridade, pois, se ainda há quem prefira atitudes escusas à franqueza e à afeição, necessário se faz registrar que, mesmo respeitando a criatividade, muitas lições se têm para serem aprendidas e postas em prática pelos dirigentes como a fornecer exemplos aos demais. O ensinamento na porta de entrada do CTG Jayme Caetano Braun, em Brasília, pode ser reproduzido em todos os ambientes do tradicionalismo no mundo e em nossas entidades culturais, campeiras e artísticas. “Ao entrares neste galpão, pendure, no cabide de tua humildade, as tuas diferenças e preconceitos e, se mesmo assim preservares algum orgulho, que este seja o de ser gaúcho”.
Falarei mais sobre Brasília em novas oportunidades, contudo, quero ressaltar ainda a enorme satisfação por conhecer o sucesso de mais uma companheira de lida que sempre estive ao nosso lado. Atuando profissionalmente junto ao Vice-Presidente da República, a jornalista, advogada, colunista e escritora Vera Pinheiro é a essência de quem se pôs a caminhar, degrau por degrau, por acreditar em suas qualidades. E venceu! Verinha é um exemplo desde a persistência ao esforço de fazer pelo melhor e com qualidade... Nossa conversa foi bem-sucedida e muito agradável. Pretendo oferecer aos nossos companheiros comunicadores da cultura gaúcha numa ocasião mais propícia desfrutarem das suas opiniões e diretrizes.
Por pensar neles, os comunicadores, expresso meu mais sincero agradecimento a cada um dos que estiveram conosco no VIII Encontro dos Comunicadores da Cultura Gaúcha em Erechim. Abraço com especial zelo a dedicação do Aldomar, do Guimarães e do Neimar com a incondicional hospitalidade do Coordenador Sotoriva, do Conselheiro Airton Calheiro, do companheiro Dary e do Aldo. Pensar cultura, conversar sobre ela, destacar óbices e particularidades, propiciar ocasiões para a busca de suas verdades e tentar estudá-la para entendê-la nunca foi e nem será tarefa fácil. À recreação e à competição esportiva, sempre sobrarão prêmios, espaços e participações atuantes. A cultura... Bem, o próprio Barbosa Lessa já advertia e prevenia sobre isso ainda na tese O Sentido e o Valor do Tradicionalismo. Para seguir em frente é satisfatório ler poetas como o Vargas Neto em Outra Charla.

Proseio mais numa nova oportunidade destas da generosidade do Paulo Guimarães e do Chasque Pampeano.

Gravataí, 15 de agosto de 2008.

Dilmar Paixão

Das lembranças saudosas ao seguir em frente

Quando eu nasci ele era um menino. Tinha 10 anos e vinte dias de idade. Uma realidade pouco conhecida para a época. Não era como hoje, porque ninguém sabia ainda muito bem o que era e o que viria a ser um Centro de Tradições Gaúchas. Muito menos se imaginaria do que as proporções que foram alcançadas.
Sete anos mais tarde, eu fui para o CTG Rodeio da Saudade em Cruz Alta. Era a primeira vez, como eu descrevo na poesia Paixão em Família, no CD com esse mesmo nome (que, aliás, aproveito para agradecer a receptividade dos amigos).
Anos mais tarde vim sapatear e declamar no seu palco participando de concursos e levando os troféus que guardo carinhosamente e com boas lembranças, até porque a companhia me honrava e me orgulhava muito.
Meu ingresso como docente na Universidade comemorei no 35, onde pude presenciar turistas de vários rincões do mundo e do Brasil saboreando o churrasco e ouvindo os cancioneiros. Três anos depois, pude presenciar, com o Seu Paixão, meu pai, quando, no intervalo do conjunto das danças, o meu filho Arthur dançou a sua primeira chula pilchado de gaúcho no tablado da churrascaria. Eu sei que são lembranças pessoais. As minhas particularmente. Estou certo, também, que outras pessoas tem as suas recordações desse convívio do 35 CTG com a sociedade porto-alegrense e do Rio Grande do Sul.
O destaque que faço é de homenagem aos fundadores, aos patrões, à peonada e às prendas, aos associados, contudo, penso que é o universo gauchesco que precisa ser cumprimentado e festejar mais essa picada aberta no mato com muito esforço e audácia como é próprio do empreendedorismo. Celebremos, portanto, com grande festa e efusivos cumprimentos, os 60 anos do 35 CTG. Vá lá. A programação já está preparada. Haverá chimarrão, café campeiro, missa crioula, encontros, homenagens e um passeio para abraçar o Parque da Redenção, um dos pontos históricos de manifestações em Porto Alegre.
Permitam-me que eu ressalte, com imensa saudade, um dos seus peões que eu conheci já meio veterano , quando Santa Maria montava delegação para a 9ª Califórnia, e depois comemorando com ele a Calhandra de Ouro e suas três belas composições na 10ª edição. Conversamos muitas vezes. Aplaudi-o sempre. Pude saber de algumas de suas obras ainda recém saídas do forno. E que qualidade de sentimento e de arte! Que sonho criador !
No entardecer da sua vida fui surpreendido ao ser seu companheiro quando tomamos posse juntos, pela distinção da Profª Beatriz e da Profª Maria Helena, Presidente e Vice, na Estância da Poesia Crioula. Sei que presenciei, naquela tarde, um dos seus últimos momentos mais felizes. Ouvi no discurso dele, por coincidência, um pouco dos meus motivos, porque, como ele afirmou “a gente faz poesia e, ao sair para a vida do trabalho e do casamento, acaba hibernando por alguns anos até voltar num tempo mais tarde, mais maduro e saudoso, mas com vigor e o entusiasmo de retomar a caminhada”. O pago ficou mesmo perdido , porque um céu de chumbo cobriu o entardecer e os pés descalços do Antônio Augusto Ferreira não estão mais no correr da sanga . Os que ficamos rezamos por ele e precisamos continuar zelando pelo tradicionalismo que ele também tanto amou, defendeu e praticou.
No anoitecer de 24 de abril, honrado pela indicação do Paulo Guimarães e o gentil convite da 1ª Prenda Carine Rodrigues Lima, da Dione Souza e do Departamento Cultural, vou ao CTG Raízes do Sul para falar sobre “Impacto ambiental e lixo”, promoção parte do projeto Consciência Ambiental do CTG. Antes, no dia 20 de abril, em São Pedro do Sul, espero rever colegas e companheiros no VII Encontro dos Comunicadores da Cultura Gaúcha (inscrições pelo e-mail comunicadores@mtg.org.br ). “Por hora é isso”. Proseio mais numa próxima oportunidade. Dilmar Paixão

Gravataí, 04 de abril de 2008.

 

Dois dedos de prosa...
06/02/08

 

Ainda que o carnaval tenha vindo mais cedo e aprofundado a sensação quase anestésica dos festejos de mudança do ano, constato que 2008 começa agora. Pelo menos para a maioria das pessoas. Alguns esperarão pelo dia 03 de março...
Quero registrar neste espaço, por ora, dois momentos curiosos: a festa dos Pajadores e o Dante Ramon Ledesma.
Foi, por acaso, que o meu filho acertou o dia do espetáculo deste consagrado argentino agauchado tão querido de nós. As faixas de propaganda anunciavam-no quarta, quinta e domingo na praia, e não na terça-feira do carnaval. Mas, ele estava lá, de violão em punho e bradando forte, as suas convicções. Cantou, cantou e, sempre, acompanhado com os ritmados aplausos da platéia.
Porém, destaco um instante que me tocou particularmente. E não foi o fato dele cessar as conversas dos convivas quando iniciou a cantar. Dante calou e todos tomaram conta do refrão: "quero gaita de oito baixos p'ra ver o ronco que sai..." E a cantiga seguiu apontando os desejos pela indumentária, desde as "botas feitio do Alegrete até a guaiaca..." Uníssonos continuaram: "...saiu igualzito ao pai". Eu tenho certeza de que vocês sabem cantar de cor...
Respeitadas, a arte e a habilidade de empolgar desse mestre dos palcos latino-americanos, vale lembrar que houve quem nos chamasse de grossos, pelas ruas principais das cidades, quando vestidos com o traje de gaúcho. O Teixeirinha chegou a gravar um sucesso sobre isso.
Por falar nele (um precursor – o principal deles - do sucesso regionalista gaúcho) ouvi, de pessoas sentadas nas proximidades e que não conheciam o estilo do castelhano, críticas pejorativas como "tomara que ele não seja do tipo Teixeirinha". Como dizia o Jayme: “não gostei mas fiquei quieto...”
A espera valeu. A composição que encerrou o espetáculo foi a de maior empolgação e participação do público. Qual ? Ora, Querência Amada.
Ao sairmos, próximos, fiquei sabendo que a jovem porto-alegrense achou “encantadora... essa última música". Para contribuir com os seus conhecimentos perguntei-lhe se conhecia o autor da obra. Diante da negativa modifiquei a interrogação: o autor foi Vitor Mateus Teixeira, você sabe de quem estou falando ? Um outro, mais afoito, complementou na medida: "...exatamente, o grande Teixeirinha".
Se lhes conto isso e falo, também, do encontro dos pajadores, em homenagem ao Jayme Caetano Braun, dia 30 jan último, é porque essas ocasiões precisam ser intensificadas e, além disso, explicadas quando possível.
A incompreensão que rondou, por muitos anos, o movimento tradicionalista e segue, lamentavelmente, escravizando muitas das cabeças formadoras de opinião somente poderá ser minimizada com uma linguagem mais adequada e universalista. Porém, para isso, não necessitaremos mudar as nossas manifestações artísticas e, principalmente, os ritmos musicais e a nossa cultura rio-grandense. Pelo contrário é com a autenticidade que seremos capazes de revelar boa parte desse conhecimento que sofre com as peculiaridades do linguajar, dos costumes e das práticas tão nossas.
Preparar as pessoas para entenderem o que vão assistir ou participar, antecipar palavras difíceis do nosso vocabulário guasca e contar as histórias que estão envolvidas no assunto da composição, poesia ou dança podem representar um bom começo. Podemos aprender como as escolas carnavalescas, por exemplo, tratam os seus temas enredos, por vezes tão especiais quanto a nossa língua gaúcha. Quem sabe...
Penso que os pajadores deram uma demonstração incontestável disso: souberam pajar sobre temáticas difíceis e ditas na hora, como os problemas do mundo ou a recém criada Associação dos Amigos do IGTF. E, para demonstrar mais talento, o fizeram em versos rimados. Perdeu muito, quem não compareceu. Contudo, não faltarão novas oportunidades. Para quem exige muita antecedência, dia 30 de janeiro de 2009 tem - de novo - e, se valer a regra, com um espetáculo cada vez melhor.
Por fim, um abraço muito especial ao pajador Paulo de Freitas Mendonça pelos seus trinta anos de pajadas. Agora, ele roda o mundo com fotografias que comprovam tanta atividade. Respeitosos cumprimentos, porque, diferente de muitos (e em muitas profissões), Mendonça abriu seu próprio caminho em versos e, consagrado, seguiu ajudando outros pajadores a garantirem os seus espaços igualmente. Sem medo da concorrência. Isso é exceção; coisa de irmão e de quem pensa na família artística. Parabéns !
Proseio mais num próximo Chasque Pampeano, espaço desses que me reserva a gentileza do Paulo Guimarães.

Atlântida, 06 de fevereiro de 2008.

 

ENCONTROS E DESENCONTROS DA COMUNICAÇÃO
29/01/08

 
O recente Encontro dos Comunicadores da Cultura Gaúcha, paralelo a duas sessões do 55º Congresso Tradicionalista, em Livramento, tem seus detalhes divulgados aqui mesmo no Chasque Pampeano e nos veículos de comunicação de todo Estado e do mundo. Por isso, nesse comentário, aproveitando-me da generosidade do espaço, ocupo-me de outras abordagens.
É importante destacar que este reassoprar das brasas re-aproximando os profissionais da imprensa tradicionalista preocupados com os aspectos culturais e a integração de novos colegas tem sido intenso e mobilizador, embora o emprego de uma metodologia que, necessitando ser mais ágil, tem saltado determinadas fases à procura de uma organicidade que nos dê maior dinâmica à troca de informações. Quando sugeri e desencadeamos o Encontro de Comunicadores (21 abr 1994), partimos de encontros regionalizados crescendo para o evento maior. Desta vez, as possibilidades nos fazem pensar diferentes. Primeiro, a internet; depois a criação do Departamento de Comunicadores do MTG e, também, porque muitas realidades antigas permanecem nos veículos de comunicação.
Assim, organizamos um Departamento Central de Comunicadores no MTG ( comunicadores@mtg.org.br ) e incentivamos a criação de Departamentos nas 30 Regiões. No segundo semestre, queremos chegar aos Departamentos Locais nas Entidades Tradicionalistas. Todavia, as pessoas não têm a mesma agilidade de compreensão e de ação. Por isso, estamos, pelo Departamento Central, relacionando outros companheiros que possam servir de fonte e de retransmissor de notícias do tradicionalismo e da cultura rio-grandense. Sabemos que as dificuldades são enormes – e, também, internas.
Ainda no Encontro dos Comunicadores – para citar um exemplo concreto – os profissionais indicaram o professor, advogado e radialista José Aldomar de Castro para relatar as principais decisões aos Congressistas. Preparado, ele se dedicou a objetividade de comunicar a essência das informações. A surpresa dele, dos seus colegas e do plenário foi a inexplicável incompreensão da Vice que ocupava a Presidência dos trabalhos e, abruptamente, cortou-lhe a palavra, restando ao companheiro apenas uma frase final: “podem ser tomadas várias decisões que, de nada adiantarão, se não forem comunicadas, porque quem não se comunica...”
A resposta inteligente e oportuna satisfez como resposta, mas faz-nos pensar sobre outras atitudes prováveis como essa da liderança máxima do Congresso. Aprende-se que a informação tem prioridade. E absoluta. Terá sido falta de atenção sobre o que estava sendo comunicado? Ou poderia alguma parte da mensagem desagradá-la? Vozes correntes não encontraram razões que justificassem o enrijecimento evidenciado, porque se permitiu a outros oradores prolongarem-se em abordagens enfadonhas e com pouco sentido prático. É árduo, portanto, o trabalho.
O Encontro dos Comunicadores, por seu conteúdo e essência, foi de grande valor organizacional, integrador e estimulante. Os companheiros Paulo Guimarães(site Chasque Pampeano) e José Aldomar de Castro(Rádio Cruz Alta) foram muito felizes nas abordagens que fizeram dos temas que lhes foram propostos. Por mais que se saiba, a internet ainda continua sendo um “bicho que assusta” a maioria das pessoas e a necessidade de incluir cultura na programação dos meios de comunicação social é tão urgente quanto sempre foi. Perdeu muito, quem não participou. O próximo Encontro será em São Pedro do Sul, dia 20 de abril, no CTG Rincão de São Pedro. Agradecer ao Aldomar e ao Guimarães é a forma de reconhecer a qualidade do trabalho de cada um e do esforço em dedicar e compartilhar seus conhecimentos com os colegas.
Esteja conosco!  Este é um convite permanente a todas as pessoas interessadas na valorização e disseminação das informações da cultura gaúcha. Precisamos tornar Encontros os tantos (des)encontros da Comunicação.
Proseamos mais num próximo Chasque

Jornal Virtual: alguém imaginava isso ?

O ensejo de comemorarmos com o Guimarães, o Silvano e a família, no dia 06 de dezembro/2007, o primeiro aniversário do Jornal Virtual Chasque Pampeano, propicia a todos nós, praticantes e admiradores do tradicionalismo gaúcho, algumas reflexões pertinentes. Durante muito tempo, manteve-se a discussão primária de que, por sermos tradicionalistas, deveríamos nos ater às coisas conservadoras, como não adotar os princípios evolutivos do automóvel, da ciência, da tecnologia, da arte e da vida moderna.
Se nossos antepassados dispunham do cavalo, da aranha, da carroça, como meios de transportes, somos forçados a compreender que, assim como o trator e as outras máquinas agrícolas facilitaram e aperfeiçoaram o cultivo da lavoura, os veículos mais modernos, além da oportunidade e benefício da escolha, garantiram condições melhores para o deslocamento com rapidez e qualidade. Quem, como eu, aprendeu a dirigir num fuca (porque o “s” do fusca só veio depois!), compreende que conduzir um carro com direção hidráulica ou “ser conduzido” por um modelo automático é sinônimo de conforto e de evolução.
Quando o Presidente da República - “aquele” - falou que os carros brasileiros eram comparáveis a carroças pelo atraso de alguns modelos, muitos rimos e reclamamos da desvalorização afirmada. Continuamos pensando assim? Também pensamos nisso, ao lembrarmos que, ao cruzar outro veículo nas estradas empoeiradas do interior, fechávamos o vidro do carro para não entrar poeira e, novamente, o abríamos tal o calor insuportável. O ar condicionado veicular é outro componente facilitador desse conforto.
O caráter evolutivo do mundo e, principalmente, da tecnologia e da ciência são inquestionáveis. Porém, ao tradicionalista, outros motivos são essenciais e importantes na vida: nossos usos e costumes gauchescos, a tradicionalidade, a cultura, os padrões de respeitabilidade e convivência social, a liberdade em todas as suas manifestações e, acima de tudo, o amor e o orgulho de ser rio-grandense e integrante de uma família gaúcha.
Não há contra-senso nem dificuldade de entendermos isso. Para alinharmos algumas razões basta compreendermos que a sigla MTG significa Movimento Tradicionalista Gaúcho. É Movimento porque se move e, se é movediço, acompanha a evolução. Mais do que isso, não há como negar a sua expansão como cultura, arte e sentimentalismo.
Houve quem afirmasse num passado não muito distante que nós, os tradicionalistas, éramos conservadores e saudosistas. Quando nos falavam isso ainda não tínhamos toda essa discussão da consciência ecológica e preservadora. Todos somos saudosistas e de muitos comportamentos que ainda são saudade no mundo de hoje como: o respeito com os mais velhos, as brincadeiras sadias, a criatividade do brinquedo não-eletrônico, as visitas às famílias amigas, o sentido de família e a prática da idéia de comunidade.
É preciso citar que somos saudosistas da possibilidade de deixar as janelas abertas e a porta encostada como há muito tempo? Onde está a segurança das pessoas sentadas na calçada na frente das casas?
Este mesmo caráter evolutivo trouxe o celular, a televisão digital e as tantas evoluções hoje disponíveis. Por nós, queremos continuar sendo tradicionalistas, preservando valores, respeitando costumes e, relembrando os antepassados, como quem constrói sobre firmes alicerces. Se os meios contemporâneos nos permitem evoluir, vamos crescer e evoluir sempre. Se o mercado de trabalho nos impõe outros uniformes diferentes da lida agropastoril, vamos compreender que há momentos para cultuar a tradição, mas, jamais, devemos autorizar que pisoteiem, menosprezem ou ridicularizem os fatores essenciais da nossa tradicionalidade gaúcha.
O primeiro aniversário do Jornal Virtual Chasque Pampeano tem muito dessa representação das nossas idéias de movimento e de tradicionalismo . É um meio de comunicação fascinante, rápido, inteligente e, melhor de tudo, gratuito. A agilidade computacional e suas infindáveis razões culturais e associativas justificam seu uso em benefício da difusão de idéias e da informação das pessoas. Da mesma maneira que encilho o pingo para um passeio ou cavalgada e ando de automóvel, viajamos pela internet conversando, trocando opiniões e sabendo dos acontecimentos.
Cumprimento, ao Guimarães, pela intenção e a todos nós por compartilhamos dessa alternativa que nos diverte, atualiza e nos une em prol de um tradicionalismo presente, atuante, dinâmico e que se expande como o maior movimento associativo cultural do mundo. O Barbosa Lessa, na tese sobre “O Sentido e o Valor do Tradicionalismo”, admitia que, embora fosse uma ação de massa popular, o movimento seria entendido sempre por uma minoria intelectual. Cabe-nos, portanto, compartilharmos conhecimentos, democratizarmos as experiências, aprendermos com a cultura de todos, porque mesmo o analfabeto sabe pensar e nos pode ensinar muitas coisas. A luta, portanto, é mantermo-nos fiéis às nossas origens e ao culto dos nossos costumes, com humanismo e hospitalidade, seguir em frente com a evolução, mas, como nos ensinaram cantando os Irmãos Bertussi, “conservando no sangue de gaúcho, a tradição”.

Proseamos mais numa outra oportunidade.
Até lá !

 

Gravataí, 06 de dezembro de 2007

A Carta de Princípios do Tradicionalismo e a ressonância nos poderes públicos

Pingo desencilhado e abrigado, vestido de cotidiano, reencontro-me com o conforto da tecnologia e com a comodidade de quem correu os olhos pelas notícias do mundo, focado nas referências sobre a semana farroupilha e o 20 de setembro, a data magna do gaúcho. Sim, a internet é portadora hoje de amplas sesmarias de informações nas quais o tradicionalismo é mais do que notícia: é endereço de sítios de convivência e de troca de experiências gauchescas.
A chuva esteve presente nos mais longínquos recantos rio-grandenses, acompanhando o garbo e o orgulho dos gaúchos, porque nem ela conseguiu apagar o candeeiro farroupilha e a chama crioula dessas comemorações. Presenciar figuras ilustres como o Telmo de Lima Freitas, o Nico Fagundes, o Rodi Borghetti e tantos outros desses mais veteranos, que não se incomodaram ante a exposição aos rigores do tempo, é renovar os sentimentalismos mais puros da alma gauchesca.
Em Porto Alegre foi assim. Por todo lugar, com a mesma vontade. Se um ou outro detalhe peculiar assinalava os registros regionalizados, mesmo isso, servia como reforço ao desejo mais eloqüente de registrar o amor à querência e o orgulho de ter nascido gaúcho, mesmo se transferida a certidão de nascimento.
Na fronteira, em Livramento, o desfile começou de um lado e cruzou para o Uruguai. São os gaúchos, mundo adentro, revendo como se movimentaram os antepassados e, mais do que isso, revivendo, em conversas animadas e até nos debates mais elaborados, condições e características acordadas para a paz.
O decênio heróico, inegável pelas evidências de coragem e de rebeldia, continua servindo de modelo a toda a terra. Os desfilantes têm os motivos mais diversos, porque a Semana Farroupilha se distribui por infindáveis razões recreativas, associativas e culturais. Sempre é o gaúcho: hospitaleiro e gentil, xucro e bagual, habilidoso na lida e rude com as adversidades, inclusive as climáticas.
A diversidade das opiniões sobre o desfile é, apenas, a maior amplitude das lentes avaliativas sobre o que está sendo admitido como o mês farroupilha. Ao repórter entusiasmado pela altivez dos que nem se importaram em desfilar sob a chuva forte, contrapõe-se o seu colega, que noticia mais o cavalo assustado com o público e a banda musical do que a habilidade do cavaleiro que o manteve controlado todo o percurso. Eu prefiro o registro de um grupo grande de americanos que, em forma de intercâmbio, educada e organizadamente, foi recebido no acampamento farroupilha no galpão do Correio do Povo. Com tradução simultânea, jovens tradicionalistas e adultos do MTG lhes explicaram o porquê das comemorações e alguns dos nossos principais usos e costumes como a habilidade na confecção do símbolo da nossa hospitalidade: o chimarrão.
Não há quem fique indiferente ao presenciar o interesse dos estranhos para ouvir e saber mais das nossas práticas como povo e nação rio-grandense. Porém, há que se organizar melhor a festança, respeitando-se as caracterizações de cada época e se evitando as interferências pouco recomendáveis, através do filtro do bom senso. A poeira, o barro, o esgoto a céu aberto, a precariedade da infra-estrutura concedida pelo poder público em todos os níveis no parque da capital, enfim, não condizem com a importância dessas comemorações. O interior e até plagas distantes no estrangeiro têm tropilhas de exemplos bem sucedidos.
Voltando aos desfiles, ainda há muito a ser analisado. Por ora, saliento a felicidade dos tradicionalistas mais atentos ao verem reflexos do alcance do artigo 29 da Carta de Princípios do MTG elaborada por Glaucus Saraiva (o mesmo do “amargo doce que eu sorvo num beijo em lábios de prata...”). A Carta recomenda a necessidade do tradicionalismo “conquistar um estágio de força social com ressonância nos poderes públicos e nas classes rio-grandenses...”. Por entre os incontáveis cavaleiros da capital, estavam Secretários de Estado, representantes do Poder Legislativo e outras autoridades. Quanta diferença dos primórdios desses festejos e dos desfiles de décadas passadas. Por isso, a homenagem ao Paixão Cortes foi justa e merecida.
O mundo ? Ah, o tradicionalismo como cultura viva tem recebido o aconchego de novos adeptos em todos os lugares.
Proseamos mais, pensando alto, numa nova oportunidade dessas propiciadas pela gentileza do Guimarães.
Até lá !
Porto Alegre, outubro de 2007

*******************

Valor afetivo do “mês” farroupilha

 

A Semana Farroupilha tem muito disso: um reencontro com os valores pessoais e com as crenças recebidas por herança dos antepassados. Aqueles longe de serem rio-grandenses ou os gaúchos que nunca estiveram muito presentes nas lidas gauchescas, todos, invariavelmente, perceberão que este é um período diferente aqui no Rio Grande do Sul. Por estas bandas, é, praticamente, o mês farroupilha, tal o envolvimento das pessoas com os preparativos, os acampamentos e as atividades propriamente ditas.
Lembro-me nessas ocasiões do Paulo Aripe, o padre-poeta que criou a Missa Crioula, um dos meus principais padrinhos nos versos, na profissão de comunicador e de produtor cultural. Um dos seus poemas reflexivo-humorístico, relata a primeira viagem de trem de um índio grosso de Alegrete à Porto Alegre, no qual ele descreve a visão interiorana que se tem do porto-alegrense de segunda a sexta: “o homem da capital sempre sério e preocupado, mecânico e artificial, num atropelo brutal”. Estranha-se mesmo a rua da praia e o vai-e-vem automático cada vez mais acelerado. Esse atropelo é uma das tantas diferenças que podem ser percebidas ao se olhar o mundo com a retina um pouco mais descansada.
Quantos telefonemas do interior solicitam alguma ajuda para parentes e amigos próximos sem que se perceba que, muitas vezes, é preciso fazer-se quase uma viagem dentro da própria cidade de Porto Alegre. Eu também pensava assim... Achava curioso, por exemplo, tanta correria de segunda à sexta-feira e a folga no sábado. Após um ano de vida na capital e mais dez na região metropolitana é possível convidá-los a pensar sobre esse fenômeno. Fica até mais fácil entender-se as razões do Paixão Cortes e dos outros companheiros de 1947 ao agitarem o ambiente com a cavalaria, a ronda crioula e tudo o que de lá decorreu.
O Acampamento Farroupilha no Parque da Harmonia é repleto desses sentimentos saudosos e do prazer de ser rio-grandense por nascimento ou adoção. Os gaúchos são assim por natureza: focados na necessidade e na importância de se reafirmar sempre como povo e como cultura. O Barbosa Lessa, autor da memorável tese o Sentido e o Valor do Tradicionalismo, tão atual quanto foi na sua apresentação em 1954, afirmou, incansavelmente, que “o tradicionalismo como movimento de massa seria sempre entendido por uma minoria intelectual”. Pois, estes se reúnem aos demais na Semana Farroupilha e, deste encontro do tradicionalista autêntico campeirista com os apaixonados pelo culto, nasce o sentimento revigorado de que ser gaúcho já nos basta “p´ra ser feliz no universo” ( Eis o Homem -Marco Aurélio Campos).
O valor afetivo é parceiro de mate do valor cultural. As artes campeiras chimarreiam juntas com as habilidades artísticas e da culinária. Não faltam trovadores, declamadores, cantores e instrumentistas. Palestras povoam salas citando fatos históricos e lições contemporâneas. A recreação dos fandangos se mescla aos aplausos pelas habilidades campeiras do tiro de laço, da gineteada e tantas demonstrações da tradicionalidade. Até o desfile de vinte de setembro é diferente...
Talvez a saudade e a lembrança sejam decisivas no coração do morador porto-alegrense, que é capaz de dedicar alguns dias das suas férias para acampar na precariedade da infra-estrutura dos parques públicos. No interior não é diferente, mas o registro que quero fazer é de que Porto Alegre tem um envolvimento especialmente surpreendente, tantos foram os meus amigos que se mobilizaram para estarem organizados em grupos fraternos reavivando o fogo, renovando o mate, mantendo a água quente na mais autêntica e afetiva hospitalidade. Faça chuva ou sol lá estão eles. E elas são muito mais do que belas, porque acompanham como parceiras e conviventes, algumas decisivamente.
Por todo o mundo estão os gaúchos a comemorar esse sentimentalismo farroupilha. Será que precisamos mais ? A recente Expointer, a safra, os nossos destaques individuais ou coletivos nas competições, enfim, é inegável a satisfação de se ver valores rio-grandenses serem reconhecidos nos diversos campos e setores da atividade humana. Ao poder central e institucionalizado, porém, ainda precisamos fazer mais reivindicações e exigências. Por hora, resta aplaudir os governos que possuem Departamentos de Tradição, Cultura e Folclore atuantes, ativos, incentivados e em sintonia com o valor afetivo do coração rio-grandense. Festejamos por hora, mas voltemos ao tema do compromisso governamental com a cultura do nosso povo numa próxima campereada.

Gravataí, 1º set 2007.

 

O pacto campeiro

  Conheci somente o meu avô paterno. Sempre era visto de bombacha, camisa e guaiaca. O lenço no seu pescoço só aparecia em momentos especiais ou quando saia para algum passeio, visita ou ir ao médico mais ao final da vida. As botas tinham a mesma destinação, porque o chinelo de couro preto assumia o seu acompanhamento na quase totalidade das funções caseiras.
O meu pai foi o filho que assumiu, numa espécie de pacto campeiro, o envolvimento com a preservação da tradicionalidade dos usos e dos costumes da família e da sua geração. Os seus irmãos destinaram-se a atividades e incumbências outras, distantes do Centro de Tradições. O mais velho fez investidas num cargo de assessoria de uma patronagem, em um outro CTG, após o casamento e por um bom tempo. Os demais, pilcharam-se algumas vezes para ocasiões recreativas.
A minha mãe, oriunda do interior, sabia tanto quanto o meu pai das lidas campeiras e, além de tudo, escondia resquícios de suas habilidades, por exemplo, nas oportunidades nas quais alguém oferecesse um cavalo para montaria. Esquivava-se, porém, cedia à insistência e montava sentada de lado sobre a anca do animal no mais tradicional estilo de quem sabia andar a cavalo sentada no selim (ou silim, pela oralidade). Eu, piazito, presenciei muitas vezes jovens mulheres tentando aprender com ela particularidades como essa e, finalmente, optando por montar do modo masculino, alegando praticidade.
Eu gostava do futebol e, como os bons canhotos do meu tempo, chutava forte e não temia pelas jogadas dos adversários. No campinho do bairro, na quadra do colégio, no pátio das casas e até sobre o calçamento da rua sentíamo-nos como jogando no tapete verde das narrações esportivas. As pedras irregulares do calçamento muitas vezes destampavam um pedaço do dedão, contudo a partida continuava amarrada pela honra de buscar a vitória. Tinha o boco, o jogo de bolitas e as brincadeiras que se aprendia na escola ou que chegavam ao conhecimento da gente por um guri ou uma guria nova que aparecia na redondeza. A família visitava parentes semanalmente. A vida mudava de direção nas férias escolares e acampávamos na casa rural da avó materna.
Em uma sexta-feira veio o aviso: “amanhã, vocês vão conhecer um CTG”. A piazada ainda estava formando os times quando saímos para a parada do ônibus. Ainda não sei se me impressionou mais a recepção das pessoas ou a grandiosidade do “galpão crioulo” do CTG Rodeio da Saudade. Lembro-me bem do ensaio de danças das crianças. Acanhado, bastou apresentarem-me à 1ª Prenda para que a guriazinha me puxasse pela mão, apoiada pelos adultos. Pressionado, recordo apenas que ela usava óculos, estava de vestido de prenda e que eu, por inabilidade, pisei os seus pés nas primeiras tentativas.
Meu começo foi assim. Cresci dançarino, virei posteiro mirim, depois juvenil, adulto e portador de troféus e medalhas por danças e declamações. Estudávamos as danças do Manual do Paixão Cortes para depois ensinar aos demais. Meu pai escrevia a Coluna Tradicionalista para o Jornal Diário Serrano e a vida foi passando ou nós passando por ela.
Torci muito pelo nascimento de um guri, após nove anos de casado. E fui atendido. Compartilhamos a administração do seu crescimento e procurei respeitar as suas opções pensando na minha primeira dança. Sempre vi meu pai ativamente envolvido no tradicionalismo e a minha irmã construindo sólidas bases culturais. Estréio hoje esta coluna eletrônica, pela gentileza do convite do Guimarães e pelo compromisso de carregar o bastão até a geração do meu filho, como um pacto assumido do qual, aos poucos, nós vamos aprendendo os detalhes e os porquês.

dilmarpaixao@yahoo.com.br

 

 

Você também pode publicar um artigo de sua autoria no Jornal Virtual Chasque Pampeano. Mande seu texto e foto, se tiver para o e-mail: guimaraes@chasquepampeano.com.br